Esse é um post um bocado diferente dos demais. Aqui, não estarei falando de uma obra em específico, de uma notícia ou discutindo sobre algum assunto do mercado nacional de mangás. Estarei falando de mim – não que eu já não faça isso usualmente – e alguns sentimentos que tem me ocorrido ao longo desse ano de maneira mais intensa.
Não sei bem por onde começar, nem como irei conduzir o post em si, mas vou para um evento recente e depois volto para o começo do ano. Nas últimas semanas, eu estou preparando uma série de resenhas para serem publicadas em Setembro, para um pequeno especial. Entre as obras que selecionei (e finalmente li), está “My Broken Mariko“, Josei da Waka Hirako que foi publicado no Brasil há alguns anos pela JBC. Para quem não conhece a obra, fala sobre a Shiino, que recebe a notícia de que sua amiga, Mariko, havia se suicidado. A partir disso, vamos revisando a vida dessas duas mulheres e as memórias que a Shiino carrega da amiga e nisso, vemos que a Mariko passou por violências e abusos do pai na infância, se envolveu em péssimos relacionamentos amorosos na vida adulta e quem servia de sustentação para a Mariko, era a Shiino, até chegar o ponto dela não aguentar mais e terminar por suicidar-se. É um mangá muito pesado, denso e me pegou muito, de forma que eu não consegui escrever nem duas frases da resenha.
Tem anos que estou para ler e resenhar a obra e minha intenção, era resenhar a obra em algum mês de Setembro desses anos, justamente para falar do Setembro Amarelo e campanhas relacionadas à prevenção do suicídio… mas no estado em que estou, eu acho que não conseguiria escrever isso, sendo que eu mesmo não estou muito no ímpeto da vida e, sinceramente… será que não está tudo bem com a morte? O sofrimento é tanto, a falta de vislumbre de melhora, que genuinamente tenho pensado muito sobre isso. Mas calma, não irei me matar.

Durante muito tempo da minha vida, quase todo o meu período escolar, eu sofri bullying (seja por ser afeminado e ‘viado’ – antes mesmo de eu saber o que era isso -, seja por ser muito próximo dos professores, “o preferido” e até arrogante). Foi um período de cerca de 10 anos passando por isso, em maior ou menor grau. Isso moldou muito do meu jeito de ser, me fez ficar contido, retraído, com problemas com minha própria imagem e jeito de ser. Em 2019, eu terminei meu Ensino Médio – e vale dizer, esse foi o único ano que não sofri um ataque que fosse, o que foi muito importante parar por ideias no lugar. E em 2020, eu passei para a UFSCar no curso de Biologia. 2020 veio pandemia, e fiquei até 2021 sem fazer nada do curso, até que em 2022 eu finalmente pude começar a fazer Biologia. Os anos que tenho passado lá foram excelentes para mim em muitos aspectos. Fiz amigas maravilhosas lá, melhorei minhas habilidades de comunicação, trabalho com o que AMO (plantas) e melhorei muito como pessoa: continuo sendo tímido, inseguro e com muitos problemas em lidar com ‘grandes’ concentrações de pessoas, mas existe um abismo de diferença entre o Alexsander de agora e o Alexsander de 2022.
Eu comentei nas redes sociais do blog e até então, não tinha tocado neste assunto com profundidade no blog em si até então: no começo de Março de 2026, pouco antes da volta do semestre na universidade, eu sofri um ataque homofóbico dentro do terminal de ônibus da cidade. Eu estava voltando do dentista, passei no banheiro antes de pegar o meu ônibus para casa. Estava usando uma das cabines e não consegui trancar a porta, até que um cara abriu a porta, já com um cabo de vassoura na mão, me acusando de estar me masturbando. Nisso ele começou a me espancar com o cabo de vassoura, me fez ajoelhar no chão, pedir desculpas para o funcionário da limpeza – por algo que não estava fazendo -, sem sessar com as agressões com o cabo de vassoura até conseguir quebrar o cabo na minha cabeça.
Uma das coisas mais avassaladoras para mim naquela situação toda foi perceber o quanto aquele banheiro estava lotado – com umas 15-20 pessoas lá dentro – e nenhuma delas interveio de alguma forma, seja em tentar parar as agressões, seja em chamar alguém da segurança para parar com tudo aquilo. O banheiro que estava lotado a hora que começou, rapidamente se esvaziou a ponto de praticamente ficar só eu e o agressor lá dentro. O cara que estava fazendo a limpeza do banheiro até disse que iria chamar o bombeiro para mim, saiu, me deixou ‘sozinho’ lá e depois de minutos, voltou sem ninguém, ali percebi que se eu ficasse, seria morto. E mais do que isso: quando finalmente consegui sair daquele banheiro, já com sangue escorrendo da minha cabeça por causa das pauladas, correndo e gritando por ajuda por aquele longo terminal, lotado de gente já pelo horário de pico, e novamente, sem ninguém intervir de alguma forma. As agressões só terminaram quando consegui cruzar o terminal – com meu agressor correndo atrás de mim para continuar a me espancar – e pedir por ajuda para duas funcionárias e um motorista de ônibus, que afastaram o cara de mim e levaram até a sala dos bombeiros. Quando perguntei se o cara da limpeza havia vindo pedir ajuda, o bombeiro que estava lá disse que não. Em nota, a empresa de ônibus da cidade chamou e tratou o meu caso de “desentendimento”.
Os dias seguintes ao ocorrido foram exaustivos: ainda no dia da agressão, depois que meu chegou para me buscar, tive que ir na UPA para ver os machucados. Das agressões, pelo menos, não tive lesões graves. Na volta para casa, assim que saímos da sala dos bombeiros, tive que ouvir meu pai me culpando pelo ocorrido, porque eu estava usando uma ecobag (e portanto, “de mulherzinha”) e ainda, perguntando porque eu “não reagi”. Na manhã seguinte, eu postei sobre o que aconteceu nas minhas redes sociais, falei com minha professora (que é minha orientadora e uma amiga) e assim, a notícia se espalhou rapidamente: falei com amigos, com um bocado de gente que eu não conhecia, com vereadores da cidade, com advogados, com outros professores da universidade e até com repórteres de jornais locais. Na sexta-feira, um dia após a agressão, eu ainda tive que ir fazer um B.O. e corpo delito, e ainda falando com mais gente – seja aqueles que queriam ajudar de alguma forma, seja com aqueles que queriam dar uma palavra de apoio e carinho. Na segunda-feira, começou o semestre com a calourada. Fui ao laboratório que trabalho na universidade durante a tarde, minha professora estava lá, junto de outra professora que divide o laboratório com ela e uma amiga e colega de trabalho. Fui bem recepcionado, conversamos, eu chorei e fiquei à noite para a calourada, pois tinha dito que participaria. Os eventos seguintes foram de algumas sessões de terapia na própria universidade, junto de um semestre abarrotado de coisas para fazer (5 disciplinas à noite + 2 monitorias à tarde 2 + minha Iniciação Científica + projeto de TCC).
Em partes, ter esse tanto de coisas para fazer de uma vez é bom, porque não obra tempo para ficar triste com nada, então não penso muito em “besteira”. Por outro lado, era realmente muita coisa, então não consegui fazer tudo da melhor maneira possível, o que faz com que eu me julgue pelo meu desempenho. Em geral, eu sempre tenho um sentimento de que estou sedo vagabundo, porque eu não tenho um trabalho formal e na concepção do meu pai, isso já é ser vagabundo. Ter muita coisa para fazer é uma forma de diminuir esse sentimento. Meu trabalho na universidade é com Anatomia Vegetal, fazendo pesquisa com uma planta nativa do Brasil e em dado momento, por uma razão banal e idiota, meu pai chegou a dizer que o que faço na universidade é inútil, o que foi um baque para mim, já que é algo que eu amo fazer.
Duas coisas me atingiram com muito impacto recentemente: recentemente, chegou a resposta da FAPESP para a bolsa de IC que tinha pedido meses atrás. A resposta: negativa. Estava contando com a bolsa, porque é uma forma de meu pai parar de me encher o saco, mas também porque em Outubro, temo Congresso Nacional de Botânica, que eu iria ir e até paguei minha inscrição (quase R$ 250 reais) e consegui aprovação para exibir um pôster com o resultado (de uma parte) da minha pesquisa. Com a negativa, dificilmente conseguirei ir. A gente mandou o projeto em 31 de Março e a resposta foi chegar quase 4 meses depois (faltava uma semana para completar 4 meses). Nós até vamos recorrer, mas vai saber quando chegará a resposta e se é que ela será positiva dessa vez… de forma que dificilmente, a essa altura do campeonato, irei conseguir ir.
E a outra coisa é que faltando uma semana para acabar o semestre, eu saí para ver um garoto e no caminho, ao passar pelo terminal, eu acredito ter visto o cara que me espancou na porta do terminal, vendendo passagem para quem chega ao terminal sem (coisa que ele fazia na época me espancou). Me choca que a empresa de ônibus, após todo o ocorrido, ainda permita essas práticas (embora não surpreenda, já que classificaram tudo como um “desentendimento”) e mais ainda, é perceber como ele continua solto, enquanto eu tivesse que mudar meus hábitos (não entro mais em banheiro público, evito ao máximo aquele terminal, especialmente desacompanhado….). Nesse meio tempo, devido ao cansaço como um todo e correria do semestre, não tive tempo de buscar o laudo do corpo delito (que eu teria que pagar para retirar), nem de ir na delegacia responsável pelo caso (que fica longe de casa), de forma que eu acabei deixando isso “de lado”. Mas é, é isso. Quem se importa com o viado, preto e pobre? Se fosse o filhinho de alguém, quem sabe o cara não estivesse preso. É uma noção de que a minha existência não vale nada…
Tudo isso tem ressoado muito em mim, as vezes mais intensamente, as vezes menos… Mas o fato é que eu estou cansado. Não é de hoje, nem desse ano ou do ano passado, que penso sobre como, a certa altura, eu gostaria que minha vida não seja longa. Não é como se meus dias fossem uma desgraça em 100% do tempo, tenho vários momentos de animação, alegria e divertimento, na semana passada mesmo, eu fui a um show com minhas amigas. Mas sempre que olho para trás, não consigo não pensar em toda a tristeza e ela sempre me parece maior do que a porção de bons momentos, mesmo que eu saiba que isso não é verdade.
Para fechar, o meu episódio favorito da 1ª temporada de “Hanako-kun” é o sexto, em que vemos um pouco do passado do Hanako-kun, antes dele se tornar o Hanako-kun (Yugi Amane). Acho um episódio belíssimo, sobretudo o segmento final. Nas memórias que vemos, o Yugi tinha uma pedra da lua como seu maior tesouro, sentindo que poderia ir a qualquer lugar com ela. No fim das contas, ele entrega a pedra para o professor e decide que não vai mais a lugar algum. Eu não tenho essa coragem e, na verdade, apenas aguardo pela minha morte que, eventualmente, há de chegar. Só espero que quando ela vier, que seja rápida, pois se minha vida é sofrimento, que pelo menos na morte eu encontre um alívio rápido.

Eu genuinamente poderia publicar isso que escrevi – de forma mais resumida – no meu Instagram pessoal, mas ali tem amigos do meu convívio e parentes, que prontamente me questionariam sobre tudo e iriam querer conversar a respeito. Percebi, nos últimos tempos, que lido melhor escrevendo como me sinto, do que realmente falando sobre, daí minha vontade de escrever no blog, que “sempre” foi um espaço que compartilhei vivências e experiências, além de expor problemas que passava.
É isso, em breve volto à programação normal, com notícias, resenhas e afins.
