O retorno de crianças se aventurando em um mundo fantástico, porém extremamente perigoso.

No momento que estou fazendo esse post, vi em sequência o filme de Made in Abyss que ligam as temporadas, e a estreia dessa season. Estou ainda em choque tamanha a brutalidade e crueza de muitas cenas que tinham no longa, principalmente envolvendo as crianças, mas estamos aí, vivos (ainda bem), tentando racionalizar o que o autor quer nos contar nessa jornada do trio principal, e os meios que ele utiliza para prender a atenção do público, com encantamento da beleza visual e criatividade no roteiro.

SINOPSE: O enorme sistema de cavernas, conhecido como Abismo, é o único lugar inexplorado no mundo. Ninguém sabe até onde vai esse poço titânico habitado por criaturas estranhas e maravilhosas, e cheio de misteriosas relíquias antigas desconhecidas pelo homem moderno. Gerações de ousados aventureiros foram atraídas pelas profundezas do Abismo. Com o passar do tempo, aqueles corajosos o suficiente para explorar o perigoso fosso passaram a ser conhecidos como “Cave Raiders”. Em Oosu, a cidade à beira do Abismo, vive uma pequena órfã chamada Rico, que sonha em se tornar um caçadora tão grandiosa como sua mãe foi, e resolver o grande mistério do fosso.

É um tanto complicado definir o que é Made in Abyss, tamanha a complexidade sobre os temas abordados e as analogias que o autor dessa obra utiliza para representar sua visão a partir dos momentos mais impactantes em seu roteiro. E eu curto o anime de Made, mas não significa que eu não fique incomodado com algumas decisões criativas. Essa segunda temporada começa logo após os eventos do filme. Melhor dizendo, é, mas não exatamente imediatamente ao desfecho da luta do Bondrewd. A estreia inicia mostrando a triste realidade de uma criança pobre, que sofria abusos físicos e sexuais de quem lhe cuidava, e que por acaso encontra uma espécie de bússola que indicava o caminho para “El Dourado”. Quero dizer, ao menos era isso que eles acreditavam que iria acontecer.

Aproveitando essa oportunidade, Vuelo consegue vaga em uma expedição navegadora, convencendo o comandante (Wazukyan) nessa crença de uma cidade prometida, cheia de riquezas e glórias, e com auxílio do seu braço direito (Belaf), conhecedor de várias culturas e línguas, partem ao mar nessa busca de um sonho com tom infantil, mas tremendamente encantador. Vale comentar, a direção nesta introdução foi maravilhosa. Além das explicações e apresentações aos novos personagens, o diretor estabelece motivações dos mesmos, e o clima de aventura que permeia essa sequência para o espectador com muita naturalidade. Nos 5 primeiros minutos, dá para ter noção da índole de cada um dos 3 personagens citados antes, junto com suas personalidades e características marcantes, sem ficar corrido ou esquisito. Flui com tanta facilidade, que eu pensei que tinha baixado o episódio errado para assistir, tamanha a ambientação me passava que era outro anime que estava vendo. Depois de confirmar que era Made in Abyss, continuei o episódio, tentando entender qual era a proposta inicial da estreia, e o motivo de estarmos vendo esse novo grupo.

Depois de ter visto o episódio, entendi qual foi a ideia de deixar nebuloso o motivo de acompanharmos outros personagens além dos protagonistas por agora, servindo como contraponto da expectativa que aqueles exploradores tinham sobre a lenda, versus a realidade triste para o destino que eles estavam indo. Sim, aquela expedição acontecia CENTENAS (ou até milhares, não especificam com exatidão) de anos atrás, em direção ao vale que ficava o Abismo onde passa a história principal. É uma revelação quando nos é mostrado que todo aquele início já aconteceu no passado e que só estamos assistindo os primeiros que “chegaram” ao local. Coloquei ‘chegaram’ em parênteses, por causa que já tinham nativos na ilha, que reverenciam o Abismo como algo criado por deuses e que fogem da compreensão humana. Dá para fazer paralelos com o colonialismo que o continente americano teve, com pessoas que acreditavam serem pessoas mais evoluídas, buscando riquezas e exploração das terras, não pensando nas consequências que essas alterações possam ocorrer com os nativos que moram na ilha. Podia ser uma profanação entrar no abismo para a religião do pessoal que conhece o local, mas a ambição falou mais alto e o grupo do Wazukyan só continuava em frente.

Depois que é mostrado a primeira exploração no Abismo, eu buscava entender o porquê estávamos tendo esse flashback. Eu estava boiando foda, mas curioso para entender o que caralhos estava acontecendo. Por isso achei maravilhoso o episódio, pois no final entendi a ideia. Era para nos deixar desorientados de propósito, e atentos para qualquer detalhe, pois poderíamos ter novidades sobre as características do Abismo nas próximas camadas. A cena deles aprendendo que não podem cair ou subir rapidamente diferentes níveis é interessante, pois a maldição do Abismo afeta pesadamente o corpo de quem faz tal ação. O Wazukyan só quer desbravar a novidade, chegar na cidade do ouro e foda-se os sacrifícios que terão. São acasos ruins, mas dentro do esperado. O Belaf também não se importa tanto com casualidades, porém, o Vuelo nota que será a sua primeira e última jornada. Não é por previsão ou magia, mas sim ele próprio vendo sua inferioridade ao mundo desconhecido que o cercava no momento. Ele é uma presa, um incômodo (semelhante ao que vivia em sua casa), um fraco perante a uma força da natureza avassaladora. Ele pensou isso quando enfrentaram uma tempestade em alto mar, mas virou certeza quando olhou para o abismo.

O Vuelo vai sendo tomado pelo pessimismo, resultado em todo o sofrimento que foi chegar ao quinto nível, que quando ele embarca na mesma esfera que o trio presencial entrou no final do filme, temos uma transição de núcleos, em que voltamos para o Reg, Riko e Nanachi indo em direção ao 6º nível. Todo esse segmento é muito bacana, pois os 2 grupos estão indo para o mesmo destino (obviamente que em tempos diferentes), mas a atmosfera é totalmente oposta. O trio de protagonistas está com otimismo mesmo com sequelas e feridas físicas, enquanto no Vuelo é em tom fúnebre, de algo sem volta, como ele próprio narra que eles ficaram no local pelo resto da vida. Certamente a narrativa do anime de Made In Abyss irá abordar essa dualidade em que temos as visões das crianças esperançosas em descobrirem mais coisas, em contraste com o passado difícil que foi com o primeiro grupo de expedição. Ainda iremos visitar o núcleo do Vuelo nos próximos episódios, com certeza.

A produção do anime, ambientação, fotografia, edição, direção, trilha sonora, e outros detalhes de produção continuam excelentes. E tomara que continuem assim, pois estão fazendo um trabalho impecável. Até mesmo em relação às analogias e brincadeiras sexuais que o autor gosta de fazer envolvendo as crianças, o anime está bem mais ameno nessa abordagem. Eu li o mangá até onde o filme adapta, e o autor exagera demais nessas situações, até parecendo um velho lolicon que sente orgulho de sua tara doentia. Ainda me incomoda horrores, principalmente envolvendo brincadeiras da genitália do Reg, e de como ele fica de pau duro tocando na Nanachi ou na Riko. Odeio essas merdas e toda vez que rola alguma piada nesse sentido, só desejo morte ao autor. Os personagens devem ter nem 2 dígitos de idade, e têm mentalidades de adultos??? É muito bizarro e não era necessário. Dava para tirar que não fazia falta. A história já passa um ar menos lúdico com todas as desgraças que os protagonistas passam, desde ferimentos graves, até esquartejamento de pessoas vivas. Não precisa de piadas de duplo sentido, ou cenas “cômicas” sexualizando as meninas que só agradam os otakus doentes.

Made In Abyss não é uma obra fácil. Nem estou me referindo ao que citei no parágrafo anterior, e sim na parte de aventura em um ambiente completamente hostil. Essa afirmação é levada a sério, e os personagens sempre sofrem lesões ou agressões intensas (e bem gráficas). O próprio filme é algo muito explícito visualmente, e quando envolvem crianças em experimentos bizarros, mais o teu estômago fica embrulhado. Eu não sou sensível com cenas fortes como mutilações, mas até para mim tem momentos em que Made gera um desconforto bem forte enquanto assistia os episódios. Gosto de Made in Abyss e recomendo o anime. O lance é você estar preparado emocionalmente para ver cenas difíceis e que o anime irá explorar esses momentos nos mínimos detalhes.