Vamos lá comentar o sexto anime que estreou nessa temporada e que eu dei a chance para ver do que se trata. A obra da vez será Roll Over and Die (usarei o nome inglês, porque o título em japonês é uma enciclopédia). As minhas expectativas eram bem baixas, e mesmo dessa forma, o primeiro episódio foi horrível. E, considerando o que temos nessa estreia, com certeza o anime vai ser esquecido (até mesmo de maneira proposital) pela galera que curte um GL.
SINOPSE (Crunchyroll): Flum não foi escolhida por sua força — ela não tem nenhuma. Sem magia, sem habilidade, apenas uma capacidade chamada “Reversão” que nem ela entende. Então, por que Deus a colocou no grupo do herói? Após ser traída e vendida como escrava, Flum é maltratada e eventualmente jogada aos monstros para seu entretenimento. Agora, diante da morte, Flum precisa escolher: ser devorada ou empunhar uma espada amaldiçoada que, dizem, mata quem a empunha.

É complicado falar sobre Roll Over and Die, e não é relacionado ao seu conteúdo ou sobre cenas polêmicas envolvendo abusos e afins, mas sim sobre qual seria seu público-alvo. É difícil até uma tentativa de resumir em algum ponto narrativo comum, porque a própria obra aposta em diferentes estilos e gêneros, não criando uma identidade própria, assemelhando-se a remendos e costuras em roupas surradas. E boa parte da culpa do anime não conseguir alguma “harmonia” do enredo com sua proposta é por conta da direção. Ele é o famoso diretor de Big Order (quem assistiu sabe do quão merda foi aquilo).
E caso olhem o currículo de seus trabalhos anteriores, verão um padrão bem característico dos animes que dirige, que é a sua mão pesada em extrapolar e exagerar nas cenas. Ele é OVER em tudo. Se a cena pede drama, vai ser a cena mais extrema relacionada ao emocional que você verá, dando orgulho até em novelas indianas dos anos 2000; se o clima do momento é mais EDGY e DARK, teremos diálogos maniqueístas no talo, digno de Kaifuku e Tate no Yuusha; se o vilão precisa fazer maldade, ele será o capeta na Terra movido a perversões e desejos sexuais. Resumindo, esse diretor tem tato zero quanto a fazer um anime equilibrado ou que condiz com a narrativa, caindo em decisões questionáveis quanto ao que seria mostrado na animação e o impacto para o espectador.
Por apresentar tantos altos e baixos, apostando em um clima de “vingança”, entretanto, vira contradição visto o que temos no título da obra, que a princípio seria um foco na aventura da dupla principal em sobreviver. É para ter um tom mais ameno do que mostraram. Só que, por consequência desses exageros, tudo fica muito maior do que é. A abertura do anime é isso: um death metal maluco com um monte de cenas trevosas, junto com um romance entre duas garotas inocentes como tema central em um mundo que precisa matar um rei demônio com uma party de heróis escolhidos pela ordem divina. Parece cinco animes em um. É o combo. Leva cinco e assiste um. Nesse emaranhado de gêneros, a estética do anime também fica bem prejudicada.

Eu queria saber por que a composição visual de Roll Over and Die é tão escura. Em uma tentativa de aparentar ser uma trama mais “adulta”, acaba deinxado mais com cara de anime ruim de baixo orçamento que otakus isolados socialmente curtem, igual a Darwin’s Game, Goblin Slayer ou o já citado Big Order. Tem momentos que é só borrão e escuridão, pois queriam baratear a produção e censurar cenas mais violentas; no entanto, fica incompreensível assimilar o que está passando na tela de tão escuro que está, mesmo colocando o brilho máximo na TV/monitor. E, pela direção não saber lidar com essa obra, a narrativa e a edição são afetadas completamente.
A decisão de intercalar passado e presente foi péssima. A primeira cena é ela recebendo o título de herói para, segundos depois, termos um cara a enforcando. Por quê? Sei lá. Só explicam lá na metade do episódio, após a Flum já estar em um battle royale de sobrevivência com zumbis. Considerando que o tempo presente é com a Flum presa, estamos sem contexto de nada. São coisas jogadas e temos que ir pegando, pois nem isso o anime explica. Ela está presa e continua dali. Só que no roteiro, era necessário ter um momento de explosão emocional da Flum, no esquema de superar os limites. No entanto, como não sabemos nada dela, decidem voltar lá para o passado novamente com uma narração em off, situando o espectador sobre quem é a Flum e o motivo da protagonista estar lá na masmorra de escravos.
A partir da metade do anime, finalmente temos a síntese da história da animação até aquele momento. A Flum não tem atributo nenhum, tudo zerado, porém, mesmo assim, é escolhida pela igreja na missão de matar o rei demônio. Como é a igreja e a dimensão de seu domínio? Como esse mundo é? O motivo de usarem status, estilo game de RPG? Como é feito esse sistema de escolhas de heróis? Que reino estamos vendo? Existem mais? O sistema de classes sociais, como é a divisão? Escrevi algumas perguntas, mas tenho dezenas de outras que não são respondidas. O roteiro de Roll Over and Die é péssimo em construir seu universo para quem está assistindo. Por não termos dimensão de nada, tudo é superficial. No final, temos que recorrer a um senso comum de outras obras do mesmo estilo para ao menos nos situar no local em que a trama de Roll Over and Die se passa, empobrecendo seu conteúdo e a ciência do mundo proposto.

Uma boa obra não pode permitir questionamentos por parte do público. Caso não seja necessária uma resposta ou exposição para aquele fato, tem que ter outros aspectos que entretenham o espectador, não criando tempo para dúvidas, resultando na satisfação ao terminar o episódio com uma experiência ótima. Parem e reflitam sobre o enredo dos seus animes favoritos. Certamente você vai lembrar de algo que não curtiu ou que não faz sentido. Entretanto, o sentimento e a sensação que a obra te passou vão ficar acima de qualquer defeito que você levante após seu término. E em Roll Over and Die não consegue esse feito. Na realidade, o roteiro de Roll Over and Die acaba destacando seus deslizes, praticamente colocando uma luz de palco com o máximo de potência possível na bosta feita, sendo impossível ignorar aquele detalhe.
Todo o lance dela ser enganada por um dos heróis, sendo vendida como escrava; todo o exagero dramático da Flum sendo marcada; o vendedor de escravos ser caricato (estilo vilão de hentais); a protagonista ter uma baixa autoestima além do normal, não fazendo sentido dado o contexto e que só serve apenas para movimentar a trama; a protagonista não ter profundidade nem mesmo quando consegue uma espada amaldiçoada, sendo apenas o estereótipo de pessoa ingênua que acredita na bondade humana; a Flum ainda acreditando na sociedade, mesmo ela tendo noção das regras sociais daquela região; todos os personagens que aparecem para a Flum no final do episódio são maus porque sim, sem uma conjuntura adequada… Entre várias outras coisas que só reforçam aquela péssima impressão que aparenta sobre o anime não ser nada além de algo DARK e EDGY.
E ter esse sentimento justo com um anime GL me deixa ainda mais triste. Não estou dizendo que não devemos ter animes sombrios para a galera que curte um yuri. Tivemos, temporada passada, Watashi wo Tabetai, Hitodenashi. Temos vários exemplos de yuris que abordam temáticas mais sérias ou pesadas, sem a obrigação de ser apenas um romance entre duas mulheres. O meu ponto é que a obra Roll Over and Die é horrível em tudo que propõe a executar. Não consegue apresentar um elenco de personagens decentes que não sejam apenas figurantes de luxo ou clichês com apenas uma linha de personalidade, o tom que a obra adota fica na linha do idiota ou exagerado, a lore inexistente, direção e edição terríveis, junto com um roteiro que somente entrega algo simplório sem profundidade, resultam na minha decepção completa enquanto digito esse texto.

Gente, se vocês fossem enganados por pessoas em quem confiam para pouco tempo depois jurar proteção para uma pessoa desconhecida toda enfaixada, achariam crível? Você está em fuga de uma prisão, e aparece um maluco com feições criminosas te oferecendo um emprego que claramente é furada e perigosa, com promessas impossíveis, aceitaria sem questionar? Você está com uma marca GIGANTE na cara, que te entrega para as autoridades a qual classe pertence, e, sabendo que todo mundo tem preconceito contigo em relação a status, andaria nas ruas de forma tranquila? A personagem Flum responderia sim para todas essas perguntas.
Ela foi ameaçada de abuso, acredita que foi enganada pelos amigos (nem todos, porque só foram dois heróis que a expulsaram no início), quase virou comida de zumbi para o entretenimento de um gordo escroto sadista, a população a olha torto por ser uma escrava e ela tem conhecimento desse fato, só que, MESMO ASSIM, ela acredita no líder de uma guilda que ela nem sabia da existência cinco minutos atrás. A ingenuidade da personagem é de tirar para maluco quem está assistindo. A protagonista continua dessa forma, porque foi o único jeito que acharam que a história precisava para progredir. Eu não queria um Naofumi da vida que jura vingança contra todos, mas, porra, a guria devia estar com o desconfiômetro ligado depois de toda a experiência que ela enfrentou horas antes. A Flum inicia bobinha e continua assim até o final, sem desenvolvimento algum. A única diferença é que ela fica encantada com uma guria toda enfaixada, sendo paixão à primeira vista. Exceto isso, permanece igual. E, se não fosse por esse fato da Flum assumir a função de protetora da Milkit, ela seria uma protagonista pior que o Kirito de SAO (para você ver o nível que estamos).
Definitivamente não recomendo a ninguém assistir ao anime. Mesmo para os fãs de GLs. Não vai valer a pena, pois o anime não vai melhorar muito mais do que foi apresentado. A não ser que você seja igual a mim, um masoquista lunático que, mesmo na merda completa, vai tentar tirar algum proveito de seus gêneros favoritos que assiste nas temporadas.

O anime está disponível na Crunchyroll. Clique aqui caso queira assistir.
