Tem quase 5 anos desde que lançamos a resenha do primeiro volume de “Tomie” aqui no blog e tanto tempo depois, revisitamos a obra para falar do segundo (e último) volume da edição da Pipoca & Nanquim. Queria falar da obra novamente há um bom tempo, porém, nunca parava para escrever.
Recentemente, li “Ayako”, do Osamu Tezuka e fala coisas interessantes que, de certa forma, conversa com “Tomie”, então considerei como uma ocasião perfeita para falar tanto de Tomi, como de Ayako, e é por isso que a resenha de ambos está sendo lançada ao mesmo tempo!
“Tomie” (富江) foi escrito e ilustrado por Junji Ito. Foi publicado entre 1987 e 2000 na revista Nemuki da editora Asahi Sonorama, sendo concluído em 3 tomos. Os dois primeiros volumes fazem parte da coleção “Ito Junji Kyoufu Manga Collection” (伊藤潤二恐怖マンガCollection), sendo lançados sob os títulos “Ito Junji Kyoufu Manga Collection – Tomie” (伊藤潤二恐怖マンガCollection 富江) e “Ito Junji Kyoufu Manga Collection Tomie Part 2” (藤潤二恐怖マンガCollection 富江 Part 2) em 1997, respectivamente. A parte 3 foi publicada com o título “Tomie Again – Tomie Parte 3” (富江 Again – 富江 Part 3) em 2001 e republicada em 2007. Antes dessa parte, foi lançada uma edição compilatória da obra em um único tomo pela mesma editora, saindo com o título “Tomie – Edição Completa de Tomie” (富江 – The Complete of Tomie) em 2000, sendo republicada em 2007. Depois disso em 2002 foi lançada uma versão no formato bunko completa em 2 volumes que pertencem a coleção chamada “Museu de Terror de Junji Ito” (伊藤潤二恐怖博物館), sendo publicados com o título “Museu de Terror de Junji Ito – Tomie” (伊藤潤二恐怖博物館 – 富江).

Sinopse: “Podem matá-la quantas vezes quiserem, que ela ainda assim ressurgirá neste mundo, mais bela do que nunca. Ninguém sabe ao certo quem ou o que ela é, mas uma coisa é certa: se você se deparar com Tomie Kawakami, seu destino estará selado. E ele não poderia ser mais aterrador. Por trás de um rosto fascinante, realçado por uma única pinta debaixo do olho esquerdo, esconde-se um mal terrível. Um mal sedutor, capaz de enfeitiçar os homens e levá-los a cometer o mais hediondo dos atos: o assassinato. Mas como explicar o fato macabro de que a vítima desse instinto homicida é a própria Tomie? Eles a matam, matam e matam, mas o mundo nunca estará livre de Tomie. Deixando um rastro de loucura e cadáveres, essa misteriosa beldade morrerá e matará incontáveis vezes…”
A proposta básica da obra todos conhecem: uma moça, chamada Tomie, é linda, encantadora e atrai a atenção de todos ao redor. Porém, não importa o que aconteça, a bela jovem é sempre assassinada em casos bizarros, como já tradicional do autor, retornando vez após vez, sempre em um lugar diferente, igualmente bela, mas sempre sendo morta no final…
“Tomie” é o que considero como a obra maestral do Junji Ito. Este é um mangá que o autor sempre poderá revisitar, não só pela estrutura narrativa da obra com capítulos normalmente desconexos, contando histórias isoladas envolvendo a Tomie, como pelo simples fato de que a Tomie (como símbolo) existe na vida real: não como uma figura do caos e que sempre volta, mas como mulheres que são mortas, assassinadas, às dezenas, de forma diária por homens. Não é à toa, o Junji Ito revisita a obra com novas histórias, sendo que a mais recente foi lançada na edição de maio/2024 da Nemuki+ (Asahi Shimbum) lançada em abril de 2024 no Japão.


Reli a resenha do primeiro volume que fiz e nela eu escrevo: “A guria [Tomie] está lá para causar o CAOS MESMO. Está além dos caras serem escrotos. Eles sentem uma compulsão, uma vontade absurda de matar e esquartejar ela. Criam uma completa obsessão de estar com ela, de monopolizar a Tomie, seguido pela vontade de matá-la.“. Hoje, revejo essa minha opinião e tenho uma outra bem diferente. Embora diga que o desejo de matar a Tomie esteja para além dos rapazes, na verdade, é mais sobre eles do que sobre ela(s).
Homens enxergam nas mulheres uma figura menor, que não deve ser respeitada ou vista como igual. É da própria insignificância deles que nasce o ódio pelas mulheres (que vai ser aparado por uma estrutura social machista e misógina que retroalimenta esses pensamentos), principalmente em um tempo que eles não conseguem exercer controle sobre elas, o que, novamente, revela a sua própria mediocridade. A obsessão dos homens com a Tomie nasce com o desejo, que vira posse e, na impossibilidade de tê-la por completo como “coisa” e como exclusiva para eles, matam ela.

Alguns dos contos feitos pelo Junji Ito no mangá abordam rivalidade feminina, ou uma certa inveja da Tomie, algum comentário sarcástico ou até comportamentos questionáveis, mas o fato é que essencialmente, na grande maioria dessas histórias, a Tomie NUNCA fez nada de errado. Ela vivia sua vida normalmente, os homens que ficam obcecados por elas e, às vezes, ao serem rejeitados, a matam cruelmente. E não é isso que acontece na vida real, dia após dia? O que acho genial nessa alegoria (e é por isso que considero a obra-prima do autor) é que a Tomie é sempre igual. Por que ela sempre volta? E por que ela se multiplica? Podemos pensar numa explicação partindo do seguinte: na nossa realidade material, todo dia vemos ao menos uma notícia de uma mulher que foi vitima de um homem e se a Tomie representa a vitima de violência, faz sentido que sejam iguais, pois a Tomie vai representar um símbolo: todas são mulheres lindas, que viviam suas vidas de forma plena, até um homem chegar e as interromper de forma brutal. E ela se multiplica, porque todo dia temos uma nova mulher (muito mais que uma) tendo o mesmo fim que a Tomie. No fim, vemos histórias de Tomies sendo noticiadas cotidianamente e que representam o verdadeiro horror.
A reta final de 2025 (momento em que escrevo essa resenha) está sendo marcada por uma série de casos brutais de feminicídios, em que homens ((ex)maridos, (ex)namorados, (ex)’companheiros’…) destroem a vida dessas mulheres. Um marcante é o da Tainara Souza Santos que foi atropelada e arrastada por mais de dois quilômetros e meio pelo ex-ficante, Douglas Alves da Silva, tendo as pernas completamente destruídas, ficando internada por quase um mês e que infelizmente veio a falecer na noite de 24 de Dezembro. Além dela, temos vários outros casos que poderiam ser mencionados: Vanessa da Silva Carvalho, assassinada pelo então “companheiro” (cujo nome não foi divulgado); Rosilene Barbosa, assassinada à tiros pelo ex, Edis Ramos Mandacari; Mirelly Cristina da Silva, morta à facadas (20 vezes) pelo ex,Vitor Caetano Figueiredo; Elida do Nascimento Silva, morta à tiros pelo então marido, Luiz Miguel, um policial militar, e que estava tentando se divorciar dele. Esses são só alguns dos muitos casos que aconteceram entre o fim de novembro e dezembro de 2025…

A Tomie, quando morta, se deforma, e vista como diabólica (quando viva, é vista como provocadora) e uma figura realmente monstruosa, mas os verdadeiros “monstros” são os homens, seus algozes. E, embora use “monstros”, precisa-se acabar com essa ideia. A figura do “monstro” (ou da monstruosidade pelo ato) vira um espantalho que afasta a responsabilidade e a culpa dos homens pelos seus atos, pois torna a figura distante, torna-se “o outro” e não “eu”. Quem violenta, abusa e MATA essas mulheres são pais, maridos, namorados, amigos… seus amigos. E se você está em com amigos que alimentam comentários ou piadas misóginas, ri delas ou mesmo se abstém de alguma forma, você também ajudou na opressão e na morte dessas mulheres. E as mulheres ainda precisam lidar com homens (supostamente aliados) falando sobre como o feminismo é o culpado por afastar as mulheres. É o feminismo o grande culpado por mulheres serem assassinadas, confia… E se olhar os comentários de quem defende o tal homem, é justamente a ala misógina que o cara supostamente é contra. Curioso como as coisas são… O fato é que a sociedade não vai bem, e em diversos aspectos e em muitas frentes, há uma falência social de várias coisas que conhecíamos e retrocessos em outros setores. É preciso ouvir mais do que as mulheres dizem e se elas falam que há um problema, o mínimo que devemos fazer, como homens, é prestar atenção e ouvir (quietos).
Em 2025, fiz meus dois primeiros estágios em escola (para quem não sabe, faço licenciatura em Biologia pela UFSCar) e para além da educação e condições de trabalho extremamente precárias, duas coisas me chocaram com relação aos alunos: a primeira é o quão cedo eles estão sendo iniciados sexualmente (crianças de 11 anos falando arbitrariamente sobre sexo, não de forma leviana, mas como quem parece saber muito bem do que está falando), mas também o quão preconceituosos e misóginos eles são. Foram meses ouvindo preconceitos diversos (principalmente homofobia, mas também racismo) e meninos destilando misoginia. Enquanto alunos e menores de idade, é possível e necessário a intervenção para ao menos tentar uma quebra na maneira como agem, pensam e se comportam frente às mulheres (na era digital, com acesso quase irrestrito à celular e internet, discursos de ódio vão ainda mais longe e são alimentados pelas redes), afinal, como bem conversei com uma amiga, esses meninos de hoje, serão os homens criminosos de amanhã se não houver uma ruptura no ciclo.

Mas afinal… o que “Ayako”, um mangá da década de 1970 que trata de assuntos políticos do Japão dos anos 1950-1970 tem a ver com este Shoujo de horror do final dos anos 1980-2000 que tem uma alegoria sobre a violência contra a mulher? É que “Ayako”, ao mesmo tempo que está discutindo sobre as políticas do Japão pós-guerra, também é um retrato cru da vida das mulheres japonesas: vitimas de abuso de seus maridos e companheiros, que são silenciadas por eles, oprimidas, abusadas sexualmente, tratadas como “coisa” ou como moeda de troca, privadas de liberdade, assassinadas… o Osamu Tezuka era bem à frente do seu tempo, incluindo questões bem feministas, como reivindicações pelo direito das mulheres. Embora as obras tratem de temas diferentes e estruturas diferentes, essas duas obras conversam sobre essa triste realidade que mulheres vivem diariamente.

- A edição nacional
“Tomie” foi publicado pela editora Pipoca & Nanquim entre Fevereiro e Março de 2021 no formato 15,5 x 22 cm, possui cerca de 370 páginas por volume, impressas no papel Pólen Bold, capa cartonada com sobrecapa fosca e verniz localizado no título. O preço de capa inicial foi de R$ 64,90. De 2021 para cá, o mangá ganhou uma série de reimpressões (pelo menos 3 reimpressões) e a reimpressão mais recente veio pelo preço de R$ 94,90. Em breve, lançamos o vídeo mostrando os dois volumes da edição nacional!
- Conclusão
Não falei de muitos trabalhos do Junji Ito aqui no blog e, na verdade, “Tomie” é o primeiro mangá do autor que resenho. Pretendo falar de algumas outras obras do autor no futuro (a coleção de obras do Junji acabou ficando cara, então só parei de comprar e alguns dos que tinha, como “GYO”, da Devir, eu vendi). No entanto, entre os que li, esse é um dos meus favoritos, sem sombra de dúvidas e é o que considero como a obra-prima dele, ainda que nem todas as histórias sejam excelentes. Saldo é positivo! Se tem um trabalho dele que recomendo, é Tomie!

- Ficha Técnica
- Título original: Tomie (富江))
- Título nacional: Tomie
- Autor: Junji Ito
- Serialização no Japão: Nemuki
- Editora japonesa: Asahi Sonorama
- Editora brasileira: Pipoca & Nanquim
- Quantidade de volumes: Completo em 2 volumes
- Formato: 15,5 x 22 cm, capa cartonada com sobrecapa fosca e verniz localizado
- Papel: Pólen Bold
- Preço: R$ 94,90 (edição mais recente)
- Compre em: Amazon
