Fiquei pensando durante algum tempo: “Qual obra eu poderia associar ‘Heated Rivalry’ para conseguir falar da obra no blog?”. Cheguei à conclusão que o anime “Yuri! ON ICE” (um anime de dança no gelo) seria o ideal, mas até eu rever (leia-se: ter coragem de rever), ia levar muito tempo e como “10DANCE” (um filme live-action sobre dança) estreou na Netflix há pouco tempo, acho que dá para falar dele. Podem se perguntar: “Mas o que um tem a ver com o outro?” e eu diria que pouca coisa na verdade, mas o fato é que ambas as obras são demonstrações muito claras de um esforço muito metódico de atores que querem expressar ao máximo as vontades e desejos de seus personagens para além do que é dito propriamente, e de direções que entendem o material que estão adaptando e as abraçam para potencializar o que é contado e narrado em suas obras.
Vez ou outra, a produção Ocidental merece alguma nota e “Heated Rivalry” é um desses casos.
*minha fala pode soar esnobe sobre o que é produzido no Ocidente e é proposital! isso porque o Ocidente vive fazendo o mesmo com a produção Asiática*
A meu ver, “Heated Rivalry” recupera algumas coisas que as produções Ocidentais têm perdido de alguns anos para cá: sutileza, subtexto e personalidade. Vou começar falando do último aspecto e depois eu falo dos outros dois. A Netflix – e outros streamings – entraram em um modo de produção industrial em que se produz e se lança muita coisa, mas a preços bem altos que incluem perda de criatividade, mas acima de tudo: pasteurização. Tudo é muito igual, sem alma, sem individualidade, como uma linha ou esteira de produção, de forma que nada é muito marcante e tudo é muito efêmero (se faz muito sucesso no primeiro momento, mas logo são esquecidos, tamanha irrelevância). Quanto aos outros dois aspectos, é um sintoma do nosso tempo, mas as pessoas têm perdido a capacidade (e o interesse) de interpretação para além daquilo que é dito – e convenhamos, até o que é dito tem tido claramente uma carência enorme de interpretação -, logo, se não está exposto na tela, as pessoas não entendem, o que leva a interpretações equivocadas, um não entendimento e até a desgostar da obra… O fato, também, é que para você trabalhar com subtexto, entrelinhas e com detalhes, é necessário que o expectador preste atenção e no nosso tempo, isso está cada vez mais difícil. É muito recorrente ver gente comentando que assiste a algum programa (filmes, séries, novelas…) com o celular na mão ou fazendo outra coisa ao mesmo tempo e, se o que você quer passar também está naquilo que não é dito oralmente, a mensagem se perde. Dito tudo isso, é muito reconfortante – e acho que essa é uma boa palavra para descrever – ver uma produção Ocidental que dê tanto valor ao texto propriamente, mas sem esquecer do que não precisa ser colocado em palavras e é manifestado por gestos, pela montagem de uma cena, pela troca de olhares (ou a falta delas), por coisas banais como o Shane ficando mais calmo ao ver o Ilya e isso ficando evidente pela diminuição do ritmo cardíaco… detalhes esses que, inclusive, compõem o trabalho do autor e faz eles demonstrarem ainda mais do seu talento.
