No começo de Agosto de 2025, a editora MPEG anunciou sua entrada no mundo dos manhuas (os quadrinhos chineses) com “Starting with a Lie” (从谎言开始), BL do Liang Azha. A obra foi publicada na China entre 2019 e 2020, sendo completa com 63 capítulos + especiais. De primeiro momento, foi dito que o manhua viria em uma edição de 2 volumes. Com o tempo, isso não foi para frente, pois a edição nacional acabou seguindo a versão dos demais países, em 4 volumes. Após alguns atrasos, o manhua enfim começou a ser publicado no Brasil agora em Junho de 2026, na ocasião da Poc Con 2026, contando, inclusive, com a presença do autor no evento e sessões de autógrafos.
O blog estava presente no evento e conseguiu o autógrafo com o autor! Hoje, apresentamos nossas impressões da obra neste primeiro volume!

Sinopse: “Para evitar as confissões simultâneas de Xia Yiyi e Qiu Mang, Tang Tang diz a elas que não se interessa por garotas. Mas, quando as duas não acreditam nele e exigem provas, Tang Tang tenta resolver a situação pedindo ao seu amigo Chen Qingye que finja ser seu namorado. Embora Chen Qingye pareça hesitante diante da proposta de Tang Tang, ele decide aceitar… O amor pode realmente começar com uma mentira?”
- História e Desenvolvimento
Acompanhamos aqui, a história de romance entre o Tang Tang – e eu adoro esse nome – e do Chen Qingye, que começa a partir de uma mentira, já que o Tang Tang mente para a Xia Yiyi e para a Qiu – que se declararam para ele – sobre já estar namorando e acaba usando o amigo como meio de fugir das duas garotas. O problema é que as duas meninas ficam muito desconfiadas desse relacionamento e pedem cada vez mais provas da existência, não bastando apenas coisas mais “simples” e pedindo coisas como demonstrações táteis desse casal, o que coloca o Tang Tang em uma situação complicada, já que precisará exigir mais do amigo – que ele é apaixonado -, o que ele não sabe, porém, é que o Chen também é apaixonado por ele.


Esse pedido do Tang Tang vai se desenrolando e se enrolando mais a medida que essa mentira precisa ganhar mais e mais volume para convencer as pessoas do relacionamento entre eles. E conforme precisam mentir, eles acabam tendo desencontros com aquilo que sentem e as linhas entre o que é verdade e o que é mentira (ou o que eles gostariam que fosse verdade) acabam se misturando bastante, o que o autor usa como forma de ir condensando sentimentos mais tortuosos e que, creio eu, serão usados como forma de criar um conflito entre o Tang Tang e o Chen.
Não é porque você conta uma mentira mil vezes que ela se torna verdade, mas, às vezes, um romance pode acabar nascendo de uma mentira, principalmente quando ela surge como oportunidade de aproximação, o que acaba sendo o caso desses dois. E como eles escondem os verdadeiros sentimentos atrás dessas mentiras, eles acabam se machucando e se frustrando por uma situação que eles mesmos se colocaram, em especial, o Tang Tang. A real é que, como tudo é muito repentino para os dois e como eles são apaixonados um pelo outro, eles não sabem exatamente como agir ou reagir, sem parecer que realmente estão apaixonados e nessa, acabam acontecendo situações de chateação.

Eu gosto bastante dos personagens, pois eles são muito fofos a sua maneira. O Chen, principalmente, já que faz o estilo do personagem que não demonstra claramente o que sente, mas que nós, como leitores, conseguimos ver essas nuances do personagem e perceber como ele é caidinho pelo Tang Tang, o que rende cenas extremamente fofas, como quando ele está super aéreo enquanto o treinador está chamando atenção dos membros do time do basquete para que não fiquem de romance e percam o foco dos treinos/jogos, justamente porque está encantado com o presente que ganhou do Tang Tang. É adorável!

Temos aqui uma narrativa bem básica, mas super gostosa de ser lida. Os capítulos tem cerca de 15-20 páginas e são feitos de forma a contar pequenos causos cotidianos entre os dois e as pessoas ao redor deles – de forma linear. É uma narrativa super gostosinha, daquelas que você está sempre dando risinhos enquanto lê. Tudo muito fofo e adorável. Eu li um pouco desse manhua alguns anos atrás, não lembro se cheguei a ler por inteiro, mas sendo bem sincero, não lembrava de praticamente nada da obra. Fiquei surpreso e feliz com a representação de homofobia que o autor coloca aqui e como o personagem na cena defende a si e, indiretamente, o seu parceiro. É uma passagem que é mais séria, bem importante, mas que na totalidade da obra, ainda dá para dizer que clima do BL é bem suave e gostoso, pode ser uma boa pedida para quem busca obras mais “tranquilas” nesse sentido!
Eu conheço os trabalhos do Liang Azha já tem alguns anos. Em 2018, eu comecei a me aventurar pelo BL e li muita coisa naquela época – muitas das quais, eu já esqueci. E o trabalho do Liang me encantava muito particularmente, porque eram obras muito gostosas de ler e sempre muito fofas, seja narrativamente falando, como pelo desenho, que tem a parte chibi, mas também pelo modo como o autor pinta o manhua, com tons bem leves, tornando o clima geral das obras ainda mais suave.

Minha surpresa maior foi, alguns anos depois, descobrir que o Liang Azha é um homem. Se você acompanha a produção BL asiática (especialmente, Japão, Coreia do Sul e China) sabe que é bem tradicional se associar BL à mulheres, sendo elas o principal o principal público e a principal força na produção das obras. Claro, embora se associe o BL à produção feminina (e no Japão, BL é demografia feminina), muitos autores nós não sabemos como se identificam, portanto, sempre acho muito legal e positivo ver autores homens no Boys’ Love. Na produção chinesa, eu só conheço o Liang Azha; na Coreia do Sul, tem o Byeonduck, autor de “Painter of the Night” (muito conhecido por aqui como “Pintor Noturno”); e no Japão, tem alguns como o Nagabe (A Menina do Outro Lado; Monotone Blue), o Minamoto Kazuki (“Um Gay de 30 anos” (Josei autobiográfico); “Kaijuu ni Natta Gay” (Seinen); Ore no Hanamuko wa Omae Janai) e o Hiromasa Okujima (Dousei Yankee Akamatsu Seven).

E falando no Liang, eu gosto bastante das inserções cômicas que o autor faz ao longo do volume na obra. Ele, em partes, zoa com a própria cara e ri de si mesmo ao longo de todo o manhua, como quando, em uma situação de conflito entre os personagens, o autor se representa tomando broncas de leitores por ele ser do “mal” por gerar problemas no relacionamento desses personagens. Não só isso, como ele também faz referências à produção chinesa, seja de séries, como de outros manhuas, a exemplo do muitíssimo famoso “Here U Are” (em publicação no Brasil). O manhua também tem bastante notinha de tradução para dar contexto a algumas piadas ou referências que o autor coloca na obra, como por exemplo, a informação de que o Liang Azha é muito amigo da Djun – autora de Here U Are -, o que acho bem legal.

Também foi um enorme prazer ter tido a oportunidade de conhecer o Liang Azha na Poc Con 2026. Ele foi muito simpático e durante todo o tempo que vi ele presente – eu, depois de rodar o evento, fiquei descansando durante horas no estande da MPEG -, foi extremamente atencioso e receptivo com todos que foram pedir autógrafo. Tirou foto com todos, incluindo comigo. Enfim, um verdadeiro querido! E feliz que a MPEG continuará a explorar as obras do autor, já que anunciou o manhua “All of You” – que se passa no mesmo universo de “Starting” – e o danmei (romance BL) “Chentan’s Memories“.
E acho interessante pensar sobre como novas editoras (ou editoras mais recentes) no mercado de mangás tem conseguido trazer autores asiáticos para o Brasil, em comparação com as grandes casas que em anos de mercado nunca trouxeram ou trouxeram há muito tempo atrás (a exemplo do Yuu Kamiya que veio para o lançamento de “No Game No Life”, há mais de 10 anos atrás). A MPEG trouxe o Liang Azha, mas também já tivemos mais recentemente a Pipoca & Nanquim que trouxe o Junji Ito para o Brasil na CCXP 2023; a DarkSide Books trouxe o Nagabe para o Brasil em duas ocasiões: uma em Novembro de 2024, e uma segunda vez na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, no ano passado; e a Tábula trará o Shintaro Kago ao Brasil para participar da CCXP 2026. Editoras novas são sempre muito bem-vindas, não só porque expandem a publicação de obras no Brasil, mas também porque são meios de renovação, de trazer novos ares ao mercado e que, de certa forma, servem para fazer pressão naquelas que estão estabelecidas e que, frequentemente, se ‘acomodam’ demais.


- A edição nacional
“Starting with a Lie” está sendo lançado no Brasil pela MPEG no formato13,7 x 20 cm. A edição tem capa cartonada com orelhas, com acabamento fosco e verniz localizado no título, personagens, logo e número da edição. É impresso no papel Off-set 90g, com 232 páginas, todas coloridas. A tradução é de Nathalia Viana. O volume incluiu marca página e postal de brinde e para quem estava na Poc Con 2026, ainda se conseguiu um pôster (mesma ilustração da capa). O preço de capa é de R$ 89,90. Em breve lançamos vídeo mostrando a edição em detalhes ^^
- Conclusão
“Starting with a Lie” é um manhua muito adorável e que vale muito a pena de ser lido. Ele vale tanto para quem gosta de obras com uma vibe mais tranquila e para cima, como também recomendo bastante para quem quer começar no BL e não sabe por onde partir. Fico feliz de ver mais e mais BLs chegando no Brasil e por mais editoras também e particularmente feliz neste caso, já que é um autor que conheço o trabalho há uns bons anos e agora, não só tenho uma obra dele comigo, como também pude conhecê-lo pessoalmente!
Obrigado por lerem e até a próxima resenha! ^^

- Ficha Técnica
- Título original: Starting with a Lia (从谎言开始)
- Título nacional: Starting with a Lie
- Autor: Liang Azha
- Serialização na China: Dongmanhua, IQIYI, AC.QQ, BiliBili
- Editora chinesa: —
- Editora nacional: MPEG
- Quantidade de volumes: Completo em 4 volumes
- Formato: 13,7 x 20 cm; capa cartonada com orelhas
- Preço de capa: R$ 89,90
- Tradução: Nathalia Viana
- Compre em: Loja MPEG/Amazon
