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Um simples slice of life, porém com uma mensagem subliminar bem perigosa.

Vamos lá para o quarto anime da Temporada de Inverno 2026 que comentarei no blog, e justamente vai ser um anime de cotidiano /rotina de uma dona de lavanderia na cidade litorânea do interior do Japão. Falarei de Kirei ni Shitemoraemasu ka, cuja estreia achei no máximo ok, mas na reta final do episódio fiquei refletindo algumas questões da estreia que passam despercebidas, porém, no momento em que notei, não consegui mais ignorar.

Sinopse (Crunchyroll): Nos últimos dois anos, a alegre e trabalhadora Kinme Wakana administra uma pequena lavanderia na cidade litorânea de Atami, conhecida por suas fontes termais. Em seus dias tranquilos, Wakana se vê envolvida nas histórias comoventes e agridoce das pessoas ao seu redor.

Quero iniciar o texto criticando, mais uma vez, a Crunchyroll. Esse anime está escondido na plataforma. No sistema de busca, não é possível encontrar o título, tanto com o nome em inglês que o serviço utiliza como padrão para as obras transmitidas, quanto em japonês. Tive que recorrer àquela página HORROROSA de calendários de lançamento da CR para finalmente assistir ao anime. Para piorar a situação, até o momento em que estou escrevendo este texto, tanto o título da obra quanto o banner principal da página da animação, assim como a thumbnail do episódio 1, estão ausentes. Simplesmente tem uma imagem genérica com o logo da empresa da Sony no lugar, e é isso aí. Pagamos um serviço para esse nível de amadorismo, sem sequer ter uma página pronta para o anime presente no catálogo… Que legal, não é mesmo!?

Agora, voltando ao tema principal desta postagem, Kirei ni Shitemoraemasu ka acabou sendo um anime bem padrão do gênero slice of life. Até protocolar demais, pois realmente acompanhamos dois dias de trabalho da protagonista Kinme. Ela atendendo os clientes, lavando as roupas, passando o ferro, tirando manchas, conversando com outros habitantes daquela cidade, interagindo com os demais sobre o quanto curte todo o lance de limpar tecidos, refletindo o quão boa é a sua vida por ser dona da loja de lavanderia… Tipo, é só isso que o episódio mostra. Nada além disso. Não espere alguma narrativa ou enredo com algum conflito. Claramente, não vai ser aqui que você terá algo para entretenimento. É somente o cotidiano da Kinme lavando roupas dos outros.

Aliás, um adendo aqui: graças a Deus não temos um episódio duplo de estreia. Imagina uma hora seguida disso. Seria infernal terminar. E se o episódio fosse apenas mostrando o dia a dia da protagonista, estaria de boas quanto a isso. Só que o anime encerra o episódio em um tom abaixo para mim, visto a mensagem “discreta” que está sendo passada no roteiro. Calma, que explicarei.

A começar, temos a personagem principal, Kinme. Ela é a mulher perfeita. A guria não tem defeito algum. Ela é toda boazinha, trabalhadeira, faz as coisas sem reclamar ou ficar cansada, proativa, está sempre pensando no bem do próximo, gentil, tem toda a paciência do mundo com pessoas idosas, inteligente, tem empatia pela dor dos demais, ama ficar conversando com as pessoas, curte tarefas domésticas, adora cachorro, é atleta, transforma água em vinho… resumindo, reencarnação de Jesus na Terra (exagerei na parte do vinho, mas o resto acontece). Essa afirmação é o resumo do que foi mostrado no primeiro episódio. E, para quem me conhece, sabe que eu detesto esse tipo de personagem. O bacana de assistir algo envolvendo pessoas é conhecer seus defeitos e erros, sendo algo necessário para acompanharmos a evolução delas ao superar suas falhas. Personagem que acerta ou consegue tudo sem esforço é uma merda chata. Mas foi apenas isso que me fez ficar com o pé atrás com a obra? Calma, que o conjunto envolvendo a protagonista é maior do que a superfície mostra.

Continuando, vamos assistindo à rotina da Kinme em sua lavanderia durante o episódio. Só que teve alguns momentos, no mínimo, esquisitos que aconteceram de forma segmentada, que, num primeiro momento, não fiz nenhuma correlação; entretanto, existe uma relação entre todas as cenas que foram um tanto distintas do tom adotado pela narrativa. A primeira cena foi quando a Kinme atende uma jovem adulta casada. A mulher foi pegar o terno do marido e tal, acaba falando que sempre está ocupada, que não tem tempo para fazer as coisas em casa e elogia a Kinme por ser excelente no que faz. Só que, logo após esse diálogo, ela comenta algo assim para a protagonista: “Meu marido adorou o que você fez no terno dele, deixando o tecido muito macio, do jeito que ele gosta. Ele pediu para te agradecer e elogiar.” Aí começa uma cena pra lá de sugestiva da Kinme indo ao pé do ouvido da mulher comentar, de um jeito provocante e sussurrando, o que fez para deixar a roupa com toda essa maciez. A cena, supostamente, era para deixar evidente o quanto ela é nerd sobre lavar roupas. Só que, do jeito que foi realizada, abre margem para uma outra linha, mais sensual. Achei fora de tom, pois não tinha nada antes desse momento que passasse esse sentimento. Achei estranho, porém pensei que fosse alguma piada que não peguei e só ignorei.

Mais adiante, teve outra cena esquisita, que é quando ela foi tomar banho naqueles banheiros públicos tradicionais do Japão, onde se paga para se lavar com a mesma água que outras centenas de pessoas usaram anteriormente. É um negócio completamente nojento que não entendo; no entanto, é costume de lá dividir um banho com estranhos, então vamos relevar. E nem é sobre isso que quero comentar, mas sim que, nessa parte, a direção valoriza demais o belo corpo da protagonista. Não chega a ser estilo anime ecchi, em que colocam closes nos seios ou na bunda, só que, por algum motivo, há vários planos abertos em que só a fumaça esconde as partes íntimas da personagem. Novamente, foi esquisito, porque o anime não tinha essa linha, e fica jogado esse momento ali no episódio, visto o tom adotado antes. Pensei que era eu vendo maldade em cenas que não tinham esse propósito. E, de novo, só ignorei, pensando que eram coisas da minha cabeça maliciosa.

Só que foram se acumulando mais cenas desse mesmo estilo, como uma velha, com estereótipo de sogra rabugenta, aparecer na lavanderia e a Kinme ser MUITO mais gentil com ela em comparação a outros clientes que apareceram anteriormente (quase como uma jovem nora tentando conquistar a mãe do namorado), ela demonstrar vergonha, parecendo uma garota apaixonada por um guri que está no colegial (dá a entender que a Kinme é maior de idade), a protagonista agir como uma mãe para esse estudante quando ele vai à loja, sendo quase uma empregada exemplar, fazendo coisas além da proposta da loja, e que seria apenas de lavar roupas, quase em um esquema de submissão (ela fica ajoelhada para arrumar o sapato do guri sem ser requisitada)… Tipo, essa personagem, junto com a direção do anime, estava me incomodando, e eu não sabia o motivo desse sentimento. Entretanto, quando esse mesmo estudante termina o episódio dizendo: “Agora eu entendo por que minha mãe gosta tanto dela”, foi aí que tive um estalo na mente e notei a mensagem subliminar dessa obra.

Durante todo o meu texto comentando sobre o anime, deixei em negrito certas palavras-chave. Mulher perfeita, marido gostou, empregada exemplar, garota apaixonada, sogra, mãe, belo corpo… acho que dá para traçar um raciocínio disso. O anime é basicamente um manual de como uma mulher deveria ser no seu casamento. Só aí que caiu a ficha para mim e tudo foi se encaixando. Cenas como o casal de velhos elogiando a Kinme do nada na rua sobre o quão esforçada ela é (típico cenário daqueles comentários “Ela é perfeita para casar”), a protagonista fazer exercícios para manter a forma, mesmo afirmando que não consegue acordar cedo, ela querendo madrugar para lavar mais roupas por gostar de ser coisas “do lar”… tipo, o enredo está afirmando para nós, espectadores, que, para uma mulher ser 100%, ela precisa ser perfeita em tudo que envolva tarefas domésticas, que não pode reclamar, tem que trabalhar até o último suspiro, que deve ser prestativa com o marido e seus problemas, que precisa saber de tudo e que precisa estar sempre linda e bonita.

Por isso que temos cenas do banho, ou dela fazendo exercícios físicos; também temos aquele segmento da mulher falando que não consegue fazer as coisas e que seu marido elogiou o trabalho de outra garota, cujo a esposa não conseguiu fazer; velhos reforçando esse estereótipo com elogios exacerbados sobre as qualidades de esposa da Kinme (padrão de conservadorismo japonês)… Tipo, eu estava esperando assistir a um K-On! sobre nada acontecendo e ganhei um anime que exalta uma mulher prendada com pitadas de coisas de Red Pill. Acho que não foi a intenção do autor do original destacar essa linha de pensamento na obra, mas sabe aquela parada que o autor de Shingeki no Kyojin queria criticar sobre o autoritarismo e, no final, acabou exaltando? Sinto que é mais ou menos essa pegada aqui em Kirei ni Shitemoraemasu ka. Era para ser X e o resultado foi Y. E, pelo jeito, vai seguir nesse ritmo durante toda a temporada. Vai ser bem complicado esse anime.

Quanto à produção, a animação está satisfatória. Não esbanja, mas não compromete. A direção foi algo esquisito para mim inicialmente, porém, quando me toquei, o diretor está entregando aquilo que foi proposto. Considerando esse lado, é um trabalho competente. A edição e a trilha sonora fazem somente o básico, sem grandes destaques que valham comentar mais.

E assim, não estava esperando o anime ser esse manual de como ser uma dona de casa exemplar e, pelo jeito, se eu não ignorar esse fato sobre a mensagem passada nessa adaptação, vai ser terrível continuar assistindo a uma propaganda descarada de como ser uma esposa ideal.

O anime está disponível na Crunchyroll. Clique aqui para assistir.