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Yumi Tamura é brilhante!

Olá, gente! Como vão? Não sei exatamente em que momento este post estará sendo lançado, mas de toda forma, vale (re)lembrar: ao longo dos anos, o blog foi mudando o seu perfil e hoje em dia, dedicamos grande parte da nossa produção a falar de mangás de demografia feminina – se pegarem nossas resenhas recentes, podem ver que a grande maioria vai ser Shoujosei e/ou BL/Yuri – e neste mês de Setembro, um pouco depois do nosso aniversário de 7 anos de existência, estaremos publicando algumas resenhas de obras de demografia feminina, explorando alguns campos que demonstrem sua versatilidade e diversidade. Hoje, finalmente, lançamos a resenha de “Não chame de MISTÉRIO“, mangá Josei da grande Yumi Tamura.

Não chame de MISTÉRIO” é publicado no Japão com o título “Mystery to Iunakare” (ミステリと言う勿れ) e está em publicação desde Novembro de 2017 na revista flowers da editora Shogakukan. A obra está em andamento com 16 volumes e possui mais de 22 milhões de cópias em circulação, sendo um dos Joseis mais vendidos de todos os tempos e simplesmente O mais vendido da atualidade. O mangá é um completo sucesso no Japão – seja de vendas, como de crítica -, sendo vencedor do 67º Shogakukan Manga Award em 2021. Além de ter sido indicada ao 12º e 13 Manga Taisho Award em 2019 e 2020, respectivamente, ao 65º Shogakukan Manga Award em 2019, o 44º Kodansha Manga Award em 2020, na categoria de ‘Melhor Mangá Feminino’ e ao 26º Tezuka Osamu Cultural Prize em 2022. A obra ainda recebeu uma adaptação para série live-action entre Janeiro e Março de 2022 e a um filme live-action em Setembro de 2023. O mangá foi anunciado no Brasil pela JBC em Julho de 2023, na ocasião do Anime Friends, e começou a ser publicado em Abril de 2024, possuindo 8 volumes lançados desde então (o mais recente, em Junho/2026).

Capa da edição de Outubro/2025 da revista flowers com “Não chame de MISTÉRIO” em destaque.

Sinopse:Esse mangá nos leva ao mundo de um Sherlock Holmes moderno e único. A ação aqui dá lugar à reflexão, escuta e fala. Totono observa, analisa, deduz e aconselha, com uma franqueza que às vezes beira a impertinência. Ele é jovem e reservado, mas lança um olhar esclarecido sobre seus contemporâneos. E elucidamos a seu lado tantos pequenos aborrecimentos diários, muitas vezes reveladores da sociedade japonesa, como crimes sórdidos.”


  • História e Desenvolvimento

“Não chame de MISTÉRIO” é um mangá fascinante! O mangá tem dois capítulos basicamente. O primeiro conta um caso policial completo, enquanto que o segundo começa um mistério que terá seu desenrolar e conclusão no próximo volume. O volume começa com o Totonou se preparando para fazer curry, até que batem à sua porta e quando ele atende, temos o proprietário do imóvel acompanhado de policiais, que o pedem para que ele os acompanhe até a delegacia. O que aconteceu? O assassinato do Sagae, um estudante da mesma faculdade e da mesma turma que o Totonou, com o crime acontecendo próximo a sua casa, com uma testemunha tendo visto alguém parecido com ele na noite do crime e com ele, Totonou, sendo o principal suspeito.

Esse mangá é tão bom e tão maravilhosamente bem estruturado em termos narrativos, que é muito difícil falar do caso narrado sem dar spoilers, mas como eu absolutamente não quero estragar a experiência de ninguém, ficarei apenas no superficial e focar nos detalhes que tornam tudo tão bom. Mas sério, se tiverem oportunidade de conhecer a obra, façam! Por favor, façam esse favor a vocês mesmos!

O interessante desse caso é que por volta da página 40, dá para saber quem é o assassino, antes dos personagens chegarem nesse indicativo do real criminoso pouco mais de 10 páginas depois. O grande X da questão, é que mesmo ao saber quem é o assassino, o caso não deixa de ser interessante, pelo contrário, é aí que ele se torna ainda mais empolgante, pois vamos ver a maneira como o Totonou vai desmantelar esse caso para concluir quem, de fato, assassinou o Sagae. Quando digo que esse mangá é fascinante, não é só pelo texto ser tão bem feito, não é só pela condução da autora ser um primor, mas é também pelos pormenores que ela vai inserindo ao longo do caso e que, de uma forma ou de outra, por incrível que pareçam, vão convergir para o final da investigação. Neste primeiro caso – que vemos de forma completa – a autora trata sobre machismo, sobre o abandono o trabalho dobrado que mulheres enfrentam na vida de casado e não são reconhecidas por isso, sobre como homens formam essa ‘irmandade’ para proteger uns aos outros, sobre as relações de confiança e de morte, sobre medo de perder alguém – seja pessoa ou animal -, sobre as relações como as parentais se dão de maneira muito diferente pensando na relação pai x filho e mãe x filho, e tudo isso, conforme você vai lendo, parecem apenas críticas sociais mais isoladas, mas é realmente incrível como a autora consegue amarrar até os mínimos detalhes para tornar o conto fechadinho e redondinho.

Algo a se dizer é a maneira como a autora vai apresentando cada personagem. No primeiro caso, a cada passagem, o Totonou observa muito atentamente o que é dito pelas pessoas ao seu redor – e algo que ela estabelece desde o começo, é o quão boa é a memória dele – e ao pescar esses detalhes da vida de cada um, ele consegue deduzir algumas outras coisas ao fazer observações simples dessas pessoas. E é nesse momento, em que o personagem percebe algo – normalmente, alguma fragilidade ou dificuldade que está passando naquele momento – que a autora traz a apresentação formal do personagem. Assim, temos a apresentação de cinco figuras importantes: o oficial Katsunori Otobe, que já um senhor careca; a oficial Seiko Furomitsu, que é novata e tem alguns problemas de autoconfiança; o sargento Nariake Aoto, que faz o perfil da pessoa fria/equilibrada; o tenente Kanzou Yabu, que faz o arquétipo da pessoa esquentada; e o oficial Yuuto Ikemoto, cuja figura representa muito do pensamento padrão do homem na sociedade – você muito provavelmente já conheceu e/ou convive com um Yuuto da vida.

Para além do texto ser afiado em termos do mistério e da investigação policial em si, a Yumi Tamura é muito hábil em demonstrar a hipocrisia dos homens e o machismo que estrutura a existência deles e que por sua vez, molda a vida das mulheres também. O Ikemoto vai se tornar uma das figuras recorrentes da obra e eu acho muito interessante como a autora usa o personagem para explorar esses pensamentos machistas que são tão enraizados socialmente que passam a ser levados como o “comum”, “normal”… e o que torna mais interessante, é que a autora pega as coisas mais ‘banais’ do cotidiano para demonstrar essa normalização: por exemplo, na relação que os homens têm com os afazeres domésticos, em pensar que ele já faz o bastante por “ajudar” a esposa e que ela, inclusive, deveria ser grata por isso; ou sobre como na relação do cuidado com os filhos, o marido só precisa “ajudar” e a mulher fica com o serviço mais pesado (e essa ajuda é desde que o que for pedido não seja muito difícil/completo) e, novamente, ela precisa ser grata à ele por ele parar para ajudá-la, habidicando da criação deles.

O segundo caso que é iniciado aqui e deve ser concluído no volume #2, parte de um sequestro. O Totonou estava indo para o Museu ver uma exposição e pega um ônibus para tal. Tempos depois, porém, os passageiros notam que aquela não é mais a rota normal do ônibus e é então que é anunciado o sequestro. A situação desenrola de maneira particularmente estranha para os personagens, já que o sequestrador faz perguntas para cada um, querendo que eles se apresentem, digam seus nomes, profissão e um defeito. A situação se desenrola com mais eventos suspeitos e perguntas igualmente estranhas, só que isso acaba sendo um “””paraíso””” para que o Totonou fale coisas que soem ainda mais estranhas para aquelas pessoas, a capacidade de raciocínio e de ir “além” do que o sequestrador – que já para lá de doido – consegue prever é impressionante. Embora o clima permaneça tenso o tempo todo, essas ‘quebras’ que o Totonou traz involuntariamente são para lá de divertidas. E além disso, a autora faz um trabalho bem “Scooby-Doo” – trazendo para algo mais familiar – no sentido de ir deixando pequenas coisas suspeitas, olhares, expressões, diálogos estranhos, ao mesmo tempo que tudo o Totonou percebe e é fato que em algum momento, ele vai começar a juntar peças, tornando o mistério mais claro. É legal porque embora os leitores não conseguem deixar tudo claro – afinal, qual seria a graça também? – a Yumi Tamura deixa para o leitor a possibilidade de montar o quebra-cabeça enquanto o Totonou vai levantando a bola para mais coisas.

Neste capítulo, temos a introdução de um outro importante que eu arrisco a dizer que se tornará recorrente na trama, o Shou Kumada. Ele é um dos passageiros do ônibus e é excêntrico como o Totonou, não exatamente como ele, mas o fato é que ele tem uma forma de ver, ler e analisar as situações de maneira muito peculiar, de forma que o Shou em si é intrigante. O mangá segue de forma a deixar um gancho muito do interessante e que tragédia eu não ter o volume #2 para ler… Eu tive que reler esse volume para escrever a resenha agora e na hora que terminei, rapidamente me lembrei que quando li da primeira vez, eu logo pensei “Ah, preciso da sequência”, só que não tive oportunidade de comprar e no fim, esqueci. Terminando a releitura do volume agora, anos depois, tive o exato mesmo pensamento e sigo sem ter a continuidade da série… espero que as coisas melhorem para eu poder dar continuidade à leitura do mangá ^^

Não chame de MISTÉRIO é um mangá muito denso textualmente. Sendo uma obra de mistério investigativo, os personagens falam bastante – o Totonou gosta muito de falar -, o que torna o mangá um pouco pesado para ler, mas em momento algum ele soa cansativo – pelo menos para mim -, porque a Yumi Tamura escreve diálogos muito bem e mais do que isso, ela monta esse mangá com uma destreza impressionante! Seja na condução das situações, como na montagem do mangá que, apesar de ter uma quadrinização bastante simples/”padrão”, prende muito e te leva de maneira muito fluida ao longo das cenas apresentadas e narradas.

E além de tudo, o Totonou é uma graça! Ele é excêntrico e muito fofo! O cabelo dele é só um charme adicional para ele, que é um querido. Direto e as vezes, intransigente, mas realmente muito fascinante.

Há alguns anos, tivemos a exibição do anime de “SHOUSHIMIN”, baseado na novel de mesmo nome e um trabalho do mesmo autor de “Hyouka” (que teve anime pela Kyoto Animation no começo dos anos 2010). Sem entrar em muitos detalhes da história (para mais, leia nossa review do anime), a obra se propunha a ser um anime de mistério e investigação, partindo de pequenos causos do cotidiano. O grande problema é que ele é extremamente ruim na parte do mistério, isso porque o autor faz os protagonistas – pavorosos de chatos – tirarem conclusões do nada, sem levar o telespectador com eles, o que torna o anime chato e ruim. “SHOUSHIMIN” peca no que é básico para esse tipo de narrativa e, no entanto, “Não chame de MISTÉRIO” é BRILHANTE! Acompanhamos toda a linha de raciocínio do Totonou nos casos e mesmo os desdobramentos são bem explicados e amarrados pela autora. O Totonou é muito inteligente e a autora consegue demonstrar isso nos mínimos detalhes, enquanto que em SHOUSHIMIN, a grande impressão é que o autor quer que acreditemos que seus personagens são inteligentes, quando na verdade, está mais para os outros serem burros – e o fato dele forçar muito o desenrolar das tramas. Enfim, “MISTÉRIO” é maravilhoso (!!!) e eu queria uma oportunidade para falar mal (mais uma vez) de SHOUSHIMIN, rs.


  • A Autora

A Yumi Tamura é uma grande star do mangá Shoujo, tendo mais de 40 anos de carreira. Ela fez sua estreia no começo dos anos 1980, recebendo o ‘Grande Prêmio’ da Shogakukan (Grand Prize Shogakukan) para novos autores em 1983. Podemos separar a carreira da mangaka em três grandes atos, por três grandes obras: “Basara“, publicado entre 1990 e 1998 na revista Betsucomi (Shogakukan), sendo completo em 27 volumes, foi vencedor do 38º Shogakukan Manga Award na categoria de ‘Melhor Shoujo’ em 1993 e também foi o primeiro grande sucesso da carreira da mangaka; “7seeds“, começou a ser publicado em 2001 na Betsucomi e terminou em 2017 na revista flowers (Shogakukan), sendo concluído em 35 volumes, e marcou a carreira da mangaka como sendo sua obra mais longeva, além de ter sido premiada no 52º Shogakukan Manga Award na categoria de ‘Melhor Shoujo’ em 2007 e nomeada para a categoria ‘Best Comic’ no 49º Seiun Awards em 2018; e agora, desde o final de 2017 com “Não chame de MISTÉRIO“, que é simplesmente um fenômeno no Japão. Importante dizer que ao longo dos anos e ao mesmo tempo que essas séries grandes da autora eram publicadas, a mangaka ainda trabalhou publicando one-shots – que posteriormente, foram compilados em coletâneas – e séries menores.

Capas japonesas de “7seeds”, “Basara” #1 e “Não chame de MISTÉRIO” #16.

Apesar da mangaka praticamente emendar um sucesso atrás do outro e ser uma mangaka realmente prestigiada no Japão, no Ocidente, porém, a mangaka realmente não da sorte… por onde ela tenha passado ao longo dos anos, o que mais vimos foram flops em diferentes países… na França por exemplo, “Basara” saiu pela Kana no começo dos anos 2000 e não vendeu bem, e “7seeds” então, foi cancelado pela Pika depois de 10 volumes. É Não chame de MISTÉRIO que reacendeu a procura pela autora nos grandes mercados Ocidentais e acho realmente ‘sorte’ termos aqui no Brasil, mas mesmo assim, a série não parece funcionar em alguns mercados como a França (Noeve Grafx) ou mesmo no Brasil, que não parece ter vendas muito expressivas (aqui, só um palpite mesmo). Apesar disso, a força de MISTÉRIO parece estar levando alguns mercados a recuperarem obras da mangaka e testarem agora para ver se funciona. “Basara”, inclusive, está recebendo uma nova edição na França pela Kana que tem capas BÁRBARAS de lindas! É uma edição muito bonita, com material revisado, novas capas e edições de 300 páginas. Vou deixar a capa dos 2 primeiros volumes para vocês verem ^^

Volumes #1 e #2 da nova edição francesa de “Basara” pela Kana.

  • A edição nacional

“Não chame de MISTÉRIO” está em publicação pela JBC no formato 13,2 x 20 cm. O mangá tem capa cartonada brilho e tem cerca de 200 páginas neste primeiro volume, impressas no papel Pólen Natural 70g. O mangá tem tradução de Amanda Diniz. O volume incluiu marca página de brinde e teve preço de capa de R$ 39,90. Em breve, colocaremos o link do vídeo mostrando a edição nacional do mangá.

Tenho alguns comentários sobre essa edição da JBC: primeiro que a tipografia é horrorosa. Acho ela um pavor estético. Mas tirando isso, é uma edição bem ok. Gosto do papel, acho ele super gostoso. E não encontrei nenhum problema de revisão ou do texto propriamente. Já o outro comentário é que em uma página em específico, o mangá ficou com moiré – aquele efeito que as retículas não se misturam, ficando uma coisa esquisita (e feia) na impressão. Abaixo, deixo uma foto comparativa entre a mesma página na edição francesa e na edição da JBC.

Página dupla na edição brasileira. Notar como as retículas são evidentes.
Página dupla na edição francesa. Notar como as retículas são bem misturadas.

  • Conclusão

“Não chame de MISTÉRIO” é um dos GRANDES mangás da demografia que estão em publicação no Brasil atualmente e um dos mais importantes dentre os que chegaram ao nosso mercado nos últimos anos. Essa resenha está vindo com muito atraso, porque eu comecei a escrever ela em 2024. Na época, o plano era lançar o texto como uma das resenhas do especial de aniversário dos 5 anos do blog. Acabou que me enrolei e não consegui escrever para o mês. O tempo passou e só agora que a resenha está vendo a luz do dia, mas bem, antes tarde do que nunca. Infelizmente, o mangá não recebe a atenção que merecia e parece não vende muito bem, uma pena, e igualmente infeliz, é a JBC que não ajuda muito na promoção da obra: escrevo esse post em Julho/2026 e olhando o perfil do Twitter da editora até o momento, eu não encontrei um único post da editora dedicado para “Não chame de MISTÉRIO”. Com uma arte de capa que, embora eu ache bonita, muita gente não gosta e a falta de propaganda ativa da editora, restando apenas às poucas contas que falam de Shoujosei – e que gostam da série – fazer a recomendação, fica difícil pensar no mangá encontrando o seu público.

De toda forma, fica minha recomendação para o mangá! E nos vemos em breve para outras resenhas de mangás femininos! ^^


  • Ficha Técnica
  • Título original: Mystery to Iunakare (ミステリと言う勿れ)
  • Título nacional: Não chame de MISTÉRIO
  • Autora: Yumi Tamura
  • Serialização no Japão: flowers
  • Editora japonesa: Shogakukan
  • Editora nacional: JBC
  • Quantidade de volumes: Em andamento com 16 volumes
  • Formato: 13,2 x 20 cm; capa cartonada
  • Preço de capa: R$ 39,90 (do volume #1 ao #3) / R$ 43,90 (#4 ao #7) / R$ 49,90 (a partir do volume #8)
  • Tradução: Amanda Diniz
  • Compre em: Amazon/Loja JBC

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