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Um humano abduzidos e confecções planetárias artesanais!

Ao longo de muitos anos, o blog se dedica a demonstrar, apresentar e recomendar obras de demografia feminina, mostrando o potencial dela e a diversidade que ocorre no Shoujo e Josei [nesses dois, incluindo o Yuri], além do BL e do TL (Teen’ Love). Assim, vira e mexe estamos postando sobras obras diversas no blog, sobretudo nas redes sociais. No site em si, mensalmente recomendamos ao menos uma obra de demografia feminina, a fim de recomendar e ‘espalhar a palavra’ de obras que não são necessariamente muito conhecidas. E em Setembro, será mais uma dessas ocasiões, já que estaremos ao longo de todo o mês, publicando resenhas de mangás femininos – quase que 100% de demografia feminina – como forma de dar (mais) espaço para esses mangás e cujo alguns, infelizmente não são amplamente comentados (ora por quem cobre o mercado, ora pela própria editora).

Não sei exatamente quando de Setembro esse texto irá ao ar – estou escrevendo em Julho -, de toda forma, fiquem atentos para o que já saiu, como para o que ainda vai sair. Fiz uma seleção de obras bem eclética ^^ Enfim, o mangá escolhido para hoje é “Correspondência do fim do Universo”, o primeiro Josei da Editora Baú.

Correspondência do fim do Universo” é um mangá Josei escrito e ilustrado por Menota. A obra começou a ser publicada no Japão em Agosto de 2018 na revista Comic PASH! (editora Shufu to Seikatsusha), sob o título “Hate no Shoutsuushin” (果ての星通信). A obra foi publicada até Abril de 2021, sendo concluída com 5 volumes. A obra foi indicada aos Prêmios ‘Next Manga 2020‘ na categoria ‘Mangá Online’ e ao ‘WEB Manga Sousenkyou 2020‘, além de ter ficado em 4º lugar no ‘Anime-ka Shite Hoshii Manga Ranking‘ (Mangás que Gostaríamos de ver Adaptados em Anime) da AnimeJapan em 2021. No Brasil, a obra foi anunciada pela Baú em Fevereiro de 2025, iniciando a publicação da obra em Novembro do mesmo ano. Por ora, apenas o 1º volume foi lançado.

Sinopse:Marko tinha tudo pronto para a viagem dos sonhos com o amor de sua vida. Mas, antes que pudesse dar o primeiro passo, foi abduzido e enviado aos confins do universo. Agora, ele precisa passar dez anos trabalhando para uma organização intergaláctica enigmática se quiser voltar à Terra.
Correspondência do Fim do Universo é uma ficção científica romântica com toque de slice-of-life, um ‘drama de escritório’ espacial que mistura humor, saudade e crescimento. Entre missões absurdas, alienígenas excêntricos e descobertas inesperadas, a obra mistura ficção científica, humor e sensibilidade em uma jornada sobre saudade, propósito e conexão. Uma história única, para quem ama grandes aventuras com muito coração.


  • História e Desenvolvimento

“Correspondência do fim do Universo” conta a história do Marko, um jovem russo que depois de formado, vai sair da cidade que ele viveu e cresceu a vida inteira, partindo em uma viagem com o amor da sua vida – que ele pretende pedir em casamento. Quando o Marko era mais novo, ele passou por uma situação no mínimo, inusitada: um raio caiu nele e deixou uma cicatriz em sua testa. No dia que estava arrumando suas coisas para sair em viagem e enquanto falava com seu amor, ele é abduzido e materializado em outro planeta. Lá, ele é recebido por um alienígena peculiar que diz que agora, ele trabalhará no planeta Mosli, um dos planetas filiais da Administração do Fim do Universo, pelos próximos 10 anos.

O Marko não quer acreditar naquilo que está vendo e durante um período, quer acreditar que tudo aquilo não passa de um sonho. No entanto, vendo que não é um sonho, ele passa a trabalhar em pensar meios que possam viabilizar a sua volta para casa e, consequentemente, para a pessoa que ele ama. Nos primeiros dias de sua estadia forçada, ele faz tentativas (fracassadas) fugir em qualquer oportunidade, enquanto que outros personagens que trabalham naquele “setor”, coloquemos assim, até brincam com a cara dele, pois o Marko é muito transparente no desejo dele e esses personagens toda vez dizem que não é possível por algum motivo X ou Y.

Uma coisa a se dizer é que ao longo de todo esse primeiro volume, nunca entram no mérito de quem é essa tal pessoa amada pelo Marko. Nunca é dito seu nome ou mostrado o seu rosto, de forma que não se sabe se é homem, mulher… provavelmente é uma garota, mas creio que a autora não mostrou quem é essa pessoa, para que o leitor não tenha apego a sua figura. Isso porquê o Marko vai ter toda uma jornada nesse ambiente espacial e nessa tentativa de volta para casa, ele vai acabar sendo um bocado escroto com alguns personagens e ter posturas um tanto questionáveis – em maior ou menor grau -, então ter em mente a ideia que a figura da pessoa amada representa, serve como força para movimentar o personagem (e a trama), ao mesmo tempo que não prende o leitor a figura da personagem em si, deixando o público aberto para o que a trama irá apresentar nos próximos volumes do mangá.

Mas quem são as pessoas que estão naquele planeta junto do Marko? Temos o Diretor – que tem um nome, mas é impronunciável, então todos o chamam assim – que está lá há mais tempo; o Nanagi, que trabalha em Mosli há cerca de 7 anos; e a Fitzy, que está lá há uns 6 anos. Cada um deles é originário de um planeta diferente e o trabalho dessas pessoas é a produção de novos planetas! Ao longo desses primeiros capítulos, vemos que existe toda uma artesania por trás do nascimento de um novo planeta (e de sistemas solares inteiros), isso porque Deus (aqui, referido como “Ele”) se cansou do serviço e entregou ele a diferentes pessoas, de diferentes planetas, que ficam ciclos de 10 anos trabalhando na ‘fabricação’ de novos mundos.

Esse é um mangá interessante por alguns motivos. Acho toda a criação de cenário excelente. Menota é muito criativa e inventiva na concepção do plot da obra, a começar pelos personagens, que são muito diversos entre si. Só os outros funcionários e colegas de trabalho do Marko são bem diferentes, sendo que o Diretor tem a aparência de um robô, enquanto que o Nanagi e a Fitzy tem uma aparência mais humanoide, mas cada um com suas peculiaridades, seja no visual – a Fitzy tem braços que se assemelham a larvas -, como na fisiologia e alimentação – o Nanagi precisa comer pedras de sal para se manter saudável. E é maravilhoso como mesmo personagens quaternários, como os que aparecem bem brevemente nesse volume, a autora pensa em algumas características para eles, como o planeta de que vieram, alguma peculiaridade da morfologia e da alimentação.

Muito criativo e interessante é a “fabricação” de novos planetas. Os planetas começam como pequenos ‘fogos’ que são coletados e cultivados in vitro durante alguns dias. Nesse começo, esses planetas são praticamente indiferenciados e é durante a ‘alimentação’ destes que o criador – no caso, o funcionário responsável por aquele planeta – vai dando uma forma a ele, podendo adicionar elementos químicos diversos – o que vai moldar a composição do planeta -, se será um planeta grande ou pequeno, se terá vida ou não – e se tiver, como ela será -, quantas satélites naturais aquele planeta terá… enfim, tudo que envolve aquele planetinha. O processo em si é muito legal e bastante original até.

Agora, em termos de elenco, a melhor adição feita até agora é o Mawu, uma criatura do planeta Ronoutogi e que é uma graça! Não só pela sua forma – que é praticamente uma bolinha de pelos – como também porque ele é uma criança, e como tal, se comporta de maneira muito fofa. O planeta da qual ele vem é bastante interessante: Ronoutogi é um planeta habitado por um único casal de seres vivos, sendo que os machos se clonam (reprodução assexuada) e passam grande parte de suas vidas (senão, toda ela) em viagens espaciais coletando formas de demonstração de amor – cartas, poemas e afins – que eles levarão para a fêmea que está no planeta natal. Não vou dizer como o Mawu dá as caras e como ele passa a ser um personagem fixo, mas tem alguns aspectos bem legais nesse segmento da obra que é em relação às diferenças de cultura, sobre como o povo de Roboutogi vive em função do amor pela fêmea do planeta e se dedicam exclusivamente à ela, assim como nas possibilidades entre tocas de saberes entre esses povos diferentes e que portanto, possuem percepções diferentes, e as relações familiares ou de amizade/companheirismo que se estabelecem, seja entre membros que possuem uma relação sanguínea propriamente dita, como entre os que convivem como uma família por estarem no mesmo espaço. Tem alguns trechos muito emotivos envolvendo o Mayu e eu realmente adorei o personagem.

Tomem vacina!

O mangá vai seguindo com o personagem conhecendo mais dos colegas e mais sobre como produzir planetas, bem como se aventurando por outros planetas e outras realidades. Ao mesmo tempo que ele não desistiu de voltar para casa e como eu disse, o Marko vai ter umas atitudes que soam como sacanear os colegas. E a certa altura do volume, uma personagem chamada Rayzoltalpa vai entrar na história e ajudar o protagonista com seus planos. Essa é a última personagem introduzida no volume e vai ter uma participação importante na reta final dele. O ato final do volume tem um gancho interessante envolvendo o Marko que, em mais um de seus planos furados, pode acabar tendo consequências bem graves e pior, envolvendo quem nada tinha a ver nessa história toda…


Em certa medida e em algumas partes, Correspondência do fim do Universo lembra “Tenchi Souzou Design-bu“, mangá Seinen de Tsuta Suzuki, Hibizou e Tarako, aquela obra em que Deus desiste do trabalho de criação dos animais da Terra e terceiriza o serviço para um grupo de designers. Digo isso tanto pelo fato do criador em Correspondência também ter se cansado do trabalho de expansão do universo e, consequentemente, da criação de planetas e seus sistemas, como também porque temos vários grupos responsáveis pela criação de novos planetas e suas estrelas. Como estamos falando de uma escala muito maior do que em Tenchi Souzou, há vários departamentos no universo e cada um é responsável pelo monitoramento, assistência e criação de novos corpos celestes.

Sou uma pessoa muito triste por não ter esse mangá no Brasil…

“Correspondência do fim do Universo” é o primeiro mangá da editora Baú que resenhamos aqui no blog e me é de particular felicidade que isso se dê com um mangá de demografia feminina. Sempre acho positivo ter novas editoras no mercado, sobretudo quando elas estão abertas a trabalhar com o mangá feminino e acreditam no seu potencial. Durante a Poc Con 2026, onde pude reencontrar o Diogo [dono da editora], conversamos brevemente e ele me confirmou que o mangá estava vendendo muito bem (e sobre novos volumes, estão aguardando aprovações, mas esperam lançar mais 2 volumes ainda em 2026)! Em tempos não muito longínquos, as editoras do mercado falavam do Shoujosei como um sinônimo direto do romance e mais do que isso, falavam isso em tom pejorativo, como se todas as obras fossem iguais e que portanto, eram piores e/ou merecessem menos atenção (é muito daí que é difundida a falácia do “Shoujo não vende”). Então é muito positivo que tenhamos novas editoras, com outras mentalidades e que demonstram na prática não só a diversidade dessas demografias, como também mostrem como é possível que o Shoujosei venda – e venda muito bem – se você souber trabalhar com essas obras e souber as fazer encontrar seu público. “Correspondência” foi o primeiro mangá de demografia feminina da editora e o seu segundo mangá anunciado e lançado (depois, a editora anunciou e lançou o BL “Recomeçando depois de voltar para casa“) e que este seja apenas e o belo começo da jornada da demografia feminina na editora ^^


  • A autoria

Menota estreou profissionalmente em 2016 com o mangá “Okusama wa Dodo Tori” (奥さまはドードー鳥), publicado na revista Kurofune pixiv da editora Libre. Antes de ser publicado em revista, a obra nasceu como uma publicação independente feita no Twitter e no pixiv. No ano seguinte, a autora começa a serializar “Correspondência do fim do Universo” na Comic PASH! e vale dizer, a obra igualmente nasceu de uma publicação independente. A mangaka comenta no bônus do volume que a obra nasceu como uma publicação que ela fazia mensalmente nas próprias redes e antes de ser serializado, a obra tinha um núcleo de personagens mais fechado e enxuto. Atualmente, Menota publica “Merry Witches Life: Berle Basil no 3-nin no Miboujin” (メリー・ウィッチーズ・ライフ ~ベルルバジルの3人の未亡人~), mangá que ela publica desde Junho de 2022 na Comic PASH! e conta com 5 volumes publicados até o momento (o mais recente, lançado em Maio/2026).

Capas de “Okusama wa Dodo Tori” e dos volumes #1 e #5 de “Merry Witches Life: Berle Basil no 3-nin no Miboujin“.

Embora nosso especial seja dedicado ao mangá feminino, o que nos leva às demografias femininas, não são todos os mangakas que divulgam seu gênero. No entanto, sabemos que quem mais os produz são autorAs mulheres. Menota é um desses casos que nós não temos confirmação quanto ao gênero, mas por “Correspondência do fim do Universo” ser publicado como Josei – demografia feminina – no Japão, achamos por bem incluir aqui, ainda mais como forma de explorar aquilo que tanto defendemos e batemos na tecla: a diversidade das demografias femininas.


  • A edição nacional

“Correspondência do fim do Universo” está sendo lançado pela Baú no formato 13,7 x 20 cm (o formato padrão dos mangás da Panini e MPEG). Tem capa cartonada com sobrecapa. O mangá tem 176 páginas, impressas no papel Off-set 90g. A edição inclui marca página e postal de brinde. O mangá é traduzido por Dirce Miyamura. O preço de capa, neste primeiro volume, foi de R$ 39,90. O vídeo mostrando a edição nacional da obra será lançado em breve.

Sobre a edição, achei ela muito bem feita, com um acabamento muito bom. O texto é bom, fluido e só não li mais rápido, porque é um mangá com uma quantidade razoável de texto e também, porque me soou como um mangá que não é bom ser lido de uma vez, por causa da pegada dele. No demais, só encontrei um erro de revisão. Na página 47, o personagem diz “Você vai entender quando VIR com os próprios olhos”, sendo que o correto seria “ver”. Tirando esse, não achei outro erro.


  • Conclusão

“Correspondência do fim do Universo” é um mangá ok no geral. Tem uma história legal, personagens interessantes e o seu grande destaque é com relação à criatividade da autoria cm o mundo apresentado. Nem toda leitura precisa ser impressionante. As vezes, tudo que a gente precisa é um bom mangá para passar o tempo e julgo que Correspondência cumpra bastante esse fim! É um bom começo para a editora na demografia feminina e espero que este seja apenas o primeiro de muitos no futuro! ^^


  • Ficha Técnica
  • Título original: Hate no Shoutsuushin (果ての星通信)
  • Título nacional: Correspondência do fim do Universo
  • Autoria: Menota
  • Serialização no Japão: Comic PASH!
  • Editora japonesa: Shufu to Seikatsusha
  • Editora nacional: Baú Editora
  • Quantidade de volumes: Completo em 5 volumes
  • Formato: 13,7 x 20 cm; capa cartonada com sobrecapa
  • Preço de capa: R$ 39,90
  • Tradução: Dirce Miyamura
  • Compre em: Amazon/Loja Baú

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