A denominação de “mangá feminino” pode ser vista de maneira mais ampla, como todo e qualquer mangá feito por uma mulher, independentemente da demografia (ou seja, neste caso, um mangá feminino poderia ser um Shounen/Seinen se feito por uma autora), ou pode ser referente as demografias femininas: Shoujo, Josei, TL (Teen’ Love), mas também, ao BL (Boys’ Love). Então, na nossa celebração da demografia feminina, nada mais justo que contemplar e celebrar os BLs também. Assim, fazemos isso com “uma luz na penumbra”, um BL deslumbrante da nojico hayakawa ^^
“uma luz na penumbra” é um BL escrito e ilustrado pela nojico hayakawa. A obra começou a ser publicada em Dezembro de 2011 na revista Cab, da editora Tokyo Mangasha, sob o título “Kurayami ni Strobe” (くらやみにストロボ). A obra foi concluída na revista em Agosto de 2013, sendo compilada em volume único. Anos depois, a autora rompeu com a Tokyo Mangasha e se estabeleceu na editora ShuCream. Em Outubro de 2024, a autora republica “uma luz na penumbra” sob o selo da revista fromRED (a revista de grandes sucessos recentes do BL como “Canção do Amanhecer“, “Tocando a sua Noite“…), em uma edição que incluía 20 páginas adicionais (capítulo bônus) em comparação com a primeira edição. Vale dizer, ainda, que em 2014, ainda na revista Cab, a autora começou a publicar “Utsusemi ni Tomoshibi” (空せ視に灯), um spin-off de “uma luz” focado em um casal secundário da obra. Esse spin-off ficou em hiatus durante anos, até que foi recuperado na fromRED e a autora voltou a publicá-lo na revista em Dezembro de 2024. O spin-off foi concluído e o encadernado impresso está sendo lançado no Japão agora em Novembro. No Brasil, “uma luz na penumbra” foi anunciado pela MPEG em Março de 2026, durante a Rodada de Lives do Fora do Plástico. A editora publicou o mangá poucos meses depois, no final de Maio e hoje, fazemos a resenha da obra ^^
*volume*
Sinopse: “Arata, do Clube de Fotografia, e Shotaro, do Clube de Basquete, são amigos de infância. As fotos que Arata tira de Shotaro fazem grande sucesso entre as garotas. Arata continua a esconder os sentimentos que tem por Shotaro, enquanto este vive recusando as declarações de amor que recebe todos os dias. Até que, certo dia, ele ouve Shotaro dizer que gosta de uma pessoa…!! Um BL juvenil magnífico, onde um amor incapaz de ser escondido transborda e a alegria de expressar esse sentimento é contagiante!”
- História e Desenvolvimento
“uma luz na penumbra” traz uma história bem clássica de amigos para amantes (friends to lovers): temos Arata, que é membro do clube de fotografia, que é amigo de infância do Shitaro, do clube de basquete. O Arata realiza suas atividades do clube e tira um dinheirinho extra vendendo fotos do amigo para as meninas da escola. O Arata é apaixonado pelo Shotaro e vez após vez, precisa ver seu amigo recebendo declarações amorosas das garotas, e declarações essas que o Shotaro rejeita uma após a outra. Embora o Arata não entenda as rejeições do amigo, ele não consegue não ficar nervoso/ansioso toda vez que uma garota se declara, já que teme que chegue a hora do Shotaro aceitar. Um dia, no entanto, o Arata ouve o Shotaro dizer que gosta de alguém…
*30 e 31*
Não é surpresa saber quem é a pessoa que o Shotaro gosta e, na verdade, a autora deixa as cartas na mesa quanto aos sentimentos dos personagens logo nesse primeiro capítulo. Com os personagens estando cientes dos sentimentos um do outro, é quando a história realmente começa, porque embora o Shotaro confesse gostar, o Arata quem não consegue processar bem essa informação, no sentido de “Como assim o cara que eu gosto, gosta de MIM?!” e junto a não conseguir processar isso, vem junto o medo ligado a homofobia.
A partir daqui – e ainda bem no comecinho do mangá -, a nojico hayakawa começa a explorar questões bem interessantes ligadas à homofobia, o olhar do outro, como relações podem mudar drasticamente a partir dali – seja dele com o Shotaro, mas também na maneira como os demais ao redor deles veem os dois – e o enfrentamento dos seus medos. Isso dá maior volume para o mangá. Narrativamente falando, continua sendo um mangá muito simples, com um plot que não vai para caminhos muito diferentes se você é fã de romance (o que de forma alguma eu considero como algo negativo), mas o que dá tons mais interessantes para a obra é esse lado mais social que a nojico coloca nas páginas, mas também a maneira como ela decide montar a narrativa através do desenho nas páginas do mangá.
*garoto sofrendo bullying em flashback e Arata segurando a câmera enquanto pensa no Shotaro se declarando pra ele*
A nojico hayakawa sabe muito bem como usar o espaço no mangá, criando uma série de quadros menores que criam uma sensação de movimento muito interessante, e que para além disso, ainda consegue expressar sentimentos como dúvida, melancolia, a sensação de perda ou desamparo, emoções que tornam a experiência do mangá mais rica, especialmente porque esses sentimentos não precisam ser ditos e nem precisam ser necessariamente expressos no rosto dos protagonistas: eles ficam claros pela montagem das páginas. Esse fator é o que pessoalmente me deixou mais fascinado no mangá, porque exige uma destreza muito grande e foi de muita felicidade encontrar isso sendo feito de forma tão esplendorosa aqui. E outra coisa que merece muito destaque é que, por o Arata ser do clube de fotografia, a autora usa esse aspecto para criar cenas usando elementos que remetam a esse aspecto da vida do personagem, como passagens que são feitas em forma de fotos, rolos de filme ou momentos de desvanecimento que são retratados na forma de fotos se espalhando. É lindo de ver!
A parte do casal se desenvolve de forma bem ágil e antes da metade do volume, eles já estão mais ou menos resolvidos quanto aos seus sentimentos, o que permite que a autora explore mais do que é ser um casal – já que eles viveram como amigos até pouquíssimo tempo atrás -, além de trabalhar com a ideia de desejo pelo outro, de conhecer e experimentar o corpo do outro (na conotação sexual mesmo). No entanto, o trunfo da autora mesmo é se aproveitar desse início de casal para trabalhar com a relação dos personagens com quem está ao redor deles e nisso, claro, chegamos em homofobia. O Arata desde muito cedo tem consciência dos sentimentos dele pelo amigo desde muito cedo, e assim sendo, desde muito novo teve contato com situações de homofobia – não direcionadas a ele -, o que sempre o fez reprimir esses sentimentos, o que também o leva a um complexo de muita preocupação sobretudo com o Shotaro e a maneira como as pessoas o verão – e como isso pode impactar a vida dele. O Shotaro, por sua vez, faz o estilo “despreocupado”, no sentido de só pensar e se preocupar com os sentimentos dele pelo Arata e que agora, é seu namorado, ou seja: que exploda o mundo, eu só quero você.
Portanto, os medos partem mais do Arata acabar “prejudicando” o namorado e isso é expresso, inclusive, na amizade que o Shotaro tem o Sawa, que não aceita o namoro do amigo e o passa a tratar com frieza, distância e certa indiferença. Entrar em maiores detalhes do que isso a partir daqui seria spoiler, então irei preferir por parar aqui, mas este é um mangá que gira entorno de conversas, o que eu particularmente amo quando estamos tratando de relacionamentos – sejam eles amorosos ou não. Embora os personagens tenham medos, receios e anseios, eles podem até querer fugir inicialmente, mas eles tendem a ser muito claros sobre como se sentem e mais ainda, esclarecer sobre os seus sentimentos.
*Sawa jogando basquete com o Shotaro; Arata tirando fotos*
Esse é um ótimo mangá, seja pela maneira como a autora conduz a história, como pelo desenho e composição. É uma obra com muitas qualidades e que traz uma história bem simples e acessível. Este também é um mangá sem cenas de sexo, então pode ser uma boa recomendação para iniciantes no BL ou para aqueles que querem algo mais ‘leve’ para ler.
Por fim, para fechar esse bloco da resenha, há alguns meses, eu fiz uma live com a Ju (@incansavel) no Instagram e publiquei a gravação dela no canal do blog no YouTube. Nessa live – que deixo linkada abaixo – dentre os muito assuntos que comentamos, estavam recomendações de mangás de demografia feminina e aproveitei para indicar alguns BLs. Nessa parte, eu falo sobre como o trabalho das autoras de demografia feminina é muito subestimado – na narrativa, no desenho… -, e que inclusive, se a nojico hayakawa fosse uma autora de Shounen genérico, mas com esse nível de desenho e de composição de página, ela seria muito aclamada, especialmente aqui no Ocidente.
- A Autora
A nojico hayakawa tem pouco mais de 15 anos de carreira. Sua primeira obra profissional foi “Endou-kun no Kansatsu Nikki“, publicado em 2010 na revista HertZ, da Taiyo Tosho. A obra rendeu uma continuação em 2 volumes intitulada “Endou-kun no Jikken Note” (publicada na ihr HertZ entre 2013 e 2016). Em 2011, ela começa “uma luz na penumbra” na Cab. Entre outros trabalhos de destaque da mangaka, temos o volume único “Yozora no Sumikko de,” (2011-2013, ihr HertZ) e seu spin-off em 2 volumes “Yoake ni Furu,” (2013-2018, ihr HertZ). Por fim, gostaria de destacar “Oyasumi Shinkai“, um mangá em 2 volumes publicado entre 2019 e 2024 na revista CRAFT (Taiyo Tosho).
*Endou, Jikken 1, Yozora e Yoake 1 e Oyasumi 1 e 2*
O trabalho mais recente da mangaka é justamente “Utsusemi ni Tomoshibi” que depois de mais de 10 anos desde que começou a ser publicado (lá em 2014), finalmente foi concluído em 2016 e está tendo seu volume encadernado lançado hoje (6) no Japão. A capa, vale dizer, ficou um espetáculo!
*capa completa*
- A edição nacional
“uma luz na penumbra” foi publicado pela MPEG no formato 13,7 x 20 cm, com capa cartonada e sobrecapa fosca. O mangá tem 240 páginas, impressas no papel Off-set 90g (nenhuma delas é colorida). A obra foi traduzida por Karen Kazumi. O mangá inclui um marca página, um postal e uma polaroide de brinde (o marca página tem a ilustração do verso da sobrecapa e no verso, um quadro do mangá com os protagonistas; postal tem a ilustração da capa e no verso, ‘posts de Instagram’ de um dos personagens; e a polaroide tem um recorte da ilustração da capa). O preço de capa é de R$ 49,90. Em breve, lançaremos o vídeo mostrando a edição nacional em detalhes 🙂
- Conclusão
“uma luz na penumbra” é um mangá que, como dito, é uma boa pedida para quem deseja uma obra mais leve, com uma história simples, personagens carismáticos e um desenho espetacular. Acho que muitas obras não precisam ter um roteiro excepcional para serem memoráveis: as vezes, é no simples que encontramos as melhores surpresas. Dito isso, espero que a MPEG continue explorando as obras da nojico hayakawa, assim como eles têm feito com a Niyama (Meu querido policial; Se quiser, é só pedir…) e torço muito para que “Utsusemi ni Tomoshibi” seja anunciado no Brasil em 2027. Espero que tenham gostado da resenha e nos vemos muito em breve para outras ^^
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- Ficha Técnica
- Título original: Kurayami ni Strobe (くらやみにストロボ)
- Título nacional: uma luz na penumbra
- Autora: nojico hayakawa
- Serialização no Japão: Cab
- Editora japonesa: Tokyo Mangasha (1ª edição) / ShuCream (2ª edição)
- Editora nacional: MPEG
- Quantidade de volumes: Volume único
- Formato: 13,7 x 20 cm; capa cartonada com sobrecapa fosca
- Preço de capa: R$ 49,90
- Tradução: Karen Kazumi
- Compre em: Amazon/Loja MPEG
