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Uma grande carta de amor sobre amar a si mesmo(a).

Dentre as (boas) surpresas que tivemos no mercado brasileiro em 2026 está a introdução da Harlequin – um dos selos da HarperCollins Brasil – nos mangás. A iniciativa veio de forma bem inesperada e com um título mais surpreendente ainda: “As grandes desventuras amorosas de Yumeko!“, um mangá Shoujo em andamento com mais de 10 volumes e que praticamente tinha acabado de ter adaptação em anime (exibida no final do ano passado).

“As grandes desventuras amorosas de Yumeko!” é mangá Shoujo escrito e ilustrado por mamakari. Publicada sob o título “Debu to Love to Ayamachi to!” (デブとラブと過ちと!), a obra teve a sua serialização iniciada na revista Koisuru Soiree (Solmare Henshuubu) em 2019. A Solmare Henshuubu lança os volumes no formato digital, sendo que 14 tomos foram publicados até o momento no Japão. Entre 2020 e 2022, a J Publishing publicou 5 volumes no formato impresso pela Souffle Comics. E em 2024, o mangá ganhou uma nova edição pela Petir Comics (HarperCollins Japan). Essa edição conta com 11 volumes e segue em andamento. De momento, os 2 primeiros volumes foram publicados no Brasil e ainda não há previsão de lançamento para os tomos seguintes. Adquirimos os 2 volumes lançados no Brasil e hoje, publicamos a resenha da obra ^^


  • História e Desenvolvimento

Antes de começar a resenha em si, eu gostaria de dizer que quando a Harlequin anunciou “As grandes desventuras amorosas de Yumeko!”, eu tive um misto de sentimentos: se por um lado eu fiquei feliz por ser mais uma editora publicando mangá no Brasil e começando por um Shoujo, por outro, eu fiquei receoso pela escolha da obra, já que “As grandes desventuras” não é um título que ficou unânime no Brasil graças ao anime e eu tenho que dizer que graças ao anime, eu não tive boas impressões iniciais da obra, mas sobre isso, eu chego lá. O fato é que lendo esses dois volumes, eu tenho que dizer que eu amei a obra, bem mais do que eu esperava!

Na obra, temos a Yumeko, que é uma mulher com graves problemas de autoestima devido a se achar horrorosa. O mangá começa com ela no hospital, depois de ter sido socorrida após uma tentativa de suicídio. A Yumeko, na queda do prédio que ela se jogou, acabou perdendo a memória e ao acordar, ela não tem as memórias do que aconteceu naquele momento e de vários eventos de sua vida, mas a principal mudança que advém com essa perda de memória é que, ao se olhar no espelho, ela agora se acha linda e maravilhosa! Acompanhamos, então, ela voltando ao ambiente de trabalho no escritório, ela precisa reaprender o trabalho, conhecer seus colegas de trabalho e lidar com a aparente obsessão que sua antiga eu tinha com um jovem rapaz que ela desconhece quem seja, mas que ela vez ou outra encontra próximo ao prédio comercial que ela trabalha.

Se eu fosse definir “As grandes desventuras amorosas de Yumeko!” em uma palavra, eu diria que ele é um mangá radiante. Embora a trama parta de uma tentativa de suicídio, a autora deixa isso meio que de lado, por se tratar de algo que a nova Yumeko sequer consegue conceber – já que ela é linda. E assim, ainda vou comentar mais do anime, mas um dos problemas que vejo nele é que a direção realmente não entendeu o material que estava adaptando. A direção pesava muito o clima e nunca foi a intenção do mangá ser dessa forma, não é à toa que essa tentativa de suicídio logo passa a ser tratada como uma tentativa de homicídio, isso porque uma trama policial começa a se desenhar como pano de fundo e cogita-se que, na verdade, tentaram matar a Yumeko. E mesmo assim, a autora consegue achar um meio termo entre dar uma seriedade quando se trata dessa parte investigativa e deitar e rolar quando chega na parte da comédia pastelão.

Eu sou uma pessoa de humor muito simples e um tipo de humor que tende a me agradar bastante é o humor de repetição/bordão. Uma grande parte do humor do mangá é sobre a Yumeko se achar extremamente linda e ficar repetindo isso toda vez e mesmo que ela se ache bonita – e ela é! -, os colegas de trabalho e quem está ao seu redor (principalmente os homens) continuam a achar ela feia, mas por ela ter essa autoestima inabalável, ela sequer é desestabilizada com o bullying, pelo contrário, o humor acaba surgindo pela autoestima e por os caras serem ridículos. E no fim das contas, acho que ser descompensada da forma que ela é, é o que acaba trazendo um respiro e uma leveza para a obra.

De certa forma, o mangá está falando sobre amar a se mesmo e não se importar com o que os outros pensam ou falam de você. As pessoas vão te julgar não importa o que você se seja – ainda mais fazendo parte de alguma minoria -, então ame a se mesmo e agrade a si, sem se importar com o que as pessoas pensam ou deixam de pensar. Tem uma página dupla muito legal sobre um cara do escritório que acha o cabelo dele feio por ser crespo, e ele queria raspar/alisar para se enquadrar a um padrão estético, o que a Yumeko intervém para dizer que ele é único por ser do jeito que é, e ter algo tão diferente que o torna único e especial. É um momento super bonitinho!

A obra viaja bastante em muitas coisas, mas algo que acredito que ela tenha muita razão em colocar, é sobre quando a gente se acha horroroso, acabamos incorporando essa “aura” e, talvez, isso piora a impressão da aparência para os outros, mas especialmente para nós mesmos. Então ter a Yumeko se achando tão linda e repetindo isso para si mesma tantas e tantas vezes, faz com que ela realmente aparente ser e estar mais bonita. E não falo nem por achar ela feia ou não, não é sobre isso, mas é sobre estar bem consigo mesma e o quão positivo são os efeitos disso. Falo como uma pessoa que se acha feia e que tem seus problemas de imagem, então eu entendo – em partes, já que a pressão masculina é bem diferente da enfrentada por mulheres – esse sentimentos de autodepreciação, mas também entendo pelo lado de as vezes (raramente, no meu caso) se olhar no espelho e se achar bem/bonito(a).


Mas não é só de comédia que este mangá sobrevive, para além disso, temos a trama policial se desenhando aos fundos e o policial responsável pelo caso é um boçal, sempre querendo colocar a Yumeko para baixo, o que a deixa profundamente irritada. A investigação vai querendo ligar o caso da Yumeko com o vice-presidente da empresa que ela trabalha; tem uma trama envolvendo a esposa do Coordenador – e chefe da Yumeko – e um rumor de um caso de traição e que por sinal, é bem interessante a maneira como a mamakari está colocando isso em cena, porque nesses dois primeiros volumes, ainda não ficou totalmente claro o que aconteceu ali e quais as relações entre os personagens envolvidos nessa história toda; tem um aspecto social na figura da mulher e como elas são vistas no ambiente de trabalho e como, a certa altura, rola uma rivalidade feminina nesses ambientes, por uma certa busca de validação masculina que precisa ser combatida; ou ainda, sobre como homens se aproveitam da generosidade das mulheres e se acham no direito de pedir e exigir cada vez mais delas; na parte da Yumeko, ela ainda precisa encarar o medo de voltar a ser sua antiga eu (depressiva, sempre se achando incapaz e mais ainda, sempre se achando horrorosa), então ela vive um conflito de não querer lembrar do passado por temer que a “eu” dela de agora desapareça… enfim, tem muita coisa legal sendo colocada em cena em meio às diversas cenas de comédia.

E ainda nesse espectro de se achar feio, acho que existe uma relação de negatividade de acabar não se achando capaz de nada. A Yumeko do passado se odiava, se achava péssima em tudo e mesmo tendo ideia de novos produtos (ela trabalha em uma empresa de produtos alimentícios industrializados), ela só os mantinha anotados e nunca dava uma ideia, coisa que a nova Yumeko se recusa a fazer. E ao se colocar como uma pessoa plenamente capaz, ela não só exalta a si mesma, como acaba ajudando os demais que estão ao redor dela. Existe uma espontaneidade muito bonita e cativante nessa versão da Yumeko que, de novo, a torna muito mais atraente aos olhos das pessoas e aqui, digo isso não necessariamente (ou não somente) com uma conotação romântica, mas também de se tornar uma pessoa mais interessante, de querer conversar e querer estar perto. Ao se transformar, a Yumeko não transformou apenas a si, mas também o seu ambiente ao redor.


Eu conheci “As grandes desventuras amorosas de Yumeko!” pelos posts de recomendação constantes que o Pro Shôjo Spain fazia do mangá há alguns bons anos, mas nunca parei para ler, nem nada do gênero. Quando foi anunciado o anime, achei que seria uma ótima oportunidade para conhecer a obra e fiquei na espera. Quando o anime finalmente estreou, veio uma grande decepção pela maneira como a Yumeko era retratada, sendo quase como uma OGRA na visão do diretor. Vendo quem dirigia o anime, o resultado era claro para mim, já que se tratava do mesmo diretor de “Kanojo, Okarishimasu” (Namorada de Aluguel) e alguém que nunca tinha trabalhado com obras de demografia feminina. Então o que ele considerava como ‘engraçado’ era colocar a protagonista nesse lugar de humilhação de si, o que vai contra a proposta do mangá. Mas como não conhecia o original, achei que esse tom poderia vir do mangá propriamente dito, o que felizmente não se confirmou aqui. Na verdade, depois de ler esses dois primeiros volumes, eu fiquei ainda mais revoltado com a animação, porque o diretor transforma a protagonista em uma palhaça, como por exemplo, quando ele coloca sonoplastia de animais grandes (elefantes, rinocerontes, gorilas…) ou de maquinaria (britadeira) quando a Yumeko está passando em algum lugar, ou usar maquiagem de maneira exagerada (quase como um palhaço mesmo) para evocar um lado de “horror” e de “susto” com a figura dela, de forma que se cria uma dicotomia enorme, em que ao mesmo tempo que a Yumeko está lá dizendo ser linda e colocando a autoestima lá em cima, a representação visual é depreciativa e a zoar com a cara da sua protagonista.

Eu acho válido dizer que eu sou uma pessoa (muito) magra, então não sofro ativamente com gordofobia – a pressão social que sofro é para não engordar e me manter magro – e para além disso, ainda sou homem, então mesmo que fosse gordo, o tipo de pressão estética que recairia sobre mim, seria bem diferente do encarado por uma mulher na mesma condição. Assim sendo, eu pessoalmente achei o mangá muito divertido de maneira geral, acho a Yumeko uma grande personagem e não tenho grandes problemas com o mangá, mas eu sei que tem pessoas que não gostam do design dela (sendo que eu acho que existam pessoas gordas com a feição da personagem) e que acham o tom do humor do mangá muito problemático. E me colocando no lugar dessas pessoas, eu entendo boa parte das críticas, mas se eu fosse dizer uma coisa, eu ainda recomendaria o mangá, pelo menos o primeiro volume. Acreditem, a obra num geral é muito diferente do que a que é apresentada no anime, pelo simples fato de que enquanto o mangá está interessado em exaltar a Yumeko e rir COM ela, o anime está ali para fazer a protagonista de chacota e rir DELA.

Uma diva!

  • A Autora

A mamakari começou a carreira dela por volta de 2015 e de lá para cá, a mangaka trabalhou com cinco obras: a sua primeira serialização profissional foi “Maware! Shirakawa-san – Boku wa Joushi ni Koi o Suru“, mangá em 3 volumes publicado entre 2016 e 2017 na revista Cookie, da editora Shueisha. Em 2019, a autora publicou o volume único “Furetai, Dekinai” na revista Koisuru Soiree, da Solmare Henshuubu e no mesmo ano, ela dá início a “As grandes desventuras amorosas de Yumeko!” também na Koisuru Soiree, onde está em publicação até hoje. Entre 2022 e 2024, ela publicou “10 Oku-en de Otto, Sutemasu.” na revista Carat Comics (Shufunotomosha). Por fim, atualmente, além de “As grandes desventuras”, a autora ainda publica “Bonjin Yamada no Uso to Koi no Mahou” sob o selo da revista Colorful! (IMA). O mangá teve a publicação iniciada em Dezembro de 2025 e conta com 9 capítulos lançados (sem volume compilado).

Capas japonesas de: “Maware! Shirakawa-san – Boku wa Joushi ni Koi o Suru” #1, “Furetai, Dekinai“, “10 Oku-en de Otto, Sutemasu.” #1 e do abertura do 1º capítulo de “Bonjin Yamada no Uso to Koi no Mahou“.

  • A edição nacional

“As grandes desventuras amorosas de Yumeko!” é publicado no Brasil pela Harlequin no formato 13x 2 x 20 cm (muito semelhante ao formato padrão da Panini, só levemente mais estreito), com capa cartonada fosca. A obra tem 192 páginas por volume e estas foram impressas no papel Pólen Bold 90g. O preço de capa é de R$ 49,90. De brinde, havia um marca página por volume com a ilustração da capa na frente e nada impresso no verso. A tradução do mangá é do Lucas Cabral. Em breve, nós lançaremos um pequeno vídeo mostrando a edição nacional em detalhes! ^^

Queria dar um destaque para o papel utilizado na edição. Ele lembra muito o Off-white usado pela Panini nos mangás dela, mas com uma qualidade muuuuito superior! É um papel muito mais grosso e sem qualquer tipo de problema com transparência. E outro destaque muito positivo aqui é a tradução do Lucas Cabral. Normalmente eu não entro no mérito da tradução em si, avalio – de forma bem breve – se o texto é fluido ou não, mas eu fiquei particularmente muito contente quando li o mangá e acho que o Lucas soube transmitir perfeitamente a vibe do mangá na adaptação do linguajar, usando expressões brasileiras, mas que eu perfeitamente consigo enxergar a Yumeko usando. Enfim, um ótimo trabalho nesses volumes.

O único problema que tive com os meus volumes e pelo que pude perceber, é que a capa dele pega umidade muito fácil. Eu deixei os volumes em cima do braço do sofá e de uma noite para a outra, a capa tinha formado orelhas bem acentuadas, de forma que estou precisando deixar o mangá sendo pressionado embaixo de uma pilha de outros mangás.


  • Conclusão

“As grandes desventuras amorosas de Yumeko!” é um mangá radiante, muito divertido, com uma protagonista carismática e com uma ótima comédia. Me diverti muito lendo esses dois volumes que, vale dizer, eu devorei! Fiquei muito feliz em ver que o mangá em muito se distancia de sua adaptação animada o que neste caso, é algo muito positivo. Reitero que, se você viu o anime e não gostou, peço para que ao menos tente dar uma olhada no primeiro volume do mangá, e se você viu o anime e gostou, recomendo ainda mais que compre o mangá – ainda mais sendo o primeiro título de uma iniciante no mercado de mangás no Brasil.

A Harlequin não vai ler esse post, mas deixo aqui meu pequeno clamor: lancem o(s) próximo(s) volume(s) o quanto antes, eu imploro!!! Os 2 primeiros foram lançados em Junho de 2026, há mais de 4 meses, então que venham os próximos, por favor!

Espero que tenham gostado da resenha e como uma última coisinha, deixo linkado abaixo, a tradução da entrevista feita com a mamakari pelo Pro Shôjo Spain. Aproveitem para conhecer um pouquinho mais sobre o trabalho da mangaka ^^


  • Ficha Técnica
  • Título original: Debu to Love to Ayamachi to! (デブとラブと過ちと!)
  • Título nacional: As grandes desventuras amorosas de Yumeko!
  • Autora: mamakari
  • Serialização no Japão: Koisuru Soiree
  • Editora japonesa: Solmare Henshuubu (digital) e HarperCollins Japan (impresso)
  • Editora nacional: Harlequin
  • Quantidade de volumes: Em andamento com 11 volumes
  • Formato: 13,2 x 20 cm; capa cartonada fosca
  • Preço de capa: R$ 49,90
  • Tradução: Lucas Cabral
  • Compre em: Amazon