Apesar da notável melhora em relação à estreia, ainda lhe falta substância.

Apesar da notável melhora em relação a estreia, ainda lhe falta substância.

Estamos na metade da Temporada de Primavera de 2022, e ainda tenho diversos posts de primeiras impressões para fazer e o que eu resolvo escrever? Mais um texto de “Dance Dance Danseur”, que embora tenha tido uma melhora enorme em relação ao primeiro episódio (leia aqui), ele peca em alguns aspectos, explora mal alguns assuntos e ainda falta substância na maneira de contar sua história.


Quando fiz a postagem de primeiras impressões de Dance Dance Danseur, eu não fiquei com muita vontade de continuar. Não é à toa que depois da postagem, eu não voltei a ver mais episódios. Não é como se eu tivesse dropado, já que não havia sido uma estreia completamente horrível ou detestável, mas não tinha ânimo naquele momento para continuar. Entretanto, após a terceira semana depois da estreia, eu estava vendo muitos amigos elogiando a animação, e vez ou outra, o Rub comentava bem (embora com ressalvas) do anime. No última segunda-feira (16 de Maio), criei coragem e fui ver os episódios do 2 ao 6 que me faltavam para ficar em dia. É fato: a animação deu um salto de qualidade em relação a sua estreia. Porém, ainda é preciso dizer que ele tropeça, e muito, em alguns processos na condução da história e de seus personagens.

Indo por partes, posso dizer que há uma nítida melhora de ritmo em relação ao primeiro episódio, inclusive já no episódio 2. Acho interessante pensar que se a estreia do anime não tivesse sido com um, mas sim dois episódios de uma vez, eu teria continuado com o anime normalmente, sem esse desânimo inicial. Não falo nem de juntar 2 episódios e formar aqueles capítulos enormes de quase 1 hora, mas que fizesse como ESTAB LIFE, que lançou os 2 primeiros capítulos juntos. Nesses casos, eu assisto logo os 2 episódios para comentar no blog. Portanto, eu manteria muitas das minhas opiniões que fiz no post, principalmente sobre a falta de tempo para tratar cada tema, mas sairia bem mais interessado nos rumos da história como um todo.

A chegada do Luou trouxe novos ares para a obra. Gosto bastante do senso de rivalidade e inimizade que há entre os dois personagens, com o Luou sendo bem mais “polido” e levando o balé a sério, coisa que o Junpei não faz no começo (e até nos episódios mais recentes). Ele ainda destrata algumas situações envolvendo a dança, como quando ele foi assistir a apresentação com a Miyako e ri do homem que faz o vilão por causa das roupas e maquiagem. E tenho que dizer que eles dois funcionam MUITO MAIS como um casal, do que JunpeiMiyako ou LuouMiyako.

Chega a impressionar o quão falho são as tentativas (insistentes) da autora em forçar um casal com ambos os casos. Ela quer que você engula (sem farinha) os flertes, principalmente com o Junpei que nada mais são do que delírios da cabeça dele, e que muitas vezes, não tem graça alguma. São bem chatos, na real. Ainda mais que o Junpei tem muito a energia de homem meio escrotinho, advinda dele emular o “homem viril” que tentam impor sobre ele. Os diálogos trocados entre o Junpei e a Miyako, quando tem essas insinuações românticas, não funcionam de maneira nenhuma. A autora não consegue tornar nenhum dos dois lados convincentes o bastante. E nem falo isso por eu não querer um casal entre eles, mas é porque não funciona mesmo. O material original é um mangá Seinen e eu já não esperava que fosse ter um casal gay aqui, porém, mesmo que não tivesse minha predileção, outras obras com essa mesma ideia (protagonista tem mais química com um guri do que com a guria) as quais já li, ao menos tinham um pouco de lógica e que pegava de uma forma ou de outra. Aqui só não vai.

A ideia dessa rivalidade do Junpei com o Luou, por vezes parece algo bem “cão e gato” e é legal. Algumas demonstrações de diálogos e ações entre eles são bem sugestivas, vide quando o Luou dança com a Miyako e na verdade, parece que o Junpei queria era estar nos braços dele. Ou quando ele se emociona com a dança do Luou e algumas outras mais situações. São ocasiões bem mais visíveis e palpáveis que se do nada me chegassem e fosse dito “Um deles gosta do outro”. Eu aceitaria numa boa! Entendo que parte da ideia da autora seja mostrar que “homens que fazem balé não são necessariamente homossexuais/LGBT+”, que nada tem a ver com a sexualidade dos personagens, muito atrelado também a questão de papel de gênero e que certas profissões são estereótipos, como a profissão de gay é ser cabeleireiro. Ou ainda que certos ambientes ou profissões são tidas como “inapropriadas” para homens por não serem másculas. Mas pelo amor de Deus, há maneiras mais interessantes de se introduzir isso…

Gosto muito dessas cenas mais iluminadas presentes no anime, são muito bem usadas

E tem uma coisa que me incomoda profundamente e verdadeiramente me irrita é que a Miyako é um grande nada! Aliás, eu acreditei que teríamos três protagonistas: o Junpei, a Miyako e o Luou. Só que, quanto mais a trama avançava, mais evidente ficava que na verdade a Miyako nada mais é do que um palanque, uma escada para os outros dois. A única função relevante dela na história, até agora, foi ter sido a pessoa que levou o Junpei até o estúdio da mãe dela. SÓ. Não sabemos seus sonhos, medos, o que ela almeja, se ela deseja traçar um caminho no balé ou se ela pratica mais por ser conveniente a personage já que a mãe dela é professora. Nada! A grande impressão que passa é que ela é uma ferramenta para o Junpei e o Luou se destacarem. Ficou bem evidente depois que os dois foram para a academia da Oikawa Awako para um treinamento intensivo. Salvo engano, a Miyako sequer aparece nesse capítulo. Ela está ficando cada vez mais apagada na história (nunca teve muita presença realmente), se tornando mais um figurante, alguém que está ali para ser dançada. Ela não dança e eles quem a usam.

E como se já não bastasse, ela está ali para uma outra função que parece ser muito importante para a produção, seja do anime ou autora do mangá: não deixar “parecer gay demais”. A Miyako é o ponto que impede que os protagonistas sejam tidos pelo público como um casal possível. Ela como uma peteca e fica sendo atirada de um lado para o outro em situações completamente sem sal. São bonitas visualmente, mas que não tem uma gota de química em qualquer tentativa que seja feita. E é uma pena que ela seja tratada apenas dessa forma, porque a garota se torna uma personagem dignamente interessante quando está com um ar de melancolia (normalmente enquanto dança) ou quando seus diálogos não envolvem diretamente os meninos, mas sim o balé. Ela se torna uma personagem mais interessante. Também quando a Miyako está brava com o Junpei por ele destratar parte do balé, ao não só dormir durante a apresentação, como falar enquanto olha o celular, ou quando ela deixa de falar com ele por estar dividido e querendo manter a faixada de virilidade e deixando os “amigos” dele fazerem bullying com o Luou. Ela é firme com suas convicções e é excelente. Até tem algumas situações em que parecia que ela seria trabalhada devidamente, mas se torna apenas uma informação jogada ali no meio, como quando ela diz que sua mãe desistiu dela. O que isso representa? Como ela se sente em relação a isso? Ela deseja mudar essa visão? Não sabemos. Fica jogado e perdido em meio às apresentações muito bem animadas do anime.


No episódio 3, vulgo melhor episódio do anime até aqui, temos algo extremamente bem acertado que foi a construção do bullying com o Luou. É um episódio extremamente desconfortável e é perfeito! Vez ou outra comento aqui no blog que sofri bullying na escola desde muito cedo e perdurou ao longo de anos (meu jeito afeminado mais minha suposta sexualidade, sendo que eu nem sabia o que era isso) e em muitos detalhes ao longo do episódio, eu via e sentia similaridades com o que eu passei. Portanto essas sensações ao longo do episódio foram sendo potencializadas e por causa disso, tive que dar algumas pausas (10 segundos) para respirar e continuar. Estava ficando com ansiedade enquanto assistia porque, de fato, estava sendo bem feito. O Luou não consegue revidar, não tem quem o proteja, além de ter muita dificuldade de falar e se expressar em público. Não cheguei a ficar no mesmo nível que ele, mas algumas coisas acabaram por serem bem similares. E na última segunda, fizemos live na Twitch no blog e o @rubnesio comentou que se sentiu desconfortável, mas não por ter passado algo semelhante ao Luou, mas sim porque há uns 15 anos atrás, ele estava na mesma posição que os “amigos” do Junpei. Então acho interessante essas mudanças e me pergunto sobre as percepções de pessoas que praticaram bullying com alguém e como elas se sentem observando um pouco do mal que isso faz.

Eu sou uma pessoa extremamente rancorosa com todos que fizeram bullying comigo. Lembro de todos os nomes e até um pouco do rosto de cada um. Esqueci amizades, nomes de amigos, mas dos que fizeram bullying comigo não. Então imaginem com personagem de anime. A partir desse momento que o Junpei, de certa forma, dá aval para que tudo aquilo aconteça, eu peguei ranço dele. O Junpei entra num caso de que ele prefere se misturar a maioria a ser parte da minoria atacada. É mais fácil tentar se misturar com o restante do que se arriscar e virar um alvo também, principalmente no caso dele que esconde que faz balé. Embora eu entenda essa questão, minha relação e simpatia com o Luou ficou mais forte, sobressaindo bastante ao Junpei. Por isso não consigo aplicar tão facilmente algo lógico aqui. Acho que a autora acerta muito na construção de espaços de homens heteros tóxicos. Aquela roda de amigos e o próprio Junpei nessa história de masculinidade, consegue ser muito bem feita, incluindo a forma que eles reagem quando a Miyako ameaça chamar um professor. Eles desconversam e até empurram a culpa para o Junpei.

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Essa “amizade” deles também é muito questionável…

MAS a construção do Luou no cenário escolar e o quão nocivo aquela roda de amigos é problemática tenham sido ótimas e muito bem feitas, não posso dizer o mesmo da parte que fecha esse arco sobre O bullying. Como eu disse ali em cima, o Rub estava na posição dos amigos do Junpei, como aquele que praticava bullying, mas acontece que hoje ele tem percepção clara dos seus erros do passado e se arrepende deles, o que não é exatamente o que acontece em Dance Dance Danseur. A “mudança” acontece com o amigo mais próximo do Junpei, e nem sei se posso chamar aquilo de mudança realmente, porque vejamos bem: o que acontece no quinto episódio é o personagem ir assistir a apresentação do Junpei com o intuito de zoar com ele depois. Ok, vamos lá. Durante a apresentação, ele se sente cativado pela dança e viu que o balé é diferente daquilo que o personagem tinha como visão. Ele viu como o Junpei se divertia enquanto dançava. Mas é só. Eu não sinto que ele tenha mudado realmente, e principalmente: ele não pede desculpas para a vítima da história, o Luou. Ele vai falar com o Junpei, porque ele considerou como sendo importante se redimir com o amigo, mas e quem sofreu mesmo? É um belo foda-se. Não há algum tipo de lição de moral sobre o quão errado e horrível ele e os demais foram com o guri, ou pelo menos uma fala do Junpei como: “Ah, agora que você viu o que de fato é o balé, não caçoe dos outros”. Sabe, ao menos trazer uma pequena reflexão sobre o assunto. O arco sobre o bullying na verdade foi sobre o Junpei aceitar que está tudo bem ele fazer balé e que seus amigos não vão o julgar por dançar. E por sinal, como mencionei na legenda de uma das imagens mais para cima, a “amizade” é bem questionável. Penso isso desde o momento que o Hyota tratou o Junpei como o agressor quando a Miyako ameaçou chamar um professor. Me pareceu que a relação deles era apenas nos momentos bons e que a qualquer sinal de que vai dar merda, eles pulariam do barco, deixando o Junpei para trás.

E falando mais do protagonista, o Junpei consegue ser absurdamente CHATO! Ele tem uma mania enorme de transformar tudo em uma história sobre ele, sendo um tanto narcisista. Quando a Miyako parou de falar com ele, o protagonista achou que tinha relação com o que falou para ela sobre gostar do Luou. Quando ele foi no estúdio da mãe da Miyako e ela o ignorou, achou que era porque perdeu o interesse nele por já ter o Luou. E mais uma vez, na apresentação da dança, ele se moveu como bem entendia porque quis assim e não queria que fosse feito daquela forma, arruinando a avaliação do Luou, cujo esta competição era MUITO importante para o outro protagonista. Ele não ouve os outros, se frustra por isso e ainda acha que o problema é com os demais, não com ele exatamente. E quando não é o personagem se colocando como centro, é a autora que o coloca nessa posição, o que simplesmente não faz sentido para a construção da cena!!! Daqui em diante, tudo que envolve o personagem e que, de alguma forma, cause algum tipo de desconforto ou incômodo ao Luou, eu vou me virar contra ele. Gosto muito mais do Luou e o acho um personagem mais interessante.

Na verdade, parando para pensar, o Luou é o único personagem até aqui que teve um fundo decente sendo desenvolvido. O que tange o background do Junpei foi completamente arruinado pela pressa do 1º episódio, e para completar, ele meio que “se auto sabota” tendo comportamentos questionáveis sem serem devidamente trabalhados. E a Miyako, bem… ela existe. Está ali e apenas isso. Só sobrou o Luou com um texto mais interessante. Destaco também a parte que é mostrado que sua avó bate nele por não fazer os passos de forma correta. Não é dito claramente, mas só pela cena, o espectador percebe de onde vem ele não conseguir reagir a ataques e ter muito medo quando alguém levanta a mão para bater nele.

A história acaba pecando muito por apressar processos que precisam de mais tempo. Seja lá no começo com o passado do protagonista, ou a forma que o bullying é solucionada sem resolver o real problema, ou até com coisas um tanto mais simples, mas que ajudam a entender os fundamentos da dança, como o Junpei aprendendo o básico. No 4º episódio do anime, supostamente deveríamos ver ele aprendendo o balé desde o inicio nos treinamentos (que ele não respeita por achar chato), mas isso não acontece. Vemos ele um pouco nas barras, alguns flashs aqui e ali e se passa um mês. Esses cortes acontecem mais de uma vez nesses episódios e é péssimo para o andamento. Um dos fundamentos para o maior entendimento aqui, é ilustrar as bases necessárias para se dançar balé e não temos isso. Parece que tal qual o Junpei, a produção acha essas partes chatas demais e pula elas. “É irrelevante, parte logo para ação”. Mas uma coisa a autora acerta: ilustrar a adolescência como sendo um período que se fica feio. Fico pasmo como o Junpei era super fofo quando criança e agora está horrível. Um assassinato ele ter cortado o cabelo quando criança, e pior ainda quando ele raspou tudo.


Por fim, importante ressaltar como a produção consegue tornar as danças tão impactantes. Um dos desafios nesses cenários é tornar as danças estilosas o bastante ao ponto de conseguir encantar mesmo quem tem um olhar mais técnico sobre ela, mas principalmente para quem não consome balé de forma recorrente. O “como vou tornar isso interessante para quem nunca viu balé antes na vida” é importante para prender a atenção do espectador e a produção acerta MUITO nisso. Eles sabem como fazer ficar emocionante como um anime de ‘batalha’. Usam ângulos mais “íntimos” e closes e se utilizam da expressividade dos olhares dos personagens. Muita gente não gosta (embora eu AME), mas é inegável a quantidade de detalhes que os olhos dos personagens possuem, dá muita liberdade para os animadores brincarem com eles e conseguirem transmitir diversos sentimentos, principalmente pelos olhos serem bem grandes. Aliado a isso, tem uma equipe que está focada em tornar as composições de danças em verdadeiras obras de arte, no sentido de mesclar diferentes técnicas de animação. A exemplo disso, quando o Luou parte para cima do Junpei para “matar ele de vez”, como tinta pintado a mão!

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Quase deu para ouvir um “Morre, praga!”

Além disso, vale destacar a própria animação do miolo dos episódios que eu acreditei que seria mais estática nas partes cotidianas, deixando a animação em si para as cenas de dança, porém o anime em si é bem movimentado. O Junpei está se mexendo a todo momento, sempre dando estrelinhas e indo de um lado para o outro, e muito bem feito. É uma produção excelente. Vale dizer também que as composições dos cenários estão sendo feitos pelo maravilhoso Studio Pablo (trabalhou nos cenários de parte do anime de “Dororo”), ao qual fazia alguns anos que eu não ouvia seu nome envolvido em algum projeto.


Concluindo: não acho Dance Dance Danseur de todo ruim, mas falta substância naquilo que o anime quer nos falar. Acho ele envolvente, mas não consigo me apegar a ele, em especial porque seus personagens não representam muita coisa além do básico e tem esses problemas de saltos temporais (parece que estão cortando coisas do material original). Ele acaba por ser atrativo por ser um tema ao qual eu gosto muito e por ter uma produção deslumbrante, do que algo que me cative pelo seu roteiro. Irei continuar assistindo, mas nessa ideia de entretenimento bonito de se ver. Não sei se irei comentar mais episódios como fiz nesse post. Em todo caso, quando o anime terminar, vai ter review no blog ^^.

A iluminação, a intensidade, os enquadramentos e a paleta de cores são coisas que amo no anime
E além disso, a intensidade e riqueza de sentimentos que os olhos transmitem é perfeito!

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