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Grande sucesso da MPEG, provando - mais uma vez - a força da produção nacional.

Em dezembro, o blog estará em uma movimentação um pouco diferente e particularmente especial. A exceção de três textos de apresentação, que são já tradicionais trazendo evidência para obras de demografia feminina, o mês será dedicado a resenhar mangás e afins de cunho nacional! Abrimos o mês com “SENSE LIFE“, grande sucesso de Glitch Tellend.

“SENSE LIFE” é escrito e ilustrado por Glitch Tellend. A obra começou a ser publicada no Fliptru em 2020 e segue em publicação desde então. O ‘mangá brasileiro’ foi anunciando pela MPEG no Anime Friends de 2024 e começou a ser publicado em junho de 2025. A obra tem 1 volume lançado e o 2º está previsto para dezembro, este cobrirá até o capítulo mais recente lançado. Até o final do ano, a obra ficará em hiatus, retornando em 2026 com capítulos mensais. Para o lançamento dos volumes #1 e #2, a editora ofertou edições especiais, com a do 1º volume esgotando rapidamente (e ganhando uma nova tiragem). Em agosto, a editora divulgou que o volume #1 da obra ultrapassou a marca de 20 mil cópias em circulação e mais recentemente, em 28 de outubro, a MPEG divulgou que o número já ultrapassa as 30 mil cópias em circulação! A MPEG nos cedeu o 1º volume na ocasião do evento de aniversário que ocorreu em 30 de agosto, o qual agradecemos e hoje, resenhamos ele. ^^

Sinopse: “Noah é um garoto pacato que procura por um sentido para sua vida, seus dias cotidianos irão sumir após encontrar Kaleb, um usuário de drogas que tem uma grande recompensa por sua cabeça… As coisas começam a sair do controle e as situações em que nossos protagonistas se metem são levadas ao extremo! Está pronto para o universo de SENSE LIFE?”


  • História e Desenvolvimento

“SENSE LIFE” abre a publicação de quadrinhos nacionais da MPEG e não só inaugura (no ramo de quadrinhos, já que o primeiro lançamento nacional é a novel “Ryota“, como é um enorme sucesso, sendo um dos grandes títulos do catálogo da editora, à frente, inclusive, de várias obras japonesas. Sucesso tremendo que uma linha de produtos originais já foi lançada, incluindo camisetas e pelúcias (que aparecem na thumb do post) e uma linha de gashapons está prevista para 2026. O sucesso não chega a ser exatamente uma surpresa, já que a publicação dos capítulos, com pouco mais de 10 lançados, já ultrapassou mais de 2.5 milhões de visualizações no Fliptru (e é a obra mais popular da plataforma).

No universo da série temos o Noah, um garoto monótono que apenas leva os dias, sem um objetivo ou aspiração. Ele é completamente apático e, na verdade, o seu objetivo é encontrar um sentido na vida (material ou espiritual). Um dia, ele encontra o Kaleb, um jovem usuário de drogas, que estava caído em meio ao lixo e decide ajudá-lo. O encontro entre dois vai culminar em uma grande confusão, quando um grupo de homens aparece na casa do Noah querendo matar o Kaleb…

O que nós temos aqui são jovens perdidos e desassistidos, que não sabem lidar com sentimentos e é nessa desassistência, solidão e incapacidade de lidar com seus desejos, que nascem os poderes (aqui, chamados de Tributo). O Tributo se manifesta na pessoa a partir do desejo de uma outra que já se foi e tinha algum vínculo com aquela que o poder se manifesta. Da mesma forma, a ativação desse poder está relacionada com algum meio de atingir a expressão desse desejo, embora a sua ativação em si, não represente a realização plena desse desejo preterido. O poder do Kaleb é ativado ao usar drogas, pois conseguem materializar a expressão dos sentimentos do personagem, coisa que ele não consegue fazer de forma sincera. Aliás, gosto da atribuição ao uso de drogas como um escapismo, já que normalmente o uso (e em especial, o vício) está atrelado a sensação de felicidade que a droga traz. E se a droga proporciona felicidade, significa que a realidade em si é triste para o usuário. E a maneira como o Glitch expressa esse poder do personagem é, também, interessante, utilizando da característica do alucinógeno para compor o visual e entra como uma habilidade ilusória, aliada ao efeito psicoativo da droga em si.

Gosto muitíssimo da gay tóxica, trambiqueira, doida varrida e completamente surtada que aparece como primeiro ‘inimigo’ nesse volume, o Reaver. O personagem é bem bitolado das ideias e sai destruindo metade da cidade, incluindo causando a morte de outros personagens. Ainda no primeiro capítulo, o Reaver fala “o meu morreu recentemente” e só nisso já seria o suficiente para estar meio 🧐, mas o próprio autor confirmou no último mês do orgulho que é um personagem gay (viva as gay! gay! gay! gay!), o que claro, também despertou reações de incômodo (para não usar outras palavras) dos homofóbicos. O personagem é a síntese do meme de “chega de histórias de gays sofrendo, queremos histórias de gays trambiqueiras, empinando moto, dando tiro etc.”. Porém, deixo minha nota de repúdio ao que aconteceu com o personagem nesse volume!!!

E por sinal, eu gosto muito do desenho do Glitch. É um desenho “agressivo”, com linhas e traços mais grossos e formas mais pontiagudas, e frequentemente passa uma impressão carregada e suja, que combina bastante com o cenário que a obra se passa. Para a edição da MPEG, o autor revisitou a obra e redesenhou (ou refinou) as páginas lançadas online, retrabalhando o desenho e a composição da obra. Não cheguei a ler os capítulos digitais, mas dei uma olhada e dá para ver algumas mudanças, tanto na composição, como no nível de detalhes que ele dá, bem como no rearranjo das cenas. O que mais gosto no desenho dele são os momentos mais carregados da arte: cenários abertos incrivelmente detalhados, bem como algumas páginas com enfoque na expressão facial dos personagens.

Talvez, o autor nem esteja pensando em uma alusão a realidade de jovens desassistidos, nem nada de tão profundo na criação da obra, mas não consegui não pensar nessas questões enquanto lia. E aliás, acho interessante o conceito por de trás do Tributo, como uma manifestação de um desejo de alguém que já se foi e que torcia pelo melhor daquele que ficou, abrindo margem para a aparição de habilidades bem legais, como deu para ver pelos personagens que apareceram com maior destaque ao longo desse volume. E o próprio contexto do surgimento dele é interessante, com os registros apontando para a 2ª Guerra Mundial, um cenário de destruição, desesperança e de perdas (físicas e materiais), o que leva diretamente ao desejo daqueles que morreram (background maravilhoso!).

Depois do Reaver, outras figuras começam a aparecer, como uma dupla de irmãos assassinos que a princípio, não se relacionam diretamente com a dupla de protagonistas, mas dão indícios de que serão peças importantes no(s) próximo(s) volume(s) da série. Uma outra personagem importante que entra em cena a certa altura do volume, sendo ela parte de uma organização que busca manter a existência de pessoas portadoras de Tributo em completo desconhecimento das pessoas comuns da sociedade, buscando o Kaleb como um aliado para atuar nos bastidores e ajudá-los. E sendo uma organização que busca manter um certo controle sobre essas pessoas sob a premissa de proteção da população geral, é claro para mim que cedo ou tarde, essa proposição vai ir por terra e os protagonistas logo serão vistos como inimigos.

A comédia da série é construída em cima dos personagens serem extremamente equivocados, em especial, o Kaleb. Eles não tem tato, nem escrúpulos, nem muita consideração com o outro e acho isso meio fascinante, embora que ainda sinto incômodo em algumas situações. Existe uma certa brasilidade na maneira como os personagens se expressam, com uma quantidade absurda de palavrões a cada conjunto de frases ditas pelos personagens da série.

Para terminar, apesar das várias coisas que disse ao longo do texto sobre esse volume 1, terminei o tomo me perguntando “para onde a história vai?”. Vejamos, temos vários núcleos se movimentando ao mesmo tempo (Kaleb e Noah buscando um sentido na vida; a organização que busca o Kaleb como “aliado”; a dupla de assassinos de aluguel que agora vai atrás do Kaleb; e a figura que quer a cabeça do Kaleb), mas eu não consigo vislumbrar um norte narrativo. A gente sabe que tem alguém caçando o Kaleb e uma organização que quer manter as pessoas com Tributo sob controle e isso vai servir como um contraponto, com os dois personagens principais no meio do fogo cruzado, mas não sei, acho que talvez sinta falta de um fio condutor mais forte. Em todo caso, é inegável que a obra consegue prender a atenção enquanto se está lendo.


  • A edição da MPEG

A MPEG lança a obra no formato 13,7 x 20 cm, com capa cartonada com sobrecapa fosca e verniz localizado (personagem, título, número e nome do autor e editora). O papel é o Off-set 90g, com 228 páginas no volume 1 e páginas coloridas no mesmo papel. Inclui marca página, um card de um dos personagens da série e postal de brinde. O volume #1 teve direito a uma edição com capa variante, cujo os brindes são os mesmos, mas tem uma laminação prateada no título e no número da edição. Abaixo, vocês conferem um vídeo mostrando tanto a edição regular, como a edição com capa variante.


  • Conclusão

Esse definitivamente não é o meu estilo de obra e em condições normais, eu não pegaria para ler, mas não podia ignorar algo de tamanho sucesso e acho que independente de qualquer coisa, é bom dar evidência aos trabalhos produzidos no Brasil e celebrar o seu sucesso. No fim das contas, é uma obra que se você quiser, pode ver com um aspecto que reflete um pouco esse novo Brasil, como pode ver como um grande mangá de porradaria com personagens equivocados, e isso que traz uma parte da diversão.

Pro público habitual do blog, não acho que é a melhor recomendação, mas para quem gosta do estilo (à lá Shounen de Lutinha), é uma boa pedida.


  • Ficha Técnica
  • Título: SENSE LIFE
  • Autor: Glitch Tellend
  • Serialização: Fliptru
  • Editora nacional: MPEG
  • Quantidade de volumes: Em andamento com 2 volumes
  • Formato: 13,7 x 20 cm; capa cartonada com sobrecapa fosca e verniz localizado
  • Preço de capa: R$ 39,90
  • Compre em: Amazon/Loja MPEG