O ano de 2026 está começando e estamos começando nossas atividades em termos de resenha. Bem no comecinho do mês, lançamos o texto de recomendação de “Isekai no Sata wa Shachiku Shidai” e hoje, lançamos a resenha de “Ayako”, ao mesmo tempo, a resenha do segundo volume de “Tomie” do Junji Ito (leia aqui).
“Ayako” (奇子) é um mangá que foi escrito e ilustrado por Osamu Tezuka. A obra foi publicada no Japão entre 1972 e 1973 na revista Big Comic, da editora Shogakukan, e foi concluído originalmente em 3 volumes. Nas décadas seguintes, a obra ganhou várias reedições (1981, 1989, 1996, 2017…). No Brasil, a obra foi confirmada pela Veneta no final de 2017, lançando a obra meses depois, em volume único, fevereiro de 2018. Esse foi o primeiro mangá da editora na época e de lá para cá, vem lançando ocasionalmente algumas obras japonesas (Ikkyu, de Hisashi Sakaguchi, sendo a mais recentemente). A obra já esgotou e foi reimpressa diversas vezes no Brasil e nesta última reimpressão, feita no final de 2025, a editora gentilmente nos enviou um exemplar do mangá. Lemos a obra, mais rápido do que pensei que leria, e hoje, resenhamos o mangá. ^^

Sinopse: “Jiro Tenge, filho de uma família aristocrática do norte do Japão, volta para casa depois de passar anos como prisioneiro dos americanos durante a Segunda Guerra Mundial.
Ele descobre então um terrível segredo envolvendo seu pai, seu irmão mais velho e sua cunhada. Mas Jiro também tem um segredo, também terrível. E todos decidem que a filha mais nova, a pequena Ayako, é quem pagará pelos pecados da família.
Através da história da família Tenge, o quadrinista Osamu Tezuka conta a história do Japão no pós-guerra.
O trauma da ocidentalização forçada imposta pela Força de Ocupação norte-americana, os reflexos da Guerra Fria, os choques de gerações, a luta de classes, a corrupção na política, o poder da Yakuza, as guerras de gangs, a violência do machismo…
Tudo em um ritmo de suspense alucinante, que surpreende à cada página. Um livro emocionante.”
- História e Desenvolvimento
“Ayako” nos conta a história de decadência de uma família. A família em questão, é a família Tenge, que anteriormente vivia momentos de glória, sendo dona de grandes latifúndios, possuindo inúmeros funcionários e sendo vista como uma linhagem de prestígio e respeito. No Japão pós 2ª Guerra, porém, as coisas já não são mais como antes: as terras da família vem sendo confiscadas pelo governo para uma reforma agrária, o que garantiria melhores condições à população pobre (precisávamos, com urgência, disso no Brasil), e vinha perdendo seu espaço e renome. É nesse contexto que o Jirō, um dos filhos mais velhos da família, retorna da guerra. Não vai demorar para que ele comece a descobrir alguns podres da família, ao mesmo tempo que se embrenha em conflitos políticos.

Além do Jirō, a família Tenge é composta por: Suekamon (52 anos), pai e patriarca da família; a Iba (51), a mãe do Jirō; o irmão mais velho, Ichirō (27), e sua esposa, a Sue (23); a irmã mais nova Naoko (18); o irmão mais novo, o Shirō (12); e na sua casa, ele descobre que possui uma nova irmã, a Ayako (4 anos), que não é filha de sua mãe, mas sim, fruto de um abuso sexual que sua cunhada, casada com o Ichirō, sofreu de seu pai, fazendo com que a Ayako viva como irmã deles, sem saber que a Sue é sua mãe, e sem ela poder demonstrar que a Ayako é sua filha. Outros familiares importantes moram ali e ficam próximos desses personagens, ajudando a compor o cenário e eventualmente, se tornam peças importantes para a narrativa. Outra personagem relevante de se destacar é a Oryō, uma mulher que tem problemas mentais e do que sabemos inicialmente, não tem família, vive abandonada meio à própria sorte, mas que a Ayako tem apreço, sendo muito apegada.
O que aconteceu é que Suekamon estava de olho na esposa do filho e como forma de conseguir isso, negociou a maior parte da herança para o Ichirō, nisso nasceu a Ayako, filha e irmã que o Ichirō menospreza e que nutre raiva da Sue, como se a culpa não fosse dele. O acordo era que o pai transasse com a Sue apenas uma vez, porém, o velho se aproveitou de não haver um acordo formal para exigir mais e mais vezes, sob a ameaça de não efetivar o acordo feito, sobrando para a Sue lidar e aceitar calada os abusos que sofre.

“Ayako” trata de várias coisas: temos uma trama política que vai se desenhando no desenrolar da narrativa, que vai tratar de linhas políticas diferentes entre si: as organizações comunistas de esquerda tentando resistir às pressões dos Estados Unidos, que depois da guerra, se embrenhou na política japonesa para “conter perigos” (e aqui não estamos falando do Nazismo), fazendo espionagem, além do sentimento de remorso e insatisfação que se tinha em grupos japoneses que estavam alinhados ao imperialismo japonês e viam naquilo, uma glória que é alimentada por um patriotismo e pela lembrança um passado melhor (lembra o Brasil de alguns anos atrás). Ao mesmo tempo que essas tramas e intrigas políticas vão se desenhando, o Osamu Tezuka vai envolvendo a família Tenge nessa história, principalmente a personagem da Ayako. Embora ela não tenha uma participação tão direta na história no primeiro 1/3 do mangá, tudo vai se afunilando para que a história passe a girar entorno dela, já que grande parte dos desenvolvimentos e eventos narrados só acontecem pela existência da personagem.
O Osamu Tezuka tem uma fluência maravilhosa. Compõe e conta a história de maneira fantástica, o que torna a leitura instigante, de forma que li o mangá em poucos dias. Quem acompanha o blog há algum tempo, deve saber que odeio edições que compilam volumes (2 em 1, 3 em 1…). Acho elas desconfortáveis (e isso são mesmo, inegável), mas o que me pega mesmo é que sempre tenho a sensação de que a leitura não flui, independente do mangá. Então não curto, salvo raras exceções, para além da preguiça que dá só de olhar aqueles volumes enormes e várias vezes, o que desejo é algo mais rápido ou dinâmico para ler. Por isso, fiquei tão surpreso comigo mesmo pelo quão rápido li esse volume de mais de 700 páginas. Desde que chegou aqui em casa, ele fica aqui na sala de casa. Então todo dia eu sentava e lia um pouco da obra (20-40 páginas normalmente, até umas 100 páginas em dias mais excepcionais). E por sinal, esse foi o primeiro mangá do Tezuka que eu li. Até já tive “A Princesa e o Cavaleiro” (JBC), um dos poucos Shoujos do autor lançados no Brasil, mas não parei para ler e vendi a edição.

O Tezuka é chamado e considerado como “O Deus do mangá moderno” e não acho que seja nem um pouco à toa. Mesmo sendo o primeiro trabalho dele que leio, é evidente que ele mereça a fama e o título que tem. Não tenho qualquer fluência ou propriedade para conseguir falar do autor ou mesmo do mangá como um todo em uma perspectiva mais histórica, mas é interessante ver a obra, porque é um mangá da década de 1970 que envelheceu muito bem. O autor flui e intercala vários gêneros, indo desde tramas políticas, com um retrato sólido e consistente da política japonesa (inclusive, contra o sentimento patriota, mas igualmente contra a intervenção estadunidense), das relações sociais nas famílias e de poder (e abusos, por consequência), e a comédia que beira o pastelão em alguns momentos. Ayako é uma obra de quando o Tezuka já tinha quase 30 anos de carreira e temos várias páginas aqui que são legais, em termos de desenho e composição, desde desenhos “simples e cartunescos”, para páginas que são o auge do detalhismo e da minuciosidade. E é genial que o autor misturar eventos, partidos e situações que aconteceram na realidade, combinando com outros fantasiosos e inventados, enquanto faz críticas sociais excelentes ao longo de todo o mangá.

Eu poderia passar tempo falando das tramas políticas que a obra traz e que, de fato, são interessantes e creio que diversas pessoas já devem ter abordado antes. Então vou optar por abordar um outro assunto que eu considerei mais marcante durante a minha leitura. Como eu disse, esta é uma história de decadência. Conforme a história vai se adentrando, mais a família vai ruindo e o que acho intrigante, é que o Osamu Tezuka quebra e destrói todos os homens desta família. Alguns são apresentados como cretinos desde o início, como o Suekamon e o Ichirō, outros, como o próprio Jirō e um outro personagem que vai se mostrar importante, vão ir se desmontando e quebrando na própria moralidade que acreditavam e defendiam ter. Agora o ponto principal é que o Tezuka apresenta a Ayako como uma grande vítima da família: por causa de um certo acontecimento que o Jirō se mete, a família decide por fingir a morte da Ayako, a trancando em um porão, isso não é um spoiler, porque a trama principal se desenrola a partir deste momento, e passará diversos anos presa lá dentro, quase como uma alegoria de O Mito da Caverna (ou Alegoria da Caverna), de Platão.
Mas não é só a Ayako em si que é uma vitima. O que o Osamu Tezuka apresenta aqui é uma série de mulheres que são vitimas dos homens que as usam e dizem amá-las. Há várias “Ayakos” dentro da obra, começando desde a Iba, matriarca da família; a Sue, que foi abusada e continua a ser abusada e violentada (física, moral e psicologicamente) pelo marido e pelo sogro; a Naoko que estava envolvida com a causa comunista e que se levanta como uma grande feminista; e uma das que acho mais triste nessa história toda, a Oryō, que foi usada, abusada e agredida inúmeras vezes, sendo colocada em uma situação de extrema vulnerabilidade, somada à sua deficiência, a sua história foi algo profundamente triste de acompanhar. E, sendo elas mulheres, a história de algumas delas termina por ser bem trágica. Tem uma página que me marca particularmente no mangá e que mostra como o Tezuka estava bem à frente do seu tempo. É quando ele retrata a Naoko incentivando a Sue de se separar do seu irmão e a reagir frente às violências que sofria naquela casa. Isso é algo feminista, ainda mais pensando que esse é um mangá do começo dos anos 1970 e que, se formos colocar na ponta do lápis, ainda continua atual, mesmo com um cenário tão diferente do retratado na obra (não rural, com aumento populacional, desenvolvimento tecnológico e dos centros urbanos etc…).

Além da resenha de “Ayako”, hoje nós também lançamos uma resenha para o segundo volume de “Tomie”, Shoujo de horror/terror do Junji Ito. Resolvi lançar as duas resenhas ao mesmo tempo, pois apesar de trabalharem assuntos tão diferentes, terem estruturas narrativas e estilos distintos, vejo uma semelhança nas obras que é nesse aspecto de como os autores retratam a existência das mulheres nas obras. “Ayako” retrata a vida de sofrimento de várias mulheres por causa de homens, enquanto que “Tomie” é uma alegoria para falar da violência que as mulheres sofrem, violência essa que vai ser materializada na figura da Tomie. Deixo o link para a resenha:
Existem dois finais para o mangá: um foi feito na publicação da Big Comic, porém, existe um outro final que foi feito para as publicações impressas no Japão, diferente do final lançado nas páginas da revista. O final feito para as publicações impressas é o primeiro que vemos na edição da Veneta. Sem entrar em detalhes para não dar spoiler, digo que sendo uma história de tragédia, o final é igualmente trágico. Eu particularmente não gosto do fim dado e ficaria triste se ele fosse o único final da edição. Porééém, a edição da Veneta inclui o final original, feito na Big Comic, que por sua vez, é mais interessante e satisfatório, já que haviam pessoas que realmente mereciam um sinal de alívio, coisa que o autor traz aqui. A edição da Veneta foi a primeira publicação ocidental a trazer esse final, o que foi algo bem legal!
“Ayako” é uma obra boa, com temas interessantes e pertinentes até hoje. Uma das coisas que fiquei curioso para saber mais depois que li o mangá foram os rumos que a esquerda levou depois das invenções estadunidenses e outros movimentos de direita e extrema-direita no país, ainda mais considerando que hoje eles estão com a Sanae Takaichi de primeira-ministra (a Margaret Thatcher deles) e ela tem um apelo forte entre os jovens (esse é um grande momento da ascensão da extrema-direita ao poder e bem, é preocupante).

O Tezuka, na sua bibliografia, tem desde mangás com uma pegada mais infantil ou infantujuvenil, a obras que explora assuntos e temas mais sérios, como é o caso de “Recado a Adolf” (Pipoca & Nanquim), “MW” (Pipoca & Nanquim) ou mesmo, “Ayako”. Para quem quiser conhecer um pouco dessa pegada mais “séria” dele, esse é um bom ponto de partida!

Não sei se a Veneta lerá este post (eu espero muito que sim, considerando que nos enviaram o mangá), mas se me permitem o comentário: a editora vem trabalhando com autores bons, abordando uma gama de assuntos e temáticas pertinentes. Construindo um catálogo que inclui as obras (em ordem de lançamento):
- Ayako, de Osamu Tezuka (volume único);
- O Homem sem Talento, de Yoshiharu Tsuge(volume único);
- Vida à Deriva, de Yoshihiro Tatsumi (em 2 volumes);
- Kanikosen – O navio dos homens, de Gô Fujio (volume único);
- A Tragédia da Princesa Rokunomiya, da Kuniko Tsurita (volume único);
- Ikkyu, de Hisashi Sakaguchi (em 4 volumes);
- Nejishiki, de Yoshiharu Tsuge (volume único);
O que chamo atenção é que neste catálogo de quase 10 obras, apenas uma foi feita por uma mulher, no caso, “A Tragédia da Princesa Rokunomiya”, uma obra Seinen da Kuniko Tsurita.

A Veneta é uma editora aberta com relação à ser de esquerda, então deixo meu pedido que invistam nas autoras mulheres que produzem e tanto contribuem para o mangá japonês. Mas não só autoras, mas entre aquelas que produzem para o mangá feminino (Shoujo, Josei…), já que até agora a editora não possui nada de demografia feminina publicado. Temos autoras absolutamente incríveis que nunca foram exploradas aqui no Brasil (Keiko Takemiya, por exemplo) ou que foram abandonadas depois de um ou outros mangás publicados (Riyoko Ikeda, autora de “Rosa de Versalhes“, é um ótimo exemplo disso). Não só autoras “clássicas”, mas contemporâneas também: adoro o trabalho da Akane Torikai, denunciando as mazelas da sociedade, principalmente aquelas que afetam diretamente as mulheres (machismo, misoginia…), a Youko Nemu, que fala sobre a mulher na sociedade atual e suas preocupações (trabalho, vida social, relacionamentos) ou a Kiriko Nananan, que faleceu em dezembro de 2024 e foi noticiado sobre sua morte um ano depois, em 2025, e sendo uma outra autora que produzia mangás sobre a figura da mulher na sociedade japonesa, com delicadeza na maneira de contar suas histórias. Enfim, poderia passar mais tempo mencionando obras e autoras que são importantes para a história dos mangás, mas que também trabalham com temáticas que tem essa “carinha” que agradaria a Veneta. Eu não sei como é o catálogo da editora nos quadrinhos e literatura com relação à autoras, mas espero que seja melhor distribuído.

- A edição nacional
“Ayako” foi lançado no Brasil em volume único pela editora Veneta no formato 16,4 x 23,8 cm, em capa dura, com 720 páginas impressas em um papel que muito lembra o papel Pólen. O mangá não possui páginas coloridas. A tradução é do Marcelo Yamashita e da Esther Sumi. O preço de capa é de R$ 189,90. Abaixo, vocês conferem o vídeo mostrando a edição nacional:
*vídeo*
Achei curioso é que a editora usa acento nas terminações de nomes com “o” (Oryō, Ichirō, Jirō…), ao contrário do que mais vemos usualmente nas romanizações de nomes e palavras japonesas que se coloca um “u” no fim (Oryou, Ichirou, Jirou), assim como fazemos com as demografias (Shônen = Shounen; Shôjo = Shoujo). Minha única “reclamação” sobre essa edição é que eu senti falta de um glossário no final com as palavras, siglas e termos usados. Sendo uma obra apoiada na realidade, o Tezuka faz menção a vários eventos e pessoas históricas. O mangá é repleto de (excelentes) notas de rodapé, mas sendo uma história longa, alguns nomes voltam a aparecer em outros momentos e é difícil lembrar o significado da sigla mencionada, porque ficou “perdida” no começo ou meio do mangá, se tornando difícil encontrá-la novamente depois. De resto, o texto é bom, a encadernação e papel são ótimos (só não gosto de mangás em capa dura, mas sendo um título de 700 páginas, entendo o uso).
- Conclusão
Osamu Tezuka era realmente um autor diferenciado, com diversos talentos e que teve enorme contribuição para o desenvolvimento do mangá. “Ayako” dá um gosto dos talentos do autor e fico contente com a leitura e por ter gostado tanto dela! Recomendo darem uma conferida no mangá, se tiverem oportunidade, e novamente, agradecemos à Veneta por nos ter enviado a obra! ^^

- Ficha Técnica
- Título original: Ayako (奇子)
- Título nacional: Ayako
- Autoria: Osamu Tezuka
- Serialização no Japão: Big Comic
- Editora japonesa: Shogakukan
- Editora nacional: Veneta
- Quantidade de volumes: Volume único
- Formato: 16,4 x 23,8 cm; capa dura fosca
- Preço de capa: R$ 189,90
- Compre em: Loja Veneta/Amazon

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