Uruwashi-thumb-anime
É bonito visualmente, mas a direção erra muito a mão...

Depois de comentar a excelente estreia de “Ikoku Nikki“, vamos para o primeiro episódio de “Uruwashi no Yoi no Tsuki” (ou como está na Crunchyroll: In the Clear Moonlit Dusk) que assim… com a mais certeza absoluta, é um anime melhor que a adaptação de “Hananoi-kun to Koi no Yamai“, feita pelo mesmo estúdio, mas temos outros problemas que estão além da animação. Vamos lá, porque tem muito para falar e conversar sobre essa estreia e sobre a obra em si.

Sinopse: “Yoi Takiguchi é uma garota que, graças ao seu jeito de se portar e à sua esguia e bela aparência, é chamada de “príncipe” pelos colegas. Por sempre ser comparada aos mocinhos dos mangás de romance, a jovem cresceu com sentimentos conflitantes em relação a isso. Certo dia, ela acaba trombando com Ichimura, o outro “príncipe” da escola. No começo, Yoi tem uma péssima impressão sobre ele ­­- muito por conta do jeito mal-educado do rapaz, bem longe de se comparar a um príncipe. No entanto, algo inesperado acontece e o que Yoi fará ao ser vista como quem é de verdade pela primeira vez?”


Antes de falar da parte ruim, vamos partir da sinopse, das partes boas e aí chegamos nos problemas. A sinopse parte da Yoi, uma garota com uma voz mais grave e traços ‘masculinos’ ou andrógino, o que com o passar do tempo, ganhou o apelido de “príncipe” da escola. Ela vive sua vida cotidiana normalmente, até que em um belo dia, acaba cruzando com o Ichimura, que também é apelidado como príncipe da escola. A feição da Yoi, que ele inicialmente pensa ser um garoto, rapidamente chama a sua atenção, ao ponto de criar um interesse que aos poucos, vai se tornando genuíno e uma relação (meio conturbada, é verdade) nasce a partir daí…

Eu genuinamente não gosto do uso da cor azul nesse anime.

Essencialmente podemos dizer que “Uruwashi” quer falar sobre uma garota que, por nunca ser vista como bela na figura feminina, se vê obrigada a incorporar a figura de “príncipe”, de forma que não consegue se conceber como bonita, nem mesmo cogitar uma saída disso pela pressão que se cria entorno dessa figura. E é nesse encontro com um garoto, que sim, de primeiro momento pensa que é um garoto, mas que ao saber que ele é ela, admira e a acha bonita. Aí que a protagonista começa a vislumbrar alguma outra perspectiva para si mesma.

Não é que Uruwashi se pretenda a criar grandes discussões sobre pressões da mulher na sociedade ou coisas do gênero, longe disso. Eu gosto desse aspecto que é presente e que é o cerne da obra. Diversas pessoas detestam (mas detestam MESMO) a obra, porque criou na cabeça delas que a autora, Mika Yamamori, estava criando uma obra sobre uma mulher desfem (ou tomboy), com a autora eliminando isso da história e tornando a personagem mais feminina. Veja: a obra NUNCA foi sobre isso. Seja nesse primeiro episódio, como primeiro capítulo do mangá, em diversos momentos a Yoi se mostra profundamente incomodada com o papel de príncipe. Ela nunca pediu ou quis aquilo, apenas incorporaram aquele papel nela de tal forma que ela nem sabe como sai daquilo. E a grande questão é que ela vive uma grande dicotomia entre ser vista como bonita, mas pela ideia de “príncipe”, ao mesmo tempo que nunca foi considerada como um potencial romântico por alguém, exceto pelas garotas que tem um crush nela (justamente pela ideia que ela representa e não por ela em si).

Há quem diga que essa premissa da obra é machista e rasa, porque seria a típica história da garota que muda o jeito por causa de macho, abdicando de quem é para agradar uma figura masculina (e tem gente que pensa assim, e eu li gente falando isso). Mas algo que vi sendo comentado uns meses e que concordo plenamente é que a Yoi não muda o seu jeito POR CAUSA do Ichimura, mas sim, muda ATRAVÉS dele. Ela não muda para se encaixar num padrão de feminilidade e assim namorar com o garoto bonitão. É através desse garoto bonitão que ela consegue se enxergar como bonita e tentar coisas que, antes, sequer teria coragem de tentar. Por mais que a gente aqui no blog fale dessa questão da representação de personagens femininas como se elas vivessem em função do garoto (coisa que é recorrente no Shounen e o Seinen), quem é que não quer se ver como bonita(o)? Quem é que não quer se sentir amada(o) ou desejada(o)? Visto como alguém interessante pelo que você É… Sabe, é algo que pode soar bobo, mas quando você não tem autoestima, ter alguém ali para te dar uma moral, pode fazer uma grande diferença na vida (falo isso como um homem gay que não consegue se ver como alguém bonito). Não é difícil perceber essas coisas, pois além das cenas que a personagem diz mais explicitamente, ainda há aquelas que está no implícito: preocupada com o que os alunos vão pensar e os boatos que podem surgir sobre eles com o Ichimura falando com ela tão informalmente (misto de medo e receio da personagem). A reação dele é dizer “Eu não vejo problema. Deixe que pensem”.

Eu acompanho o mercado francês de mangás e por consequência, aparecem tweets e discussões que rolam por lá. Na época que surgiu essa patifaria de acusar a obra de “queerbait”, porque sim, até disso acusaram a obra, ou desdenhar dela por ser um ‘romance hetero básico’ (frustrado por expectativas que eles mesmos criaram e não por algo que a obra vendeu), vi um comentário muito bom no Twitter que a pessoa comentou que “Uruwashi no Yoi no Tsuki” não fala exatamente sobre a identidade queer, mas ele dialoga justamente sobre como as garotas andróginas japonesas são vistas na sociedade: são “masculinas demais” e, portanto, indesejadas. Se para o ocidente isso pode soar “ultrapassado”, “retrógrado” ou até “simplista”, é preciso lembrar que o Shoujo reflete a sociedade japonesa e, pelo visto, essa é uma discussão que acontece por lá. É sempre bom tomar cuidado com orientalismo. Somos nós consumindo a produção deles e antes de querer apontar o dedo, é preciso olhar para a nossa própria realidade e às vezes, tentar entender o contexto social japonês também.

Para garotos, é mais fácil ser desapegado de certas pressões (ou simplesmente não sofrer com algumas delas), o que acaba sendo uma ajuda para a Yoi.

Uma das minhas grandes questões quando eu vejo esse pessoal cobrando céus e mundos de um Shoujo (ou Josei, ou BL) é que essas produções precisam ser absolutamente perfeitas. Não podem ter falhas ou mesmo romances simples. TUDO precisa se apresentar com uma história extremamente elaborada, com um enredo revolucionário ou mesmo, ter X representações. Vejam, não estou dizendo que Shoujo não é para ter personagens LGBTQIA+. É sempre excelente quando vejo trabalhos que tem personagens ou abordam questões da nossa comunidade, mesmo quando esse não é o assunto principal daquela obra (e é sempre bom lembrar que o BL e uma parte do Yuri, veio do Shoujo e segue sendo publicada no Shoujo). O meu ponto é que essas cobranças ~coincidentemente~ só recaem em trabalhos que são feitos por e voltados para mulheres. Eu nunca vi cobrança por representatividade no Shounen medíocre da temporada, ou no Seinen de romance genérico. É curioso como esse tipo de cobrança aparece com força e com uma expressividade de vozes quando se trata de demografia feminina. Agora, vai ver se existe toda essa cobrança com obras feitas por e para homens…

Explorando outros aspectos do episódio, o anime é feito pelo EAST FISH STUDIO e eu diria que embora esta seja claramente uma produção melhor do que a de “Hananoi-kun”, ela claramente tem suas limitações. Visualmente, os designs são detalhados, mas os personagens não conseguem se mover pelas limitações do estúdio. Tem cenas mais travadas e quando o anime quer fazer cenas em câmera lenta, fica um bocado constrangedor.

Mas meu principal problema com esta estreia se encontra na direção. Quem dirige o anime é o Yuusuke Maruyama, que está fazendo sua estreia na direção geral de um anime. Em anos anteriores, ele trabalhou como diretor de episódios em vários animes e foi diretor assistente em “Lycoris Recoil” (2022). E assim… ele claramente não entende de Shoujo. Os trabalhos do diretor sempre foram em animes voltados para o público masculino e eu sempre fico receoso quando adaptações de Shoujo vão para a mão de profissionais que não trabalharam com obras da demografia (ele dirigiu um episódio de “Akatsuki no Yona” (2014) e mais recentemente, um episódio de “Hypnosis Mic” (2020)). Claro que sempre tem quem entregue bons trabalhos, mesmo em um primeiro contato, mas aqui, sinto que o diretor realmente não entende os arquétipos da demografia, o que cria situações em que ele realmente erra a mão na hora de compor cenas, principalmente naquelas que não estão no mangá e são adições para a animação.

Tem diversas inserções ao longo do episódio que absolutamente não ornam com o estilo narrativo do Shoujo e que ao invés de soar brega (no bom sentido), acabam saindo como cafonas (no mau sentido). Por exemplo, na cena que a Yoi faz um golpe para defender o Ichimura de uma agressão na loja de conveniência, aparece uma chuva de pétalas que não existe no original. As inserções de rosas para representar o quão bonita a Yoi é (e que é um recurso clássico do Shoujo, junto com aqueles brilhinhos quando as personagens estão coradas ou surpresas com algo) ficam parecendo PNGs mal encaixados. Tem momentos que a direção pesa a mão nesses exageros, enquanto em outras, que poderia ter deitado e rolado, se contém. Para exemplificar o que quero dizer, um diretor que gosto muito é o Shinji Ishihara, que nesta temporada, dirige o BL “Isekai no Sata wa Shachiku Shidai“, e alguns anos atrás, ele dirigiu o Shoujo “Sasaki e Miyano“, que usava esses recursos de brilhos. Ele sabia ler o material e encaixar esses elementos para criar a autra do momento. Aqui em Uruwashi, parecem só inserções mal feitas…

Sasaki e Miyano

E como comentei, a obra fala da dicotomia que a Yoi vive e sinto, também, que o diretor foca muito na parte visual e esquece da parte de conflito da personagem. Para além disso, também tenho a sensação de que mesmo nas cenas que eu genuinamente gostei, como aquela no final do episódio com o Ichimura querendo fazer mais coisas que deixam a Yoi sem saber como reagir, sinto que foi mais mérito pelo texto excelente da Mika Yamamori do que pela direção em si (embora nessa cena, a montagem tenha ficado legal).

E além da direção, o anime tem um outro problema que está no design de personagens. Como eu disse, o anime tem designs detalhados, mas sinto que o designer (o Yuuki Fukuda) não conseguiu transpor o sex appeal que os personagens têm no original. No mangá, o casal de protagonistas exalam tesão, tem muita química já nas primeiras cenas juntos e isso se esvaiu quase que completamente na adaptação. Também se soma ao fato da direção não conseguir recriar a química que os personagens possuem, o que por sua vez, leva a um episódio um pouco arrastado. Nesse sentido, quem eu acho que mais acaba sendo prejudicada é a própria protagonista, que fica com um ar de “normal” ao invés de parecer uma beldade… Eu ODEIO ser a pessoa que fica comparando mídias tão diretamente, pegando quadros do mangá e comparando com a animação, mas só para vocês entenderem o que quero dizer, uma pequena demonstração:

Reparem na região dos olhos, tem uma transmissão pela expressão facial muito mais marcante no mangá do que no anime.
De novo, expressão dos olhos.
Usei só cenas com o Ichimura, porque ele tem essa carinha de cafajeste no começo do mangá que eu acredito ficar mais fácil de entender o meu ponto.

A minha amiga Mamura é uma grande fã de “Uruwashi” (a maior que conheço) e ela trouxe uma perspectiva diferente da minha: se eu achei algumas cenas ridícula pela cafonice que não existe no original, ela conseguiu achar graça pelo absurdo (como diria Glória Perez: pobre de quem não sabe voar!). E assim, considerando que esse é o mesmo estúdio responsável pelo assassinato de “Hananoi-kun to Koi no Yamai”, acho que essa é uma forma bem válida de ver as coisas, afinal de contas, poderia ser bem pior, rs.

E antes de terminar, vi gente (gringo, claro) se perguntando porque Uruwashi está com uma produção tão melhor em comparação à Hananoi-kun, sendo que o estúdio é exatamente o mesmo. Dá para falar disso levando em conta tempo de produção (às vezes, Uruwashi teve mais tempo que Hananoi-kun), comitê de produção, mas acredito que o que está sendo um grande diferencial aqui é a direção. Quem dirigiu Hananoi-kun foi o Tomoe Makino que, embora tenha dirigido mais animes que o Yuusuke e esteja atuando na indústria há mais de 10 anos, me parece mais limitado e sem contatos; enquanto que o Yuusuke, que também está aí com seus 10 anos de atuação, trabalhou em produções de mais alto calibre como “Fate/stay night: Unlimited Blade Works” na Ufotable e animes da CloverWorks como “Trapezium” e o próprio “Lycoris“. Nesses casos, para um diretor que tenha contatos, o estúdio que ele está, acaba não fazendo diferença, já que ele pode contatar amigos para trabalhar com ele no projeto que está envolvido (produtores ajudam nessa parte também!) e esse parece o caso do Yuusuke. O fato é que Uruwashi não chegou morto como Hananoi-kun, mas acredito que deva sofrer um bocado no decorrer da animação. Vamos ver como se dará nos próximos episódios…


Dito tudo isso, eu ainda recomendo darem uma olhada no anime, principalmente se você não conhece o mangá. Pode ser uma boa porta de entrada para a obra. Só recomendo fazer a leitura da obra original posteriormente. ^^

E falando nisso, em meados do ano passado, escrevi um texto de recomendação do mangá aqui no blog. Na época, não se tinham informações da edição nacional e hoje, o mangá está em publicação no Brasil pela JBC com o título “Sob a Luz da Lua” (e com uma capa horrorosa). Pretendemos escrever uma resenha e publicar enquanto o anime está no ar, mas enquanto não sai, deixamos o post de recomendação:

Espero que tenham gostado do post e até o próximo anime! ^^