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Dramas humanos em apartamentos espaciais.

Em 17 de Março de 2022, há exatos 4 anos, a Devir anunciava “saturn apartments” em uma live com o Fora do Plástico. A obra foi anunciada junto de trabalhos como “SHOWA” e “Hitler“, ambos mangás de Shigeru Mizuki. Quatro anos se passaram e, no entanto, ainda não terminamos a publicação do mangá no Brasil. Consegui ler o primeiro volume do mangá por esses tempos e trago alguns comentários sobre o tomo inicial da série 🙂

saturn apartments” (土星マンション) é um mangá escrito e ilustrado pela Hisae Iwaoka. A obra foi publicada no Japão entre Novembro de 2005 e Junho de 2011 na finada revista Ikki (Seinen), da editora Shogakukan, sendo concluído em 7 volumes. O mangá ganhou o Grande Prêmio no 15º Japan Media Arts Festival. No Brasil, conforme dito, a obra foi anunciada em Março de 2022 e começou a ser publicada em Agosto de 2023. De lá para cá, a Devir publicou apenas 4 volumes (o último, em Dezembro/2025) e o 5º está em pré-venda com previsão para Abril.

Sinopse:Depois que a Terra se torna uma área protegida, os humanos vivem em apartamentos que formam um anel ao redor dela. O complexo é dividido em três níveis: inferior (onde estão os habitantes mais pobres), médio e superior (onde, gradativamente, estão os mais ricos). Mitsu, que mora no nível inferior, tem como profissão lavar as janelas da estrutura, um trabalho que lhe permite entrar em contato com a vida dos diferentes habitantes enquanto tenta descobrir mais sobre o desaparecimento de seu pai.


  • História e Desenvolvimento

Esta é uma ficção científica que se passa em um futuro distante, em que os seres humanos deixaram o planeta Terra – o tornando uma área de preservação ambiental -, passando a viver em uma enorme construção anelar dividida em três níveis (superior, central e inferior) situada a 35 quilômetros da superfície da Terra e sendo estritamente proibido descer até o planeta. Nesse interim, temos o Mitsu, filho de um limpador de um homem humilde cuja trabalho era limpar as janelas externas da construção anelar. O Mitsu está se formando no Fundamental II e vai começar a trabalhar no mesmo tipo de serviço do pai, que alguns anos antes, sofreu um acidente enquanto limpava uma das janelas e desapareceu, sendo considerado morto desde então. Assim, o Mitsu passa a interagir não só com os amigos e colegas de trabalho do pai, como outros moradores, de diferentes níveis e construindo assim, uma visão diferente de cada um deles.

O Mitsu meio que foi adotado pelos vizinhos, a família Kageyama, que meio que ficou responsável por eles. O Mitsu, embora goste deles, mantém uma certa distância deles, se referindo a eles pelo sobrenome (Kageyama), nunca os tratando como pais dele e sempre passando a impressão de que estão fazendo um favor a ele e o Mitsu sente que deve algo para eles. No serviço de limpeza de janelas, ele vai trabalhar em parceria com o rabugento Jin, que era parceiro do seu pai na limpeza. O que acompanhamos aqui são pequenos causos de diferentes pessoas dentro daquela civilização e que estão vivendo, de uma maneira ou de outra, com seus diferentes problemas.

Neste volume, temos cinco histórias sendo contadas: a primeira é de um casal que vive no nível inferior e quer que a janela deles seja limpa para o casamento deles; a segunda é sobre um homem obcecado com a ideia de que joguem água por fora da construção, o que é impossível, já que a água congela, além de trazer riscos de segurança; e o terceiro conto é sobre uma senhora que frequentemente contrata os serviços de limpeza; a quarta é sobre mulher que trabalha no lado de fora dos apartamentos e vive com uma gatinha; e a última (a que menos gostei), traz um engenheiro pesquisando meios de substituição do trabalho humano por máquinas. Nesse meio, ainda temos a história do Jin e outros amigos/colegas de trabalho do pai do Mitsu correndo ali quase que em paralelo a essas outras tramas.

Eu gosto desse tipo de estrutura narrativa, porque acho que ela permite explorar questões muito diferentes entre si, já que cada personagem apresentado vai trazer um drama consigo, o que por sua vez, também é uma ótima porta para fazer histórias dramáticas. Acho ainda mais interessante quando temos um(a) protagonista que não entende bem sentimentos (poderia citar “Violet Evergarden” como exemplo) e/ou como nesse caso, que o protagonista é uma criança e não entende completamente esse “mundo dos adultos”, precisando aprender a lidar com ele e suas confusões.

Aqui, a autora mostra que, de certa forma, a criança é muito mais resolvida do que os adultos que deveriam ser os responsáveis. E não é como se a autora desenhasse o Mitsu como se fosse um mini adulto, só que no corpo de uma criança, pelo contrário. O que acontece é que, por causa da perda precoce do pai, o Mitsu precisou processar e maturar alguns pensamentos e como ele quase que vive sozinho, precisou lidar com coisas que em condições normais (ou ideais), ele não teria. E sendo uma criança, tem coisas que ele não vai saber ou saber como lidar, o que é normal e como eu disse, por vezes ele acaba sendo mais maduro do que os adultos que estão ao seu redor. Como ele é muito novo, existe uma espirituosidade, inocência ou até uma proatividade em buscar métodos e formas de não só satisfazer os clientes – pensando na relação contratante e empregado -, mas também nas relações e sentimentos humanos mesmo, na coisa de se importar com o outro e no significado que aquela ação, que aquele trabalho possui para quem o está recebendo. É algo muito bonito que a Hisae Iwaoka faz aqui. Gosto, em especial, do casal que quer a limpeza da janela para o casamento, pela simbologia que aquilo representa, principalmente para a moça que contrata o serviço, e do carinha que queria ver água da janela, tudo isso para deixar uma beluga (baleia) mais feliz.

A obra também fala desse sentimento de solidão, de perda e até de um certo abandono que o Mitsu sente com relação à família. Sobre ele não conseguir se sentir parte da família Kageyama, seus vizinhos e que são aqueles que passaram a cuidar dele após o acidente com seu pai. Especialmente do Mitsu sentir que seu pai não se acidentou e que na verdade, ele o deixou/abandonou, porque queria descer até a Terra, posteriormente percebendo que não, que seu pai lutou para conseguir voltar e, embora ele não saiba exatamente o que se passou naquele dia e naquele acidente, ele sente um certo conforto no sonho de descer até a Terra e poder vislumbrar a maravilha que seu pai sentiu.

Tem algumas coisas na narrativa que são muito tradicionais, por exemplo, estamos falando de uma construção que se apresenta em três níveis diferentes e se tem divisão, é claro que vamos ter uma abordagem de desigualdades sociais e segregação. Um exemplo disso está na própria limpeza de janelas. Como é um serviço externo, ele requer um equipamento que é caro, além de muitos e altos custos de manutenção, o que torna o serviço muito caro, logo, quem tem recursos para pagar a limpeza é quem fica no nível superior. O nível central, como envolve prestação de serviço, órgãos públicos e afins, também tem limpeza, agora a massa da população que vive nos níveis inferiores, raramente consegue pagar pelo serviço e muitos deles sequer sabe mais como é a luz natural do sol. Essa questão também leva a problemas de saúde, já que a luz do sol é necessária para a ativação de vitamina D no organismo, causando fraqueza e problemas de saúde nas pessoas.

Eu (EU) queria que a Hisae fosse um pouquinho mais além nas críticas/alfinetadas sociais do que apenas pinceladas nessas questões. Talvez a autora só não queira pesar o clima, já que o mangá é bem humorado de maneira geral, mas eu pessoalmente gostaria que a autora fosse um pouco mais incisiva nas críticas, porque de certa forma, as vezes ela parece meio condescendente com o que acontece naquela construção e nas segregações que existem lá dentro. Outro exemplo, o protagonista é uma criança, já está trabalhando e em um trabalho que, por sinal, é super perigoso, já que é por fora das instalações… Ele se formou no Fundamental II – e aliás, é ali que se termina a educação considerada básica -, então deve ter por volta de 14 anos aproximadamente e não existe um contraponto a essa realidade que permite trabalho infantil, principalmente de crianças em situação de vulnerabilidade (pobres e viventes dos níveis inferiores). De certa forma, até parece que é muito bem-visto, já que demonstra produtividade. Note: não que trabalho infantil não exista na realidade e que a autora não pudesse colocar isso na obra, ainda mais que ficções científicas nada mais são do que a nossa realidade extrapolada para discutir problemas atuais, o problema é que justamente isso não é colocado como um problema.

Pode ser que a autora coloque esses problemas sociais de forma mais incisiva nos próximos volumes, porque o objetivo narrativo ainda não está totalmente posto: o protagonista deseja ir até a Terra, quer saber mais do pai e das circunstância que aconteceu o acidente e quer se entender e conhecer mais dos colegas de trabalho. Isso deve correr ao mesmo tempo que a autora vai apresentando mais histórias de diferentes pessoas, em diferentes situações e contextos, o que como eu disse, é uma forma de apresentar e introduzir novos dramas no roteiro, sem ficar muito repetitivo, já que são sempre novas histórias e novos personagens, e sendo personagens passageiros, mesmo que você não goste do que foi contado, não tem muita importância ou perda, já que ela em si não vai durar muito. Eu, por exemplo, não gosto muito da última história contada no volume, mas mesmo não curtindo muito ela, gosto da mensagem de valorização do trabalho humano, que existe um limite que substituição por máquinas pode chegar e que o trabalho humano/manual precisa ser valorizado. Em tempo de IA, acho que esse tipo de mensagem e valorização de trabalho manual é muito necessário e essencial.


Uma pequena “reclamação”: 35 quilômetros me parece uma distância muito curta para ter uma construção desse porte. Para eu ir até a universidade, da minha casa até o campus da UFSCar em Sorocaba, são pouco mais de 20km de distância. Fiquei com isso na cabeça e fui pesquisar, a atmosfera é dividida em camadas e no caso da Terra, ela passa dos 300km de altura. A 35km, a construção estaria dentro da Estratosfera e não sei dizer se essa seria uma distância segura por conta da gravidade… fora que algo tão grande e tão perto do planeta criaria uma faixa de sombra tão grande que certamente mataria uma grande quantidade de plantas (e sem plantas, temos efeito cascata com a morte de animais etc…)… Dito tudo isso, vamos voar! É um detalhe que não faz diferença narrativamente, porque não seria possível de qualquer forma.

Mas algo que acho muito interessante é a noção de que ok, ser humano não tem jeito, então o planeta só vai ‘se curar’ se ele não estiver mais na Terra, então recolhe todo mundo e vamos viver em apartamentos espaciais. Hoje em dia, temos uma ala de bilionários que sonham com uma colonização de Marte, pois é mais fácil, para eles, imaginar um cenário de conquista de outro planeta – o que convenhamos, é a concepção de conquista imperialista – do que parar com o câncer que é o capitalismo que é o grande responsável pela destruição dos ciclos da Terra.


  • A Autora

A Hisae Iwaoka nasceu em 17 de julho de 1976. Ela se formou em Belas Artes pela Universidade Joshibi e enquanto trabalhava em uma empresa de informática, enviava ilustrações e histórias curtas para diversas editoras japonesas, na esperança de chamar atenção e conseguir uma oportunidade de entrar no ramo dos mangás. Em 2002, ela vence o Prêmio da revista Afternoon (Kodansha) com a história “Yumenosoko“, que mais tarde (2005), viria a ser lançado como volume único. A autora, no começo da carreira, trabalhou principalmente com obras curtas, como “Shiroi Kumo” (2005, Ikki/Shogakukan), “Hana Bolo” (2005, Ikki/Shogakukan) e “Oto no Hako” (2006, BETH/Kodansha). O ponto de virada na carreira da autora vem justamente com “saturn apartments” que segue sendo a maior obra da autora (em extensão) até hoje e o maior sucesso dela.

Capas japonesas de “Yumenosoko“, “Shiroi Kumo” e “Hana Bolo

Embora ela seja muito conhecida pelos seus Seinens, a autora já publicou alguns Joseis como o já mencionado “Oto no Hako”. O fato é que, após ler este primeiro volume de “saturn” eu fiquei genuinamente curioso para ler algum mangá de demografia feminina da Hisae Iwaoka. Atualmente, ela publica “Kichijitsu Goyomi” na FEEL YOUNG, da editora Shodensha. “Kichijitsu” começou a ser publicado em 2017, conta com 3 volumes lançados no Japão e é sobre uma organizadora de casamentos e as histórias das pessoas que ela atende.

Capas japonesas dos volumes #1 e #2 de “Kichijitsu Goyomi

  • A edição nacional

saturn apartments” é publicado no Brasil pela Devir no formato 12,6 x 19 cm, com capa cartonada e papel Offwhite. O volume #1 tem 194 páginas, nenhuma colorida. O preço de capa é de R$ 40,00 nos 3 primeiros volumes e R$ 44,00 a partir do 4º tomo da série. A tradução é do Arnaldo Oka. Assim que possível, colocaremos o vídeo mostrando a edição nacional 🙂

Queria dizer aqui que a Devir errou na escrita do nome da autora, Hisae Iwaoka, na capa do primeiro volume do mangá. Eles escreveram “Hisae Iwaki” e de primeiro momento, até cogitei que poderia ser uma grafia diferente ou outro pseudônimo da autora, mas não era o caso não, tanto que o nome dela foi corrigido nas capas dos volumes seguintes.


  • Conclusão

Apesar de achar que as críticas sociais poderiam ser feitas de forma mais contundentes, o que a Hisae Iwaoka faz nesse volume introdutório é bem interessante, com mistos de sentimentos bem diversos, como alegria/riso e de genuína emoção. Não é aquela emoção para chorar propriamente, mas um emotivo por ela conseguir cenas e situações muito bonitas de se ver. É uma sociedade profundamente estratificada, mas que ainda assim, as pessoas ajudam entre si – principalmente entre os mais pobres – e tem uma boniteza nesse senso.

Fiquei curioso para saer os rumos que a série vai levar e esperopoder continuar lendo no futuro (e torcer para a Devir terminar a publicação até ano que vem, rs). Recomendo a leitura! ^^


  • Ficha Técnica
  • Título original: Dosei Mansion (土星マンション)
  • Título nacional: saturn apartments
  • Autora: Hisae Iwaoka
  • Serialização no Japão: Ikki
  • Editora japonesa: Shogakukan
  • Editora nacional: Devir
  • Quantidade de volumes: Completo com 7 volumes
  • Formato: 12,6 x 19 cm; capa cartonada brilho
  • Preço de capa: R$ 40,00 (volumes 1 a 3)/ R$ 44,00 (a partir do 4º)
  • Tradução: Arnaldo Oka
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