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Memórias, às vezes, podem ser bem enganosas…

Dias atrás, lançamos a resenha do primeiro volume de “Strobe Edge”, o primeiro grande sucesso da carreira da Io Sakisaka e obra responsável pela consolidação da mangaka como uma das mais importantes da Bessatsu Margaret. Hoje, voltamos para a autora para falar do 1º volume de “AohaRaido – A Primavera de Nossas Vidas”, o sucesso subsequente da autora, e dando continuidade ao nosso pequeno especial para o Dia dos Namorados Internacional!

AohaRaido – A Primavera de Nossas Vidas” foi publicado no Japão entre Janeiro de 2011 e Fevereiro de 2015 sob o título “Ao Haru Ride” (アオハライド). A série foi lançada na Bessatsu Margaret da editora Shueisha e foi completa em 13 volumes, acumulando mais de 6 milhões de cópias vendidas na sua publicação. Em 2014, foi ao ar a adaptação animada em 12 episódios + OVA produzida pela Production I.G. Ainda em 2014, a obra teve uma adaptação em filme live-action, ganhando uma nova versão em formato de série em 2 temporadas entre 2023 e 2024 (14 episódios ao todo). No Brasil, a obra foi publicada pela Panini entre Março de 2015 e Março de 2017, permanecendo esgotado por muitos anos – mesmo com os frequentes pedidos de reimpressão -, até que a Panini reimprimiu todos os volumes e lançou uma versão da série na Caixa – Coleção Completa, uma espécie de box com todos os volumes da obra. Infelizmente, não consegui comprar um volume da edição brasileira, mas tenho o 1º volume da edição francesa (Kana) e por ele que faço essa resenha.

Sinopse:Yoshioka Futaba tem uma boa aparência, mas sua timidez a tornava muito fofa perante os meninos, sendo por isso isolada pelas meninas no ensino fundamental; além disso, um mal-entendido e problemas familiares a impediram de se confessar ao garoto que gostava, Tanaka-kun. No Colegial, ela resolveu se esforçar para ser menos feminina, para fazer novas amigas. Satisfeita ao viver sua vida dessa maneira, ela reencontra o Tanaka-kun, mas agora ele está sob o nome de Mabuchi Kou. Ele revela que seus sentimentos eram mútuos, mas que ficou tudo no passado.


  • História e Desenvolvimento

Antes de começar a resenha em si, preciso dizer que “AohaRaido” foi a primeira obra da Io Sakisaka que tive contato. Não foi um contato pelo mangá propriamente, pois na época que comecei a comprar mangás (meio de 2017) a obra já era esgotada e daqueles casos de “raridades do mercado” que eram beeeeem comuns em se tratando do catálogo da Panini. O contato se deu pelo anime, lá em meados de 2017, ano que comecei a assistir animes – sabendo o que era um anime – e via muitos. Lembro de ter sido um anime que adorei, mas isso não serve de muito critério, porque eu via muita coisa naquela época e não refletia muito a respeito, então não considerava qualidade de roteiro, direção, personagens, ou seja, era bem acrítico (não à toa, tenho um certo receio de rever vários animes que vi naquela época, com medo de “”estragar”” as boas memórias que tenho). Porém, “AohaRaido” estava em uma época em que o arquétipo de protagonista masculino que era muito popular era aquele mais frio e distante, que de certa forma é indiferente à protagonista OU grosseiro com ela. Teve uma chuva dessas obras até meados dos anos 2010 (Suki tte Ii na yo. (2012); um pouco “My Little Monster” (2012), se bem me lembro; Ookami Shoujo to Kuro Ouji (2014)) e na minha cabeça, AohaRaido também tinha esse tipo de personagem masculino… mas será que era isso mesmo?

* … Tanaka, da classe ao lado… é diferente. O Tanaka é pequeno. Ele não tem uma voz grave. Diria, um pouco, como uma garota. Ele tem um lado puro. *
* Quando nossos olhos se cruzam… a cada vez… nós desviamos os olhos… e em seguida… nós nos olhamos de novo *

AohaRaido vai tratar da história da Futaba, uma garota com horror a garotos. Ela acha eles um bando de ignorantes, grosseiros, violentos e atrozes (e ela não está errada), sendo completamente aversa aos rapazes. A única exceção a essa regra, é o Kou Tanaka, da classe ao lado, que ela enxerga de maneira diferenciada por algumas características, incluindo pelo lado de considerar ele um pouco afeminado, o que me fez rir, já que ela foi a precursora do movimento de mulheres a fim de ~homens açucarados~, rs, uma diva. A época dos primeiros contatos entre os dois e que de certa forma, é o prólogo da história, ambos estavam no final do que seria o nosso Fundamental II. E eu gosto muito desse prólogo! A Io Sakisaka consegue passar uma doçura muito grande na relação que vai se construindo entre eles, por coisas bem pequenas, como pequenas conversas e trocas de olhares. E o que ajuda nisso é, sobretudo, o Kou, que a Futaba está certíssima em ter interesse, pois ele é um fofo! Muito bonitinho e muito adorável, seja na sua expressão, como no modo de se comportar e maneira de se aproximar da Futaba – que combina muito com o jeitinho dela – em pouquíssimas páginas (coisa de 30 páginas para menos), a Io Sakisaka já consegue estabelecer e te convencer que existe um romance ali e o melhor, é muito fácil de comprar, pelo carisma dos personagens naquele ponto!

É num dia, que ele combina de se encontrarem durante a festa veranil. As coisas iam se encaminhando bem, até que no dia fatídico, o Kou não aparece e ela acredita que foi por um desentendimento ocorrido mais cedo, o porém vem após o fim das férias de verão, quando ao voltar para a escola, ela descobre que o Kou mudou de escola e foi embora. Terminando, assim, o primeiro amor da nossa querida protagonista.

* Quando será? Eu não o verei mais? Eu amava o Tanaka. Era um amor nebuloso, ao qual eu avançava tateando… mas eu o amava. *

No último ano do Fundamental II, a Futaba passou por algumas mudanças… antes ela era amiga de muitas garotas, mas essas passaram a vê-la como vazia, isso porque os garotos se interessavam por ela – mesmo ela tendo horror a eles – o que instigavam sentimentos invejosos nas supostas amigas e a fez ficar sozinha. Como uma pessoa que se sente muita insegura em estar sozinha e não lida bem com o sentimento de solidão, para tentar resolver essas duas questões, ela muda o jeito dela, passa a agir de forma que os garotos não prestem atenção nela – se comportando quase como uma ogra – e se aproximando de duas garotas – Asumi e Kie (ou “Chie”, não sei como a Panini adaptou) – que não são exatamente as melhores pessoas para se chamar de “amigas”.

Na mesma classe que ela, ainda temos a Makita, uma garota que foi isolada pelo mesmo motivo que a Futaba foi isolada quando era mais novas: os garotos acham ela fofinha, ~tão pequenininha~, o que atrai a raiva das garotas, fazendo com que a garota fique sem ter com quem contar, já que as meninas não falam com ela e os meninos não são próximos o suficiente para a considerar como amiga. A Futaba não destrata a garota, fala uma ou outra palavra para não fazer desfeita e nisso, acaba percebendo que ela é uma garota lega e que, infelizmente, acabou sendo isolada de todos injustamente. Essa personagem vai ser importante para que a Futaba deseje mudar novamente e voltar a ser mais autêntica, sem se importar (muito) com o julgamente que terceiros vão ter dela.

* … eu a acho fofa *
– Quando a olhamos bem, ela não tão bonita.
– Com certeza é a aura que ela emana.
* Mas eu… eu sei o que se esconde… por trás das palavras delas. ‘Futaba? Ela não é tão bonita quanto dizem, não é?’, ‘Os garotos são idiotas. Então eles gostam de garotas calmas como ela’, ‘Não precisamos ficar com ela…’, ‘Os garotos vão cuidar disso, né?’ *

É nesse último ano que, andando na escola, ela esbarra com uma figura que lhe parece familiar… essa figura se chama Mabuchi, um garoto que muito se assemelha ao Tanaka, mas que é mais alto, tem a voz mais grave, além de outro nome… essa sensação de familiaridade e ao mesmo tempo, de estranheza, fica na cabeça da Futaba, até que ao segui-lo, ele decide mostrar que é quem ela de fato conhece. Ocorre que naquela época, os país dele se divorciaram e ele precisou mudar de nome. O Mabuchi parece se incomodar muito com esse passado associado ao nome Tanaka, já que toda vez que a Futaba o chama pelo antigo nome por reflexo, ele corrige dizendo que ele se chama Mabushi. Neste mesmo encontro, a Futaba até comenta que era apaixonada por ele, o que ele quase que prontamente responde que é uma história do passado e que não pode voltar a ser como era anteriormente.

Gosto da dicotomia que existe nessa relação de nomes, porque o “Mabuchi” não é quem a Futaba conhece, muito diferente do “Tanaka” por quem ela já se apaixonou no passado. Da mesma forma, o Mabuchi não quer se lembrar ou se associar ao passado Tanaka – que ele age praticamente como se tivesse enterrado esse “eu” dele. E além disso, renunciar ao Tanaka seria abrir mão daquilo que a Futaba conhece e ela tem certa relutância com esse abandono e eventual recomeço.

– Mas nós não podemos voltar a ser como éramos antes. Porque eu mudei depois desse período. Você também. Isso quer dizer que é realmente uma história do passado.
* Eu acho… que ele quer me dizer para esquecer tudo isso. *
– Não chore. Idiota. Até mais!
* Mas… apesar das suas palavras… ele me dá a impressão… *

Apesar dessa rejeição tardia, a Futaba ainda tenda algumas aproximações com o (ex-)amigo, o que não dá exatamente certo, porque a Futaba ainda quer enxergar o Tanaka e a Futaba, acaba achando ele mais grosseiro (eu diria que ele é mais direto) e até joga na cara que ela só está “brincando de ser amiga” da Asumi e da Kie e, apesar dela ficar furiosa com esse nojo jeito dele, essa fala será importante para que ela decida tomar uma nova atividade em relação a essas duas.

Aos trancos e barrancos, os dois começam a se entender em algum ponto. Tem uma cena muito bonitinha da Futaba com vontade de chorar e, percebendo que ela não queria aparecer dessa forma na frente de todo mundo, ele aproxima ela do peito dele – uma cena que é bem lembrada pelos fãs da obra e da animação. É a partir desse momento que ela decide por chamá-lo de “Kou”, seu primeiro nome. Se o Tanaka que ela conhecia não existe mais e o Mabuchi é um estranho aos seus olhos, Kou é algo que lhe é familiar e diferente ao mesmo tempo, o que representa bem essa nova fase da vida do garoto.

– AAAAH!! Você ainda tá aí?
* Tem gente vindo por ali também… *

Como eu comentei lá em cima, eu achei que o Kou estava dentro do arquétipo do “garoto problemático” e na verdade, não. Ele só é complexo mesmo. Desenhado muito bem pela Io Sakisaka, vale dizer. Tem claramente algo no passado dele que o deixa profundamente ressentido, especialmente no que poderia ter sido da relação dele com a Futaba e não foi e que ele também acha que não pode ser mais. Bem como na relação – que ele evita ter – com o irmão mais velho e professor na escola que eles estudam.

É claro: eu li um volume de treze. Ainda tem um chãozinho até o Kou e a Tachibana ficarem juntos – e lembro de termos idas e vindas -, então ainda tem uns bons volumes que o personagem pode se demonstrar como escroto, mas assim, avaliando pura e exclusivamente o que li aqui, achei o personagem muito mais interessante do que me lembrava do anime, o que eu já considero uma vitória muito pessoal. Anseio pelo dia que voltarei a ter salário e poder comprar alguns mangás ocasionalmente…

– Hein?
– Naquele dia, no Parque Sankaku… você me esperou?
– Sim, eu te esperei.

No fim volume, temos os personagens entrando para o Ensino Médio, com o Kou e a Futaba agora estando na mesma classe. Além da Makita na mesma turma, ainda tivemos a menção de outros personagens que vão ser importantes nos desdobramentos dos próximos volumes: a Murao e o Kominato. E ainda deve ter mais um personagem para fechar o elenco principal.


Hoje em dia, o público mais novo não tem noção, mas a Io Sakisaka já foi um completo FENÔMENO, um monumento! Embora “Strobe Edge” ainda hoje seja a obra da autora que mais vendeu cópias no Japão, no Ocidente, o trabalho mais popular dela, que fez a popularidade dela explodir de fato, foi AohaRaido. Na França, o mangá é até hoje o Shoujo mais vendido da editora, com mais de 200 mil cópias vendidas (13 volumes) e no Brasil, a obra durante uns anos foi considerada como a “salvadora do Shoujo no Brasil”, pois o mercado vinha de uma série de lançamentos frustrados (e como sempre, culpando as obras, ao mesmo tempo que a editora fugia da responsabilidade) e AohaRaido foi um completo sucesso, incentivando a vinda de mais Shoujos na editora (ainda que sendo destratados).

Eu já comentei isso na resenha de “Strobe”, mas a Io Sakisaka é genial! Não só por estar usando a mesma base narrativa há quase 20 anos em todas as suas obras e conseguir manter esse ar de novidade ou de frescor, mas também porque ela é excelente em fazer esse tipo de narrativa. Existe um “jeito” Io Sakisaka de fazer romance que é próprio da mangaka. Não tem quem conte esse tipo de narrativa como ela e melhor que ela. O sucesso de uma narrativa pode ser mais relativo, ela as vezes tropeça no caminho, é verdade, mas não dá para negar que ela é sempre muito convincente nos seus volumes 1, eu fico genuinamente chocado (e feliz) com o quão boa ela (não que eu duvidasse disso).


  • A edição francesa

“AohaRaido” foi publicado na França pela Kana sob o título “Blue Spring Ride“. O mangá saiu no formato 11,5 x 15,7 cm, com capa cartonada e sobrecapa. O papel nas edições francesas raramente é especificado, mas é semelhante aos cremes que temos por aqui(pólen e afins). O mangá é atualmente disponibilizado ao preço de 7,30 € (cerca de R$ 45,10, na cotação de 14/02/26). A tradução é de Misato Raillard. Em breve, publicaremos o vídeo mostrando a edição francesa em detalhes.

Quanto à edição nacional, embora eu não a possua em mãos e já seja um título lançado no Brasil há mais de 10 anos, queria dizer que não gosto da adaptação do título para “AohaRaido”. É uma contração super esquisita do original, que sinceramente, poderia ter sido mantida, já que “AohaRaido” por si só não quer dizer nada também.


  • Conclusão

Acabei gostando desse primeiro volume de “AohaRaido”, bem mais do que pensei que gostaria, ao ponto de querer continuar com a série quando tiver condições/puder. A leitura desse volume reafirma meu pensamento quando à destreza e domínio (“maîtrise”, como diriam os franceses) da mangaka. No fim das contas, recomendo bastante!

Nos vemos em breve para outra(s) recomendações ainda em Fevereiro, pois ainda resta uma resenha + um post de apresentação ^^


  • Ficha Ténica
  • Título original: Ao Haru Ride (アオハライド)
  • Título francês: Blue Spring Ride
  • Autora: Io Sakisaka
  • Serialização no Japão: Bessatsu Margaret
  • Editora japonesa: Shueisha
  • Editora francesa: Kana
  • Quantidade de volumes: Completo com 13 volumes
  • Formato: 13,7 x 20 cm; capa cartonada com sobrecapa
  • Preço de capa: 7,30 €
  • Tradução: Misato Raillard