Nas indecisões e medos típicos da adolescência, Tsubasa Yamaguchi mostra a que veio

“Blue Period” (ブルーピリオド) foi uma das obras de destaque de 2021 graças a sua adaptação em anime, exibida entre 2 de outubro de 18 de dezembro, com produção do estúdio Seven Arcs e distribuição feita pela Netflix. A animação teve um total de 12 episódios. O mangá original é escrito e ilustrado por Tsubasa Yamaguchi (mesma autora de “Ela e o seu Gato“, lançado no Brasil pela NewPOP). A obra está em publicação no Japão desde junho de 2017 na revista Afternoon da editora Kodansha e conta com 12 volumes lançados atualmente. O mangá foi vencedor de diversos prêmios como 13º Manga Taisho Awards em 2020 e o Kodansha Manga Awards na Categoria Geral em 2020. Além disso, foi indicado ao Manga Taisho Awards em 2019, ao Kodansha Manga Awards em 2019 e ao 24º Prêmio Cultural Tezuka Osamu em 2020.

No Brasil, o mangá foi anunciado pela Panini durante a CCXP de 2021. O lançamento da obra ocorreu no mês de maio de 2022 e está em publicação desde então em periodicidade mensal. Adquiri o volume 1 logo após o lançamento, porém só o peguei para ler em outubro. E agora, venho compartilhar minhas impressões desse volume ^^.

Sinopse: “Excelentes notas e sociável. Por que esse estudante colegial popular que ama beber, fumar e sair à noite e parecia estar satisfeito com sua vida despertou para a alegria de pintar? A história de um jovem vestibulando que está dando tudo de si para entrar na Universidade de Artes começa aqui!”


  • História e Desenvolvimento

Quando o anime de “Blue Period” estreou na Netflix, eu estava em mais um dos meus períodos depressivos ao qual não tenho vontade de fazer quase nada, o que resultou em acabar não vendo o anime. No entanto, apesar disso, acho que no fim das contas foi algo bom, pois um ano depois, fui direto na fonte e ver do que se tratava. Amigos falaram que a adaptação em anime peca em transmitir sentimentos e sensações dos personagens, bem como corta ou acelera momentos importantes da trama. Eu verei o anime algum dia, mas fato é que o mangá é excepcional e está no meu TOP dos melhores lançamentos de mangás deste ano. A sinopse da obra descrita na loja da Panini (a que coloquei acima) não transmite 1/10 do que é Blue Period, da sua intensidade, complexidade, do quão profundo e tocante o mangá consegue ser ao longo de suas pouco mais de 200 páginas.

No começo do mangá, estamos quase no período final da vida escolar do Yatora, um estudante delinquente e exemplar (isso é muito importante) que está no 2º ano daquilo que seria o nosso Ensino Médio. Essa etapa final do ensino tende a ser truculenta, pois além dos eventuais problemas que surgem junto à adolescência, é o período que você começa a sofrer mais pressão para trilhar um caminho em destino ao seu futuro e é nesse cenário que a Tsubasa Yamaguchi explora seus personagens e o contexto por de trás de cada um.

O Yatora (personagem principal), à primeira vista, parece aquele personagem inconsequente. Ele fuma, bebe, sai e volta só de madrugada. Porém ele é muito mais do que essa superfície. Tem mais de um momento no mangá que os alunos o veem, pensam que é um delinquente por causa dos piercings e do cabelo descolorido, mas logo mostra ser esforçado, bom nos estudos e está ali entre os melhores alunos da turma, mudando a impressão das outras pessoas. O Yatora quer tentar abraçar e agradar a todos. Ele fuma, bebe e sai com os amigos até tarde, não só porque gosta, mas vai além disso. Ele quer se enturmar e fazer de fato parte daquele grupo. Não é que ele goste ou desgoste de fumar ou de seus amigos. É a sensação de agradar. O mesmo vale para os estudos. Seus esforços estão além de algo para si. Ele quer atender aquilo que seus pais esperam dele. O que o protagonista faz está sempre envolvendo terceiros. Essa abordagem é interessante nesse contexto, pois a autora traz a discussão do que o deixa preenchido? O que te satisfaz? Além de que essa situação é muito boa para tratar sobre as pessoas que são mais do que aparentam, os prejulgamentos, ou os preconceitos que fazemos das pessoas, não as representam na totalidade. Há um contexto e sentimentos que não são expressos, junto com camadas a serem consideradas.

Em uma passagem muito boa, o Yatora fala para si mesmo que sempre que alguém o elogiava por algo, se sentia vazio, como se faltasse algo. E quando passa na frente da sala do clube de arte, ele vê um quadro que transborda os sentimentos, e aquilo mexe com ele. Durante a aula de arte é passada uma atividade que ele realmente se entrega, deposita sentimentos e na avaliação, quando é elogiado, ele se sente feliz de verdade. Isso porque, diferente de outras situações, ele fez aquilo pensando no que estava sentindo e conseguiu extravasar esses sentimentos, o que não só trouxe satisfação pessoal, como a sensação de estar preenchido e empolgado por algo. Entretanto, mesmo ele gostando daquele sentimento e do fascínio por trás da arte, tenta se convencer de que não está adorando a situação. Passamos boa parte dos capítulos 1 e 2 vendo suas reflexões e com ele não querendo aceitar que está interessado na arte, sobretudo porque “não há garantias de futuro” para aqueles que seguem esse caminho. Viver da arte no Japão é complicado. O Yatora, antes de mais nada, quer agradar seus pais que desejam o melhor para ele. Ele precisa se preocupar em escolher uma universidade que não seja cara e um curso que vá lhe garantir “um futuro” na visão dos seus pais. Temos diversos diálogos em que ele praticamente conversa conosco por meio de uma introspecção em que busca argumentos e fatores pelos quais o próprio personagem não deveria seguir aquele caminho e que poderia continuar desenhando, mas como um hobby. Muito interessante, profundo e significativo.

É legal o momento da vida dos personagens que a autora decidiu partir com a história. Como eu disse, essa parte do final do ensino médio tende a ser muito conturbada, porque é a afase que se tem muita pressão para você decidir o que vai fazer da sua vida, qual caminho você vai querer trilhar, se vai trabalhar, se vai fazer universidade, e por aí vai. No entanto, não são todos que têm bem definido aquilo que querem fazer ou que pelo menos tenham algum indicativo disso. Quando comentei sobre o assunto no Twitter do blog, gerou uma série de conversas e relatos de diferentes pessoas com suas experiências. Fato é que 17-18 anos é muito cedo para se ter em mente, de forma clara, aquilo que você quer fazer. O X da questão acaba sendo justamente a obrigação por de traz disso. Especificamente no Brasil, que é onde podemos ter uma base melhor para comparar, há toda uma estrutura que faz você crer que aquele é o caminho a ser seguido e que não pode falhar. Você não sabe se vai dar certo, se vai conseguir a nota necessária para o curso, se conseguirá entrar na instituição que deseja… e ainda se cria um ilusório, um temor de que se você não conseguir naquele momento, acabou para você. E para além disso, ainda há toda uma associação de que a universidade é um sinônimo de sucesso, como se qualquer outro caminho fosse errado ou menos prestigioso ou inseguro financeiramente. Isso independente do real desejo da pessoa.

Quando os amigos do Yatora começam a pensar sobre o que irão fazer após terminarem o colégio, um deles comenta que só estava estudando para passar no vestibular por medo do que o futuro lhe reserva, sendo essa a cena que gerou a conversa no Twitter. Pode parecer algo bem simples, mas me pega como um tapa, porque o medo do futuro é algo que me afeta demais. Quando decidi que tinha certeza sobre o que iria fazer, foi quando eu estava no 7° ano do Fundamental II e as aulas de ciências abordavam sobre os reinos dos animais e plantas. Aquilo me deu um “click” sobre a magnitude e variedade de seres que temos no planeta e fez eu me apaixonar por biologia. No final do 3° ano do EM (2019), me vieram receios, mas até aquele ponto, ainda estava tudo bem. No ano seguinte, em 2020, quando eu ia começar a ter aulas na universidade para valer, veio a pandemia e fiquei mais de 2 anos sem ter aulas. Somado ao desgoverno atual, toda e qualquer certeza que eu tinha para o meu futuro foi para o ralo. Mesmo agora que eu voltei a ter aulas, ainda não consigo ter perspectiva de futuro e tenho medo de que ao chegar lá na frente, eu não vou estar satisfeito ou pior, não vou conseguir chegar aonde quero. Isso é bem aterrorizante. Acho legal ver um mangá falando sobre esses temas que são comuns a diferentes sociedades. Penso que muitas vezes, passamos por problemas que não temos dimensão da totalidade ou que não conseguimos expressar exatamente e eu acabo me entendendo com essas leituras. Mangás, por vezes, ajudam a me compreender melhor como sou, como me sinto, pelo que eu passo ou pelo que os outros passam, e isso é muito importante para mim.


Após a decisão do Yatora de que ele vai tentar passar na universidade para fazer artes, passamos a realmente adentrar nesse universo artístico e que parte deliciosa. O mangá em si é uma delícia, mas eu gosto particularmente de como a autora explora a arte na obra e como introduz conceitos, bases teóricas, materiais, etc. Creio que além de dar um contexto para as pessoas que são leigas no assunto, a autora tenta fazer mais pessoas se interessarem pela área. É muito rica a construção desse começo do aprendizado do Yatora, porque ele não sabe de quase nada, seja dos materiais ou das técnicas utilizadas. E como a autora parte desse ponto de que o Yatora desconhece tudo, os leitores do mangá vão aprendendo junto com sobre sua perspectiva, das técnicas mais utilizadas para o desenho, dar tridimensionalidade, iluminação, distância… Tudo bastante detalhado e de uma forma precisa. É sintetizado, mas bem ilustrado para quem está lendo, do que está sendo falado ao protagonista. O Yatora começa com aquarela e desenhando a lápis, mas ao longo do volume vemos diferentes técnicas de pintura e desenho, cada uma com um objetivo diferente. Temos pintura a óleo e com carvão. Vemos um pouquinho de escultura e cada uma com suas especificidades.

Eu gostava (e ainda gosto) de desenhar. Fazia desenhos olhando uma ilustração e tentando replicar. Foi assim que fui aprendendo. Eu parei de desenhar por falta de tempo e também a minha disposição sumiu (relacionado aos meus problemas depressivos). Recentemente por causa de algumas atividades da universidade, voltei a praticar um pouco. Lendo Blue Period, deu até vontade de aprender mais sobre desenho e pintura, especialmente com aquarela que é um material que gosto de utilizar. Se a intenção da autora for realmente tentar puxar mais pessoas a se interessarem por arte, pelo menos para mim, acabou funcionando ^^.

Alguns desenhos meus. Os dois primeiros foram feitos quando eu estava no Ensino Médio (entre 2018 e 2019). E os dois últimos foram feitos nesse ano, o ciclo hidrológico para a aula de Biologia Geral, enquanto o de “MAPV!” foi para praticar 🙂

Neste encadernado, a autora também traz uma discussão bacana sobre como queremos alcançar resultados muito rápidos e de como somos esmagados por nossas pressões em razão disso. O Yatora começou a desenhar de fato no período inicial do mangá. Ao final do volume, faz cerca de 6 meses desde que ele pegou para treinar para valer e em determinados momentos do volume, ele se diminui, se sente inferior ou mesmo decepcionado com seus resultados. E quem nunca, né? Estamos começando a fazer algo, mas queremos resultados logo e mesmo quando caminhamos bem, progredimos rápido, não está bom visto que você quer estar no patamar que X e Y estão. Comecei a fazer francês em agosto de 2021 e por diversas vezes me senti frustrado por achar que não sei nada, mesmo conseguindo ler e escrever (com dificuldade). Faz parte do processo. Não sabemos de tudo e não aprenderemos com absoluta facilidade. Precisa e leva tempo. Colocamos cobrança em cima de nós mesmos e é importante a autora explorar esse aspecto. Novamente, a Tsubasa Yamaguchi traz discussões de pressão social, familiar e cobranças internas que são pertinentes, e que estamos sempre sujeitos a vivenciar.

Continue tentando!!!

Dos personagens, temos um leque MUITO interessante. A autora demarca para os que são secundários, características que os tornam bem palatáveis. Até aqueles que tem um mínimo de atenção no volume a autora tem um cuidado de os diferenciar, de atribuir personalidade, de mostrar ao menos um pouco sobre eles, os tornando tão “especiais” a sua maneira. É difícil de expressar e é mais como sentir isso.

Dentre os personagens, meus destaques vão para o Yatora, que é um protagonista excelente! Ele tem um pouco da energia de pessoa equivocada, mas é gracioso e uma fofura quando está emocionado, como quando ficou emocionado e chorou por causa do elogio para sua pintura e por ter conseguido se expressar quando fez aquela pintura. É um personagem que quando fica determinado, me soa como inspirador. Realmente me dá a sensação de que ele diria: “Não, levanta a cabeça e vamos lá!”, de tentar de novo, sendo persistente com aquilo que queremos. E além disso, tem passagens com ele as quais me identifico, o que ajuda a gostar mais do personagem.

E me outro destaque vai para a maravilhosa Yuka. Desde a primeira aparição da personagem, ela já me despertou interesse. Acho ela uma personagem bem decidida sobre o que deseja e confiante à primeira vista. Gosto que ela serve como contraponto ao Yatora, ao mesmo tempo que ocasionalmente está ali como um apoio, uma ajuda para ele. Gosto bastante da dinâmica entre os dois, especialmente porque um perde a compostura quando se trata do outro. O que me atrai ainda mais na personagem é que logo no começo do 1º volume, é dito que é um crossdresser e o Yatora, para irritar, chama de “Ryuuji-kun”. É evidenciado que a Yuka não gosta de ser chamada pelo nome, e especialmente pelo tratamento masculino. Ela fala que é para ser chamada de Yuka. Então abre-se aí um leque de possibilidade quanto à personagem e quero muito ver o que a autora está preparando para ela.

Dois lindos, maravilhosos e perfeitos!!!

E acho que vale menção no Yotasuke Takahashi, um personagem que aparece no final do volume e que desperta o interesse do Yatora. Acho que ainda irá render bastante e estou animado com ele por seu ar um pouco misterioso, eu diria 🙂


  • Arte

Eu já achava a arte colorida da Tsubasa Yamaguchi deslumbrante desde “Ela e o seu Gato” (que até hoje não tomei vergonha na cara para comprar). O estilo de pintura dela me agrada e ainda mais incrível que ela faz as artes coloridas à mão (há vídeos no Twitter dela pintando artes para as capas de “Blue Period”). Sempre aprecio técnicas tradicionais com arte manual. Mas enfim, o desenho interno não fica nem um pouco atrás, além da arte de quadros maiores, ocupando páginas inteiras ou as páginas duplas. A autora usa MUITO BEM a iluminação. Ela cria ótimos ambientes com o uso das retículas. Como o mangá tem bastante texto, a autora sabe usar o espaço dentro das páginas e além disso, seus designs de personagens são lindos demais, como deu para ver pelas fotos que coloquei até o momento. Aprecio que a autora também convida diversos artistas que conhece para fazer artes para o que seria de cada personagem. É bem bacana, porque realmente cria uma variedade e diversidade entre as artes da edição, pois o mangá tem diversos momentos de comparação entre os resultados de cada aluno.


  • A Edição Nacional

“Blue Period” está sendo lançado pela Panini no formato 13,7 x 20 cm. Tem capa cartonada com verniz localizado no título, número do volume e nome da autora. Possui entre 190 e 230 páginas por volume impressas no papel Offwhite 66g. As páginas coloridas são impressas em papel Couché. O volume 1 teve marca página de brinde. Até o presente momento, a Panini lançou 6 volumes e está com 9 tomos em pré-venda. Abaixo vocês podem ver o vídeo mostrando a edição nacional da obra em detalhes:

Agora, partindo para as considerações sobre a edição, o material e acabamento estão ótimos de maneira geral. Gostei muito do verniz, da escolha da capa fosca que combina com o estilo de arte da autora e a transparência é pouca, com exceção de páginas que tem “fundo branco”, que aí aparece o que tem atrás (ou até da outra folha). Eu não gosto tanto da tipografia. Não é feia, porém me dá toc. O “ue” de “Blue” e “iod” de “Period” estão com uma leve elevação em comparação as outras letras. Eu vou acreditar (repito para mim mesmo) que é conceito, que a arte causa incômodo e que esse é o objetivo.

O texto está ótimo. Revisão e adaptação também (com exceção do uso de honoríficos) e não há glossário pelo menos nesse volume, embora os termos técnicos e nomes dos artistas das obras estejam em notas de rodapé ao longo do encadernado. Os honoríficos ficam sem qualquer tipo de explicação. Pode ser usual ouvir em animes, no entanto é sempre importante contar com pessoas que podem chegar até a obra e não fazer ideia do que se tratam aqueles termos.


  • Conclusão

Blue Period foi uma leitura que me surpreendeu. Sabia que se tratava de uma obra ótima, no entanto, acabei sendo pego mais do que achei que seria. Fui envolvido com essa história, texto e personagens maravilhosos! Fiquei muito fissurado na obra. Estou ansioso para os próximos volumes e já até os encomendei com o Capitão Onigiri. Estou até cogitando comprar o coffret (box) com os 3 primeiros volumes da edição francesa do mangá. Verei ainda o que faço e não estranhem se eu fizer mais resenhas dos próximos volumes do mangá.

Estou muito animado para o desenrolar da história, com o desenvolvimento dos personagens, sobretudo da Yuka e do que mais a Tsubasa Yamaguchi irá nos propor de discussões e reflexões sobre aspectos pessoais, familiares e sociais! E antes que eu me esqueça, o extra no final do volume é uma graça <3

REI!!!

  • Ficha Técnica
  • Título original: Blue Period (ブルーピリオド)
  • Título nacional: Blue Period
  • Autora: Tsubasa Yamaguchi
  • Serialização no Japão: Afternoon
  • Editora japonesa: Kodansha
  • Editora nacional: Panini
  • Quantidade de volumes: Em andamento com 12 volume
  • Formato: 13,7 x 20 cm; capa cartonada com verniz localizado
  • Preço de capa: R$ 34,90
  • Compre em: Loja Panini/Amazon

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