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Já dá para cravar: é um dos grandes animes do ano!

Olá, pessoal! A Temporada de Inverno de 2026 começou (em 31 de dezembro de 2025, o que é um absurdo TREMENDO) e o blog já está escrevendo sobre as estreias dos animes! O @rubnesio está de volta ao blog, comentando alguns animes, a ala Shounen/Seinen, enquanto que eu, com atraso, comentarei algumas das estreias.

Aviso que estou trabalhando em um projeto de pesquisa, então pode ser que alguns dos posts de primeiras impressões que pretendo fazer atrasem deveras. Mas o que posso dizer é que não poderia ter começado a Temporada de Inverno com um anime melhor! Hoje inicio com grande estilo falando da absolutamente incrível estreia de “Ikoku Nikki”, baseado no mangá Josei da Tomoko Yamashita!

Sinopse: “A reclusa escritora Makio Koudai sempre preferiu a companhia dos livros, mas quando sua irmã e seu cunhado falecem, Makio inesperadamente se torna a guardiã de sua sobrinha de 15 anos, Asa Takumi. Enquanto lidam com o luto, personalidades conflitantes e os desafios de conviver juntas, as duas lentamente abrem seus corações uma para a outra, descobrindo o carinho, a compreensão e o significado de família.”


Talvez não conheçam ou possam não ter ligado os nomes, mas a Tomoko Yamashita ganhou projeção no ocidente quando a adaptação em anime de “Sankaku Mado no Sotogawa wa Yoru” foi ao ar lá no final de 2021 (no Brasil, o mangá original chegou um tempo depois e foi publicado com o título “A Noite Além da Janela Triangular“). A autora já era conhecida, com uma carreira consolidada no Japão, mas aquela animação, embora super precária e aquém do original, foi um ponto de virada para a autora neste lado do mundo. Agora, mais 4 de anos depois, a autora está de volta com a adaptação em anime de “Ikoku Nikki”, obra que ela lançou na FEEL YOUNG da editora Shodensha.

Ikoku Nikki conta a história da Asa, uma jovem de 15 anos que acaba de perder os pais em um acidente de carro e que vai ser acolhida pela Makio, irmã da mãe da Asa e, portanto, tia da Asa. Essa é a premissa base, mas o anime tem muito mais camadas para se olhar e analisar. Eu “começo” esse post dizendo que a introdução do anime, antes da OP, é genial. O que temos é uma cena das duas personagens no futuro, quando a convivência delas já tem algum tempo, em que a Asa cozinha o café da manhã enquanto que a Makio está escrevendo (como de costume). A cena toda é repleta de humor e bom entrosamento entre as duas, porém a todo momento, a gente sabe, por expressões, pela maneira como interagem, ou mesmo por algumas hesitações, que, na verdade, aquelas duas são quase que completas estranhas uma para a outra, sendo evidente a sensação de quase desconforto ou de deslocamento, principalmente da Asa, que é por quem observamos os eventos na maior parte do episódio.

A Makio conheceu a Asa muitos anos atrás, quando ela ainda era criancinha. E desde então, sem contato, ao ponto de não saber o nome da sobrinha e da Asa não se lembrar dela. A relação da Makio com sua irmã, pelo visto, era péssima, pois a Makio diz com todas as letras que odiava a irmã, incluindo no velório (?), em uma cena um tanto tragicômica, comentando que esperava que a raiva e ódio pela irmã fosse embora quando ela morresse, o que infelizmente (para a protagonista), não aconteceu.

A Tomoko Yamashita é, ao mesmo tempo, crua e delicada na maneira como escreve essas duas personagens e a relação que possuem, sobretudo quando pensamos na Makio. Ela é introvertida, fechada, não sabe exatamente o que fazer diante da Asa ou o que falar para ela, tanto que por vezes, oferece comida quando não sabe o que dizer ou fazer. E nem mesmo esconde que não tem consideração alguma pela irmã (mãe da Asa) ou que não a quer por ali. Mas mesmo sem saber exatamente o que fazer com aquela criatura tão curiosa (Asa), ela não é como aqueles que se colocam na função de parentes e destratam a garota, a veem como estorvo e a colocam em situação vexatória, mesmo sendo apenas uma adolescente. E é isso que serve como força para acolhê-la. Se aqueles que deveriam estar por ela não estão, ela pelo menos vai se colocar nesse lugar de possibilidade: a Asa não precisa considerar, realmente, a Makio, mas ela vai ter um lar para chamar de seu, e não vai ser pisada, humilhada ou tratada como problema. Como a própria Makio colocou: ela merece ver coisas belas e, da mesma forma, merece ter as melhores coisas possíveis.

A Makio, por mais que não saiba o que fazer e de fato, olhe para a Asa com certa consideração (no campo dela ter perdido os pais jovem e tão de repente, mas não por alguma conexão por parentesco), tem um grau de identificação pelo fator de solidão, muitíssimo bem representado pela sensação de estar em um deserto (amplo e, ao mesmo tempo, sufocante), sem ninguém para contar e caminhando sempre sozinha. E, se antes elas precisavam caminhar sozinhas, coisa que a Makio se habituou a fazer, talvez descubram que esse trajeto não precisa ser feito, necessariamente, de forma solitária. Gosto da cena que a Makio olha para a Asa e fala que não precisa escrever sobre TUDO no diário (a transição das linhas do caderno em branco para o deserto é absolute cinema). Está tudo bem não contar sobre o que não quer ou até mesmo, mentir sobre o que escrever. A ideia mais pura é expressar sentimentos e se você sente obrigado a fazer aquilo, meio que o sentido real da ação se esvai junto. O que acredito que a obra deve explorar no ponto mais essencial é essa relação entre as duas que começa com esse estranhamento e deslocamento, mas que aos poucos vai se solidificando para algo mais consistente e profundo, até o ponto de poder chamar o que elas têm de uma amizade verdadeira e, quem sabe, de família.

O anime está belíssimo! O Shuka (mesmo estúdio de “Housekishou no Richard-shi“) que pega poucos animes anualmente e assim, consegue entregar trabalhos consistentes e bem acabados. Esperava algo bom da parte da animação. Quem dirige o anime no estúdio é o Miyuki Ooshiro, que tem uma vasta experiência como diretor de animação e diretor de episódios, até sendo diretor assistente em outras (poucas) ocasiões (anime de “Durarara”), mas que aqui, faz sua estreia na direção geral de um anime. É um trabalho que, em linhas gerais, é excelente. Desde a condução do episódio, mas também na composição das cenas e dos cenários. O ambiente da casa da Makio é RICO. Mesmo sendo apenas um episódio, é notório como estamos familiarizados com ambiente e até com a bagunça. O diretor também consegue expressar diversa coisas apenas com os olhares e as observações que a Asa faz. Nós vamos acompanhando o olhar, curioso, mas cauteloso, da personagem nos ambientes, enquanto que não é preciso dizer nada, pois vamos chegando nas mesmas conclusões que a protagonista. Do pouco que já tive contato com o trabalho da Tomoko Yamashita, é comum nas suas obras que a autora guie o público de forma que não precise escrever personagens falando obviedades (ou “”futilidades””). Ela leva o público a constatar essas coisas (tanto que ela monta os mangás de forma poética se for ver) sem ter um personagem nos contanto sobre o momento e a direção não só capta, como consegue transpor para a animação!

O Miyuki é uma figura bem regular dentro do Shuka, aparecendo em uma série de produções do estúdio nos últimos anos. Ele parece bem familiarizado e entrosado, não só com o estúdio em si, como com a própria obra que está adaptando, visto que a entrega final foi maravilhosa! É muito bom ver obras de demografia feminina (nesse caso, um Josei) recebendo adaptações tão bem feitas. O episódio de estreia foi lindo, estava quase chorando ao fim dele com tamanha sensibilidade na forma como retrata, monta e conta a sua história.

E antes de encerrar, queria dizer que a OP e ED (especialmente a ED) são muito gostosinhas de ouvir. Gostei bastante das duas!


Algum tempo atrás, comentei no Twitter/X e no BluSky do blog sobre como o ocidente, seja como público, como sites de noticias que produzem sobre o mercado japonês ou sobre as editoras que lançam as obras do país, dá menos crédito para a Shodensha do que deveria. A Shodensha é uma editora que foi fundada em 1970 e que vive exclusivamente de demografia feminina. Sendo uma editora pequena, é bem difícil que suas obras tenham adaptações animadas, mas quando conseguem fazer, são sempre produções bem feitas e que de fato respeitam o material que estão adaptando. Vocês podem se lembrar de, por exemplo, o filme de “Umibe no Étranger“, que foi lançado em 2020 com produção do estúdio Hibari (estúdio “mãe” da Lerche) ou do mais antigo, “Natsuyuki Rendezvous“, de 2012, feito pela DogaKobo (Oshi no Ko). E como pessoa que escreve para um site que cobre mercado japonês que AMA mangá feminino, e adora a editora e suas revistas (a FEEL YOUNG é uma das minhas favoritas), gostaria que a editora, e suas obras, fossem mais celebradas do que realmente são.

Algo que venho pensando há algum tempo…Muito se fala da Hakusensha como uma grande casa do mangá Shoujosei e tal, mas a gente (como Ocidente) dá muito menos crédito para a Shodensha do que deveria. É uma editora que vive pela demografia feminina. Eles publicam EXCLUSIVAMENTE mangás de público +

Lacradores Desintoxicados 🏳️‍🌈 (@ldesintoxicados.bsky.social) 2025-12-06T11:50:06.823Z

Que “Ikoku Nikki” siga entregando excelência e qualidade (e sei que assim seguirá), da mesma forma que desejo muito sucesso. Não deixem de assistir, pois é um dos grandes animes da temporada!

A feição e maneira como a Asa olha para as Makio quando está de costas, sempre contra a luz, talvez simbolizando ela como guia?!