Bora lá comentar sobre o terceiro anime dessa Temporada de Inverno, Majutsushi Kunon wa Mieteiru. E eu não esperava lá grandes coisas da obra, mas ela me passava uma vibe de Isekai Yakkyoku. Aquele anime do farmacêutico que, graças ao conhecimento da vida passada, conseguiu salvar vidas no novo mundo. Eu sabia que Majutsushi Kunon não era isekai ou tensei, ou qualquer outra vertente do tipo. E depois de ter assistido aos episódios iniciais, posso afirmar que não foi o que eu esperava exatamente, mas conseguiu ser melhor do que a sinopse dava a entender.
Sinopse (Crunchyroll): Kunon Gurion é um jovem cego que está tentando realizar um novo feito. Seu objetivo? Criar olhos usando magia da água.

Devo estar com algum azar ou praga, pois é o terceiro anime que estou comentando que teve uma estreia com dois episódios ao mesmo tempo. E ainda teve outro anime (Hana-Kimi), no dia 4 de janeiro, que também teve uma estreia dupla. Mano, antigamente era um ou dois animes que faziam essa ousadia de exibir mais de um episódio no lançamento. Atualmente, mais da metade da lista dos animes que estrearam até o dia 4 teve mais de um capítulo lançado em sua estreia. Particularmente, acho terrível. Esse sistema de lançamento, ou indo para outro extremo, lançar tudo ao mesmo tempo estilo Netflix, é tenebroso. A vontade de assistir ao anime some quando eu sei dessa informação para algo que estava interessado. A coisa boa de um anime é ter uma duração reduzida e você, como espectador, só precisar se dedicar uma meia hora do dia para assistir à sua obra favorita. Não fica pesado, dá para fazer outras coisas e ter conversas com amigos sobre o que foi assistido em chamadas pelo Discord, ou no dia seguinte no trabalho, ou na faculdade/escola. Tipo, temos esse tempo para, de fato, consumir a obra. Então abomino por completo esses lançamentos de 1 episódio por vez.
Depois de extravasar minha indignação quanto a essa prática de mercado, só terei elogios a partir daqui sobre Majutsushi Kunon wa Mieteiru. Minha expectativa quanto à estreia era nula? Sim, visto o meu desgosto quanto ao lance de episódio de uma hora. Porém, a equipe de produção da adaptação fez um trabalho sensacional em situar o espectador quanto àquela realidade, com quase nenhuma exposição, e o entretenimento foi garantido pelo tom aventuresco cômico que permeia os episódios. Sim, um dos gêneros presentes em Majutsushi Kunon é a comédia. Aliás, a comédia ser baseada em absurdos e vergonha alheia me pegou por completo. Tem uma pitada de The Office na maneira como as punchlines surgem nas cenas cômicas, achei fabuloso. Até mesmo a virada e descoberta do protagonista sobre o quão fantástica a magia pode ser, é realizada de uma maneira natural. Nem parece que o tom sério adotado no prólogo estava lá depois do segundo episódio ter acabado. Tem até no roteiro essa autoconsciência de que o estado depressivo do protagonista no começo da infância era angustiante, servindo até de escada para mais piadas fantásticas quanto à origem do Kunon.

Em relação ao mundo, temos uma leve explicação de lore quanto ao motivo de o protagonista ter nascido cego. Envolve um herói que matou o rei demônio (padrão de RPG de aventura) há muito tempo, mas, por conta do sacrifício exercido por ele — que perdeu uma mão e uma perna na luta —, alguns descendentes de sua linhagem passaram a sofrer do mesmo mal, tendo algum fator relacionado ao corpo não funcionando plenamente. No caso do Kunon, foi a visão que foi afetada, não enxergando desde que nasceu. Logo em seguida, temos o lado depressivo do personagem principal quanto à sua condição; no entanto, o roteiro não perde tempo nessa situação e já mostra o Kunon ficando encantado quanto à possibilidade de criar coisas com magia, incluindo recuperar sua visão. E, por ele não ter vivido nada durante seus primeiros sete anos, desconhecendo o mundo exterior além de sua casa, os dois episódios focam na tentativa do personagem de recuperar o tempo perdido, se esforçando ao máximo para aprender tudo à sua volta. Durante seus estudos, ele é acompanhado por sua empregada pessoal, a Iko, que é a GOAT.
Que personagem fantástica a Iko é. Ela acaba sendo a força motriz da obra, com seu jeito malandro, mas esforçado, se dedicando ao trabalho, ao mesmo tempo tentando colocar seus gostos em tudo em que está envolvida. Claramente, as convenções sociais daquele mundo não são de seu completo agrado, e a Iko tem uma personalidade distinta quanto ao que é esperado de uma empregada de uma família de nobres. Ela ama trabalhar para o protagonista, só que mete o louco e fica pedindo aumento salarial a todo momento. Seu senso de humor é ácido, mas adora ser elogiada como se fosse uma donzela em perigo. Mente na cara dura sua idade, só para parecer mais nova para o protagonista, fazendo até comentários maldosos, como dizer que casaria com ele se pudesse ganhar algo com isso. A personagem é pirada e não perde a chance de fazer alguma ação doida. A química da dupla, Iko e Kunon, é perfeita.

E como a Iko não é demitida? Justamente por ela conseguir extrair o máximo do protagonista e a evolução dele ser fruto de seu relacionamento com ela. Porém, entretanto, todavia, o resultado pode ser positivo, mas as consequências… A personalidade do Kunon vai sendo moldada a partir da visão da Iko. Assim, o personagem vai sendo desenvolvido, replicando falas sarcásticas, indiscretas, frívolas e até insanas, considerando o contexto de nobreza, gerando cenas cômicas maravilhosas. A visão de homem perfeito da Iko vai sendo colocada no Kunon, pois, como ela adora o seu mestre, vai querendo que fique igual ao seu sonho de cavaleiro “humorado”.
Teve dois momentos em que eu ri horrores com a situação. A parte da professora da escola conhecendo o protagonista, e ele sair largando os maiores segredos do pai com o rei; a reação da professora, apavorada, com medo de ser morta por saber demais; e o Kunon continuar, ligando o foda-se… caralho, estava gargalhando alto. Tem animes que são considerados de comédia como foco que não conseguiram me fazer rir desse jeito.
Não sei se esse lado cômico continuará tão presente assim nos episódios seguintes, porque o gênero desse anime é aventura. O Kunon vai sair em busca de mais conhecimento mundo afora para curar sua condição totalmente. Na real, ele consegue enxergar em algum nível graças ao treinamento que fez com professores particulares. Porém, sua visão permanece restrita a certas formas, cores e a uma distância pequena. Ele terá que sair de casa para continuar se aperfeiçoando. Fico na dúvida se a comédia mostrada aqui ficará apenas nessa introdução. Gostei tanto desse lado cômico no enredo que acharia desperdício a obra ficar mais séria de agora em diante.

Sabe uma coisa que eu também curti muito? O anime não ser um isekai, nem o protagonista ser um overpower que salvará o mundo de algum mal qualquer. A narrativa ser centrada em um núcleo bem restrito de escopo, e o objetivo do Kunon ser de apenas adquirir mais conhecimento em magia para curar sua cegueira, foi algo do meu agrado. Esse estilo de aventura sempre descamba em algo gigantesco, com o protagonista sendo central ou o escolhido para uma aventura imensa, descobrindo um poder oculto que salvará o mundo. O Kunon se dedica à magia, e é nisso que seu foco está. Apesar de que, conforme vai aprendendo sobre normas e etiquetas, mais parecido com a Iko em personalidade ele vai ficando. Provavelmente teremos mais cenas de vergonha alheia vindo aí.
Quanto aos demais personagens do elenco, não tenho muito o que falar, pois quase não tiveram participações relevantes na trama. Ou foram introduzidos para algo mais adiante na trama, como a Mirika, ou que serviram apenas de escada para mais piadas, como a família do protagonista ou dos professores particulares. Teria que assistir mais episódios para entender melhor o papel de cada um na narrativa.

Quanto à produção do anime, é o feijão com arroz que temos aqui. Animação econômica, quase um slideshow; uma direção mediana, com ponto forte no excelente timing cômico para as piadas; edição meio capenga, mas dá para o gasto; e uma trilha sonora um tanto esquecível. Quanto à OST, me surpreende ser do Kohta Yamamoto. Ele é um dos pupilos do Sawano, e vê-lo um tanto comedido na trilha me chamou a atenção. Talvez haja momentos épicos mais para frente na trama que justifiquem a presença dele aqui, no entanto, acho que ele estaria melhor em uma produção que combinasse mais com seu estilo musical. E não posso esquecer de exaltar o excelente trabalho da dublagem do Kunon da Saori Hayami. Fabulosa a interpretação dela do protagonista.
Dado o que foi mostrado nessa estreia, o anime Majutsushi Kunon wa Mieteiru foi muito bom em sua apresentação. Gostei demais dos episódios e recomendo a obra até mesmo para aquela galera que está cansada desse tipo de anime de aventura ou isekais. Majutsushi Kunon wa Mieteiru não reinventa a fórmula, mas consegue ser um refresco nesse mar de lançamentos parecidos entre si.

O anime está disponível na Crunchyroll. Clique aqui para assistir.
