Segundo anime da Temporada de Inverno de 2026 que comentarei no blog, Yuusha-kei ni Shosu. Peguei este aqui para assistir por conta da minha curiosidade em relação ao estúdio que está produzindo (o mesmo de 7th Time Loop) e pelo trailer lançado, que mostrava uma animação bonita e chamativa. Infelizmente, não confiei na minha intuição, que dizia que ia ser uma merda, e dei uma chance. Diretor novato na função, uma propaganda no mínimo interessante e uma premissa inusitada, em que a função de herói é algo ruim naquele mundo. Fui de coração aberto ver o primeiro episódio do anime e………….. deveria ter confiado mais no meu instinto.
Sinopse (Crunchyroll):
Em um mundo onde o heroísmo é uma punição, Xylo Forbartz, um assassino de deusas condenado, enfrenta hordas intermináveis de abominações monstruosas como parte da Unidade Penal de Heróis 9004. A morte não é uma fuga, apenas um ciclo de ressurreição e combate implacável. Mas, quando Xylo encontra uma misteriosa nova deusa, essa improvável aliança dá início a uma rebelião que pode quebrar as correntes da punição eterna.

O anime não é um desastre completo, mas puta merda, por que caralhos um episódio de 1 hora? Vou me adiantar e dizer que não faz sentido nenhum ter essa duração toda. Mas tentarei exemplificar melhor a partir de agora, com vários trechos do episódio. Então fica o aviso de spoiler a partir daqui.
Apesar de a trama ter essa premissa diferente, em que o cargo de Herói é uma punição por algum crime cometido, ela não é complexa a ponto de necessitar uma longa exposição e explicação daquele mundo para o espectador. É algo até com roteiro simplório, em que temos algo com estilo medieval, com magias e monstros originados de magia negra e aparências grotescas, e em que a humanidade está à beira da destruição completa com o avanço e crescimento das forças do mal no planeta. Em quatro linhas já expliquei o macro do enredo, sem a necessidade de precisar de 1 HORA PARA ISSO. Caralho, maluco, foi um tédio completo assistir a essa estreia.

Não sei se os roteiristas do anime achavam que o enredo daqui necessitava de toda essa duração ou se foi exigência dos produtores para algo do estilo, mas claramente não precisava de todo esse tempo de duração. A começar pelo “emburrecimento” da história. Desconheço se esse anime vai para a Netflix ou algum outro streaming ocidental, porém o anime segue a cartilha de chamar quem está assistindo de burro a todo momento. As mesmas explicações de lore ocorrem múltiplas vezes em um curto espaço de tempo. “Mas os monstros são frutos da corrupção…” para, menos de 1 minuto depois, ter essa mesma fala dita pelo protagonista para seu companheiro, sendo que, na teoria, ele deveria saber essa merda, já que a missão do momento é matar monstros, caralho! Então eles passam a missão, mas não informam aos membros o alvo ou objetivo? Não faz sentido essa porra.
E essa incongruência é ressaltada a partir do momento em que Xylo precisa verbalizar o que são Fadas, sendo que Dotta já sabe o que elas são, mas, ainda assim, temos um diálogo LONGO sobre esses monstros influenciados por magia demoníaca. Eu tinha entendido de primeira, mas o roteiro de Yuusha-kei ni Shosu achou válido repetir mais quatro vezes para ver se eu tinha compreendido realmente. Valia mais explicar melhor sobre o lance de ressurreição que é citado brevemente no início e suas consequências, em vez de perder tempo repetindo informações já ditas antes.

Por consequência dessas repetições, o ritmo do anime é comprometido. Nem com lutas exuberantes visualmente e sequências de ação extensas conseguiu empolgar ou deixar vidrado o que se via em tela. Até porque, logo em seguida, vamos ter algum personagem secundário dizendo ao protagonista: “Você é um herói, a escória da humanidade”. Inclusive, vou puxar um tema relacionado, que é o elenco desse anime. Puta merda, nenhum personagem se salva. Todo mundo ou é estereótipo, ou é irrelevante para a trama principal. Mas quero dar uma atenção especial ao trio principal: Xylo, Dotta e a deusa lá, cujo nome esqueci.
Atualmente, não sou fã de personagens estilo Sasuke, de Naruto. Personagens densos, com aura sombria, e que, graças a um passado traumático, ficam reclusos da sociedade jurando vingança aos seus algozes. E a ficha de personalidade do Xylo é exatamente isso que acabei de comentar. O pior é que ele fica sempre um tom acima do necessário para o que a cena pede. Acontece algo qualquer na tela, sem grande relevância no quesito sentimental, e lá está o Xylo dizendo: “A sociedade é perversa, por isso sou recluso. Não confio na humanidade, pois ela é do mal. Serei o lobo solitário”.
Obviamente, eu parafraseei com exageros, mas, no momento em que você escuta esse mesmo discurso pela vigésima vez, fica um porre, maluco. Na metade do episódio, estava torcendo para ele morrer. E, se eu estou com esse sentimento em relação a um personagem que será central no enredo dali em diante, imagina como estarei depois de uma temporada inteira vendo essa desgraça… A morte será a coisa mais simples que desejarei para essa criatura.

E, sem contar o quão clichê o protagonista é, caso você já tenha assistido a uma grande quantidade de animes. Fica muito no lugar-comum, sem novidades ou algo que chame atenção pelo lado positivo. Também se encaixa no resto da equipe principal, em que o Dotta tem grande semelhança com o Zenitsu, de Kimetsu, e a deusa Teoritta (tive que olhar o nome no MyAnimeList) é uma mistura de personalidades do elenco feminino de Re:Zero. Sempre dá para traçar um comparativo direto com o trio principal daqui e personagens de outros animes famosos.
Essa sensação de já ter visto algo parecido em outras obras, somada a um grupo de protagonistas com zero química e carisma, resultou em completo tédio enquanto assistia ao primeiro episódio. Nem as lutas finais com o lorde demônio (nem lembro se é esse o nome mesmo) empolgaram. Aliás, foram longas demais. O desfecho emocional do Xylo aceitando o pacto com a Deusa aconteceu e teve um clímax, porém ainda tivemos mais 10 minutos de luta posteriormente. Acabou da pior maneira possível, em uma decrescente emocional que, no desfecho, deixa aquele sentimento de algo estranho ou inacabado, não oferecendo o “punch” sentimental necessário e devido para uma luta contra um chefão.

Indo para o epílogo, ainda quero entender quem foi o gênio que decidiu colocar aquilo nos últimos minutos da estreia. O resultado estava ruim, e com esse final de episódio ficou pior ainda. Em vez de deixar o público curioso para descobrir o que Xylo fez no passado, o motivo do pacto com outra deusa, e o porquê a matou, o roteiro decidiu explicar toda a motivação dele e mostrar o julgamento que o condenou como herói. Nem um cliffhanger simples esse episódio conseguiu fazer.
E nem foi sutil essa cena. Ficou tudo escancarado que a culpa é da religião e que há uma conspiração para ocultar a verdade do povo em relação às deusas. Que coisa tenebrosa foi esse final de estreia. Isso corrobora o que eu disse no começo desta postagem: o enredo acha necessário explicar tudo, e da maneira mais preguiçosa possível. Deixar uma simples dúvida ou curiosidade para quem assiste é impensável para a equipe de produção dessa adaptação. Tudo tem que ser destrinchado, regurgitado e colocado na boca do espectador para que ele não precise refletir sobre o que está vendo. Olha, reafirmo que foi difícil terminar de assistir Yuusha-kei ni Shosu.

Quanto à parte técnica, sem grandes comentários, pois, semelhante ao que aconteceu no roteiro (exceto a animação), tudo foi bem medíocre na execução. Porém, fiquei com ressalvas em relação à parte visual. Estou com a sensação de que estão utilizando IA para fazer os frames in-between. Pode ser por conta do estilo de animação adotado, em que temos fluidez no FPS. Normalmente, usam 30 frames como padrão nas animações; entretanto, em Yuusha-kei ni Shosu adotam essas oscilações no framerate para gerar uma animação estilizada, que até fica bonita olhando por cima, mas dá um sentimento de que algo não está certo.
Minha suspeita quanto ao uso de IA é principalmente pela quantidade excessiva de sakugas em cenas irrelevantes ou sem propósito de movimentação. Um simples ato de beber água tem mais fluidez do que em todo o anime de Tensei Akujo no Kuro Rekishi (quem viu sabe o desastre que foi aquela animação) da temporada passada. E, dentro dessas sequências, há momentos em que a consistência dos designs oscila demais. Vai de algo entendível em uma passada de olho para algo incompreensível mesmo pausando o episódio e visualizando com calma. Ou esse anime não tem diretor de animação, ou simplesmente terceirizaram o trabalho de animar para uma máquina. Considerando que alguns estúdios chineses já estão usando essa técnica para animar certos frames com IA, não duvido que estúdios japoneses estejam seguindo essa linha.
Difícil recomendar Yuusha-kei ni Shosu. Se você for com a ótica de assistir a um anime apenas pela animação bonita, estilo Demon Slayer, talvez aprecie a experiência. O lance é não pensar ou refletir enquanto consome a animação. É sentar, ver umas lutas entre monstros, demônios e humanos, e apenas isso. Acredito que o anime deu o que tinha que dar em relação a conteúdo. É assistir e torcer para que não fique pior do que já está.

O anime está disponível na Crunchyroll: Clique aqui para assistir.
