É fevereiro e além de ser o mês marcado pelo Carnaval, é também o mês do Dia dos Namorados Internacional. Aquele dia (14/02) que basicamente o mundo inteiro comemora o Dia dos Namorados, menos o Brasil (que tem seu dia em 12 de junho). Pensando nisso, resolvi fazer uma pequena seleção de obras românticas para resenhar e recomendar aqui no blog. São todos trabalhos levinhos e tranquilos, e creio que vai ser algo interessante para a ocasião e para o mês em si. ^^
Começamos esta (pequena) série de resenhas com “Sob a Luz da Lua” que é um grande sucesso há muitos anos e que está particularmente em voga atualmente graças à adaptação animada que está em exibição atualmente (escrevemos sobre o primeiro episódio no blog). “Sob a Luz da Lua” é um mangá escrito e ilustrado por Mika Yamamori. Está em publicação no Japão desde julho de 2021 na revista Dessert (Kodansha). A obra está em andamento com 10 volumes atualmente e a série ultrapassou a marca de 7.3 milhões de cópias em circulação no Japão. O mangá foi indicado no 46º, 47º no 48º Kodansha Manga Awards na categoria de ‘Melhor Shoujo’ (2022, 2023 e 2024), e para o 70º Shogakukan Manga Award em 2024. Ficou em 4º lugar no Kono Manga ga Sugoi! 2022 na categoria de ‘mangá feminino’, ganhou o Semi-Grande Prêmio de mangá da revista anan na sua 12ª edição (2021), e por fim, o mangá venceu o Grande Prêmio da edição de 2023 da ebookjapan Manga Award. No final de 2025, a autora divulgou que o mangá “terminará em breve” no Japão, mas até o momento ainda não temos a confirmação de quando isso ocorrerá. No Brasil, o mangá é publicado pela JBC desde julho de 2025 e conta com 3 volumes lançados (4º previsto para Março).

Sinopse: “Yoi Takiguchi é uma garota que, graças ao seu jeito de se portar e à sua esguia e bela aparência, é chamada de “príncipe” pelos colegas. Por sempre ser comparada aos mocinhos dos mangás de romance, a jovem cresceu com sentimentos conflitantes em relação a isso. Certo dia, ela acaba trombando com Ichimura, o outro “príncipe” da escola. No começo, Yoi tem uma péssima impressão sobre ele - muito por conta do jeito mal-educado do rapaz, bem longe de se comparar a um príncipe. No entanto, algo inesperado acontece e o que Yoi fará ao ser vista como quem é de verdade pela primeira vez?”
- História e Desenvolvimento
É uma coisa escrever sobre esse começo da obra no blog, pois esta será a terceira vez que fazemos isso em menos de um ano: escrevi sobre o volume #1 no post de apresentação em abril de 2025, quando o mangá ainda não tinha começado a ser publicado e a JBC sequer falava muito da obra até então; depois falei do primeiro episódio do anime em meados de janeiro de 2026 (o episódio 1 cobre os 2 primeiros capítulos, ou seja, metade do volume 1) e agora, estou aqui, novamente, para falar da obra. Como pessoa que ama mangá feminino, não me incomodo nem um pouco, e acho que sempre há o que se dizer. ^^

A história base, a essa altura, vocês todos devem conhecer: acompanhamos a Yoi Takiguchi, uma jovem estudante que ganhou a fama e apelido de “príncipe” da escola, devido a sua beleza andrógina (traços mais ‘masculinos’, voz mais grave…). Ela só queria levar uma vida banal e comum, e não fez particularmente nada para ganhar a fama, apenas ser como é e agir com certa cortesia, o que encanta as meninas da escola e afasta os garotos que a veem como “masculina demais”. Num dia, tentando se esquivar de algumas garotas, acaba esbarrando com o Kohaku Ichimura, outra figura considerada como “príncipe” da escola. Esse encontro acaba resultando no Ichimura interessado na Yoi, querendo saber mais sobre ela.
A partir desse encontro, os dois vão se esbarrar mais veze, o que para a Yoi é um martírio e para o Ichimura, que a busca ativamente, é um entretenimento, e uma relação vai nascendo dali, aos trancos e barrancos. A Yoi acha o Ichimura uma pessoa estranha e meio suspeita pela maneira que age com ela, achando que a vê como uma piada. Já o Ichimura tem um jeito meio cafajeste e no começo, a aproximação dele com a Yoi é em um misto de interesse, mas mais por achar interessante as reações que ela pode ter, mudando para um interesse romântico (mais sério) no decorrer desses primeiros capítulos.

A Mika Yamamori consegue estabelecer rapidamente o clima dos dois personagens e a química entre eles. Esse clima meio provocativo, principalmente por parte do Ichimura, é delicioso de acompanhar. Tem cenas que acho antológicas neste volume, como quando os dois estão almoçando e o Ichimura diz que quer ver mais das reações da Yoi (a cena que coloquei logo acima).
Agora, algo que uma ala de pessoas pega para criticar na obra é que a Yoi deixaria de ser uma personagem interessante, porque inicialmente ela tem um perfil de mulher desfem e aos poucos, a autora tornaria ela feminina. De fato, a Yoi tem usado mais roupas e acessórios tidos femininos (lembro do maior auê que foi na época que a autora fez uma ilustração com a personagem usando um cropped), mas é importante destacar que desde o primeiro capítulo, a autora já coloca a personagem se incomodando com o papel de príncipe. Nunca foi algo que ela quis e, na verdade, isso foi ‘imposto’ a ela. A personagem tem problemas de autoestima por conta disso, já que as garotas se aproximam dela pensando ser um garoto, e ela não gosta de meninas. E os garotos sempre mantém distância dela, já que ele é “mais masculina que eles”.
Dito isso, a Yoi não muda o seu jeito POR CAUSA do Ichimura, mas sim muda ATRAVÉS dele. Ela não muda para se encaixar num padrão de feminilidade e assim namorar com o garoto bonitão. É através desse garoto bonitão que ela consegue se enxergar como bonita e tentar coisas que, antes, sequer teria coragem de tentar. Tem cenas boas do Ichimura comentando com os amigos se indagando do porquê de ninguém nunca chegar nela, sendo que a Yoi é linda e quanto mais ele a conhece, mais fica incrédulo de não ter NINGUÉM interessado (genuinamente) nela.

O fato é que enquanto a Yoi não consegue se desvencilhar desse papel por causa de pressão (e de certa forma, não muda o jeito dela, porque bem, ela não desgosta da forma que é), o Ichimura vai pelo lado oposto: ele implode a visão de príncipe. Não é à toa que a Yoi olha para o Ichimura e começa a pensar porque ele é um “suposto príncipe”, pois não se comporta como um. Os outros projetam uma imagem no Ichimura, seja por causa da aparência, ou por causa do dinheiro da família, o que resulta em muitos querendo se aproximar dele por consolidarem uma ideia que não é a real e ele definitivamente não está disposto a atender essas expectativas. Então ele age de forma distante. Não chega a ser grosseiro, mas não está a fim de conversa, da mesma forma que não quer agir de uma forma que abre margem para mais gente se aproxime por algum interesse. E nesse ponto, podemos dizer que sim, para ele pode ser mais fácil desvencilhar dessa imagem, porque ele é um garoto. Não existe o mesmo tipo de pressão (na mesma medida) que existe para a Yoi, por ela ser uma garota. E o que acho interessante é que, por ele ser completamente desapegado, está sempre disposto a colocar a Yoi à frente e fazer com que ela também saia dessa caixinha que a colocaram. Não só para tentar coisas diferentes, mas dela conseguir se perceber como alguém interessante e que é sim, muito linda.
Eu comentei no post de primeiras impressões do anime que a obra não fala exatamente sobre a identidade queer, mas dialoga justamente sobre como as garotas andróginas japonesas são vistas na sociedade: são “masculinas demais” e, portanto, indesejadas. Se para nós ocidentais isso pode soar “ultrapassado”, “retrógrado” ou até “simplista”, é preciso lembrar que o Shoujo reflete a sociedade japonesa e, pelo visto, essa é uma discussão que acontece por lá. Somos nós consumindo a produção deles e antes de querer apontar o dedo, é preciso olhar para a nossa própria realidade e às vezes, tentar entender o contexto social japonês antes de querer cagar regra. É sempre bom tomar cuidado com orientalismo.

Me cansa muito, mas MUITO MESMO essa onda de hate que Shoujo de romance vem levando de todos os lados possíveis e com as obras mais safes do mundo. Quando “Um sinal de afeto” ganhou anime, problematizaram o Itsuomi, dizendo que ele era abusivo e desrespeitoso com a Yuki; quando “Hananoi-kun to Koi no Yamai” ganhou anime, aumentou ainda mais o volume de pessoas dizendo que o Hananoi era tóxico, sendo que nem davam tempo para a obra explorar mais do personagem e da complexidade que existe nele; e agora com “Sob a Luz da Lua”, reduzem os dilemas da Yoi numa ótica de ela estaria deixando de ser desfem/tomboy para ser feminina (sendo que a Yoi nunca gostou disso e a obra nunca foi sobre isso) ou ainda, implicâncias com o próprio Ichimura… reclamações de gente de fora da comunidade, sobretudo de homens. Sempre esperamos (e espera o pior vindo desse povo), mas acho triste ver tanta mobilização de gente da própria comunidade Shoujosei indo CONTRA o mangá feminino. Perceba: o problema não está em não gostar ou mesmo criticar o que não gosta ou não acha bem desenvolvido. Pessoas divergem em opinião, afinal, mas é surreal ver o nível de algumas discussões que não consigo não pensar que é puramente burrice, ainda mais pensando que tem uma galerinha que alinha o discurso com INCEL para criticar certos Shoujos.
- A Arte
Eu conheço a Mika Yamamori há uns bons anos, da época que ela ainda lançava suas obras na Margaret da editora Shueisha, porém, até então, nunca tinha lido nada dela. Conhecia os trabalhos de vista, via sendo publicado em outros países, mas não lembro de ter lido algum (mesmo que só o comecinho). Esse foi meu primeiro contato, mas só de ver o desenho das capas dos mangás dela, é notório a evolução dela no traço em termos de polidez e refinamento, mas também em pintura. Vendo “Sob a Luz da Lua”, a quadrinização dela é simples, mas tão eficaz e impactante. Ela desenha e monta as páginas de forma que os momentos que precisam de algum “tcham” tenham isso. Tem páginas sublimes! E o texto dela nestas cenas só corrobora ainda mais com os momentos.


A minha única tristeza é que a autora deixou de fazer pintura tradicional para as capas. A pintura à mão é algo que era comum e recorrente no mangá Shoujo, principalmente em um tom meio aquarelado, tornando fácil a identificação (quase como uma marca do mangá feminino). Com o passar dos anos e com o advento do desenho digital, a prática foi morrendo cada vez mais, com mais e mais autoras abandonando o estilo e migrando, enquanto que as novas autoras já vão direto para o digital. A Mika vinha fazendo as capas de “Sob a Luz da Lua” de maneira tradicional, porém parou a partir do quinto volume da série; o mesmo aconteceu com a suu Morishita em “Um sinal de afeto”, que parou de fazer as capas com pintura à mão a partir do volume 10 do mangá. Eu entendo que é uma tendência natural, mas como pessoa que admira processos manuais e que gosta desse elemento no Shoujo, fico triste em ver que temos cada vez menos mangakas adeptas desse estilo.


Nós falamos da carreira da mangaka na época do post de apresentação da obra e como ela não lançou mais nada de lá para cá, e não vamos nos repetir (recomendo dar uma olhada no post para ver os trabalhos anteriores da mangaka ^^).
- A edição nacional
“Sob a Luz da Lua” é publicado no Brasil pela JBC no formato 13,2 x 20 cm, com capa cartonada brilho. Tem 192 páginas, todas em preto e branco, no papel Pólen Natural 70g, ao preço de R$ 44,90. O volume #1 incluiu marca página de brinde. A tradução foi feita por Hellen Sayuri. Em breve, adicionamos o link do vídeo mostrando a edição nacional da obra 🙂
O texto está bom e gostoso de ler. Eu adoro o papel que a JBC vem usando nos mangás, porque a textura é super gostosa e não é muito transparente (pode ter alguma variação dependendo da obra/volume, mas em geral é muito bom). Sobre a edição em si, tenho apenas duas reclamações a fazer: a primeira é uma já batida e que faço toda vez que um novo volume entra em pré-venda e/ou a editora divulga uma nova capa: que tipografia HORROROSA! Não tem como. São dois tipos de fonte na capa e nenhuma conversa com a obra de alguma forma. Um pavor. E o número do volume ficou super perdido na capa, poderiam ter deixado abaixo do título, mas deixaram no canto esquerdo, num lugar aleatório.
E a outra questão é que pelo menos o meu volume está com problema de encadernação. Ele está estalando para abrir, e as páginas estão ondulando (e aqui em casa, isso não acontece com nenhum outro mangá). Como eu não vi ninguém falando sobre isso, vou assumir que foi um problema pontual no meu volume (esse volume que tenho é da primeira tiragem).
Uma última coisa: eu acho criminoso as capas do mangá não terem acabamento fosco. É algo bem pessoal meu, mas que a série combinava (e até pedia) uma capa fosca, isso não tenho como negar.
- Conclusão
“Sob a Luz da Lua” é uma história de romance bem simples, sem grandes conflitos e que acho uma boa pedida, principalmente considerando a ocasião do Dia dos Namorados e o clima de romance. Os personagens são muito gostosos (tanto no sentido de acompanhar, como no visual, rs) e eu gosto do clima sexy que eles têm e que vem sendo frequente no mangás Shoujos mais recentes de algumas revistas, sobretudo da Kodansha (Dessert, Bessatsu Friend…).
Não é o meu favorito da Dessert, mas com certeza vale a pena dar uma olhada, especialmente agora com a adaptação em anime. ^^

- Ficha Técnica:
- Título original: Uruwashi no Yoi no Tsuki (うるわしの宵の月)
- Título nacional: Sob a Luz da Lua
- Autora: Mika Yamamori
- Serialização no Japão: Dessert
- Editora japonesa: Kodansha
- Editora nacional: JBC
- Quantidade de volumes: Em andamento com 10 volumes
- Formato: 13,2 x 20 cm; capa cartonada brilho
- Preço de capa: R$ 44,90
- Tradução: Hellen Sayuri
- Compre em: Amazon/Loja JBC
