Estamos em Junho e, portando, Mês do Orgulho! Como o blog vem fazendo todos os anos (de forma desordenada, por falta de organização da minha parte), estaremos produzindo resenhas e recomendações temáticas para a ocasião. Não sei em que momento do mês esse post vai ao ar, mas creio que já deve ter sido publicado ao menos um outro texto além desse (provavelmente, recomendação para “Hanamonogatari“). A resenha de hoje vai para o muito badalado “Afterglow” ^^
“Afterglow” (アフターグロウ) é um mangá BL escrito e ilustrado pela Wagimoko Wagase. A obra foi publicada no Japão entre Abril e Dezembro de 2023 na revista gateau, da editora Ichijinsha, sendo inicialmente concluído como volume único (lançado em Março de 2024). A obra foi um grande sucesso, dentro e fora do Japão, o que levou a autora a continuar o mangá. A serialização da obra foi retomada em Junho de 2025, na edição de Agosto/2025 da revista gateau. Em Abril deste ano, a autora comentou que o conteúdo do volume #2 já está fechado (capítulos 6 à 11, integralmente publicados na gateau) e o volume encadernado está previsto para 15 de Julho (capa ainda não divulgada). Além disso, a obra ainda está em publicação, então de certo, teremos ao menos um 3º volume no futuro. No Brasil, o mangá foi anunciado em Julho de 2025, durante o Anime Friends daquele ano, e foi publicado meses depois, em Novembro. Adquiri o volume recentemente com o Capitão Onigiri e vocês conferem a resenha em detalhes abaixo ^^


ATENÇÃO: esse post contém imagens sexualmente explícitas!
Sinopse: ” ‘Você já matou alguém?’
Kiyotaka Higuchi é um médico formado sem nenhuma DP na universidade de medicina, e estava trilhando o caminho para a elite como cardiologista. No entanto, faltando pouco para tirar a qualificação especializada, ele foi realocado como o médico interno de um hospital no interior remoto de Kyushu devido a uma “certa razão”, e atualmente passa seus dias em uma árdua batalha aturando fofocas de idosos. Certa noite, enquanto afogava as mágoas com bebidas por causa desse literal rebaixamento, ainda chorando pelo efeito do álcool, Kiyotaka acaba sendo salvo por um mafioso chamado “Tenju” e, sem entender mais nada, foi levado para a cama para ter relações carnais…”
- História e Desenvolvimento
Temos aqui, uma história bem simples: um médico no fim do percurso de sua especialização. Seu sonho era ser um cirurgião cardíaco, até que ele acaba sendo transferido para um hospital de uma cidadezinha do interior de Kyushu, tendo que trabalhar como médico geral. Esse sentimento de derrotismo, junto da mágoa de estar em um lugar do qual ele não queria – e que não teve coragem de enfrentar e negar a ida – faz com que o Higuchi passe seus dias no automático: trabalha, sai para beber e volta para casa para dormir, repetindo o ciclo vez após vez. Em uma dessas ocasiões, ele acaba encontrando com o Tenju, o mafioso da região e vai para a cama com ele, com o Tenju dizendo que vai fazer o Higuchi se apaixonar por ele. A história segue na construção do relacionamento entre esses dois.

A partir disso, temos um modelo bem tradicional de narrativa: o protagonista vai tentar evitar e fugir do Tenju, mas acaba sendo encontrando com ele – e em muitas dessas ocasiões, o Tenju que vai atrás dele -, o Tenju por sua vez dá uma forçada para que eles conversem e essa conversa acaba onde? Na cama, em sessões deliciosas de sexo. O Higuchi até tenta resistir, negar e “fugir” dessas situações ainda mais considerando a ‘profissão’ que ele leva, mas sempre acaba sendo levado pelo mafioso, que deixa ele mexido e que venhamos e convenhamos, é um gostoso. Algo a se dizer sobre as sequências sexuais é que a autora desenha com tanta vontade que é realmente convincente de que está sendo muito gostoso. Dá até para “se animar” lendo, rs.
E ainda é preciso dizer que os personagens do mangá tem um vocabulário tão baixo, tão vulgar na cama… eu AMEI! Me diverti horrores – em partes, por constrangimento – com os absurdos ditos por eles enquanto estavam transando! Mas confesso que também tem seu Q excitante, principalmente porque a autora desenha o mangá com muito gosto e faz parecer a transa muito gostosa também. E sinceramente, acho que precisamos de mais mangás “vulgares” sexualmente no Brasil. Muito se fala que “BL só tem sexo”, mas eu discordo muito e, na verdade, acho que precisamos de muito mais!


O motivo pelo qual o Higuchi foi transferido se deve a um trauma que ele desenvolveu durante a profissão, que culminou na morte de um paciente, servindo de bloqueio para ele e o colocando em um verdadeiro estado de pânico frente à tensões do atendimento médico. O tempo naquela cidade interiorana era, em grande parte, para que ele conseguisse desacelerar o ritmo e assim, processar melhor tudo que aconteceu com ele. Nesse ponto, “Afterglow” tem um aspecto muito novelesco, que é ficar martelando algumas informações para o leitor, pois ela vai ser importante lá na frente: em vários momentos é dito que na profissão do Tenju, ele pode ser morto a qualquer instante. Isso é dito umas duas vezes no volume e para mim, já estava muito claro que alguém ia tentar matar aquele homem e ia sobrar para o Higuchi atendê-lo.
Sem entrar em grandes detalhes disso, posso dizer que estava certo em partes, mas acabei sendo surpreendido pela solução que ela trouxe no final, não sendo como eu imaginava e que, na verdade, ser da forma que foi feito era muito mais palatável, o que foi uma ótima saída para o roteiro.

Nessa relação que vai sendo construída entre os dois, eu gosto muito dos momentos em que eles param para conversar. Nesses momentos de conversas longas, o texto da autora é particularmente muito bom! Acho que existe uma delicadeza com os personagens, em explorar diferentes formas de ver e viver a vida, o que torna o mangá e seus personagens mais interessantes. O Tenju e o Higuchi vivem mundos completamente diferentes, tem hábitos muito contrastantes entre si e, no entanto, a autora traça linhas muito singelas entre esses dois de consideração e respeito pelo outro, um entendimento de suas realidade e, apesar do desejo de completude e de ficar juntos, um não vai pedir ou forçar para que mude para o prazer do outro, muito pelo contrário, é por cada um ser como é que eles se gostam tanto. Existem dificuldades no caminho, barreiras a serem superadas, mas eles estão dispostos a fazer o possível para estarem um com o outro.
O mangá tem um final fechado, mas confesso que ficaria meio triste se já não soubesse que terá uma continuação. Não é que o final seja ruim, muito pelo contrário, ele é bem o que se espera desse tipo de obra. O x da questão aqui é que a relação dos personagens se desenrola de uma forma tão gostosa que a sensação ao terminar o volume é de um grande “poxa, podia ter mais…”. E digo isso de forma muito positiva, pois faz um tempinho desde que li um BL que me deixasse com essa vontade de ver e ler mais.

Se fosse para dizer algo negativo na obra, eu diria que a maneira como a autora decide começar a relação entre os personagens. O Higuchi estava bêbado quando transou com o Tenju e ficou falando que foi estuprado – e não está errado -, o meu problema é que isso fica muito solto na narrativa. Não acho que precisava, ainda mais que a maneira que isso é colocado é meio que como tom de “piada”. É bem incômodo como isso é repetido durante algumas páginas e a autora, depois do primeiro capítulo, sequer toca mais nesse assunto. Fica só perdido ali. O personagem poderia estar bêbado, mas plenamente consciente, só sendo levado pela ideia de sexo por causa do álcool. “Ah, mas o Tenju é da máfia”, não é essa a questão. “Pássaros que cantam não podem voar“, da Kou Yoneda, trabalha com máfia e abusos, e acho tudo muito dentro do tom da série, porque desde o começo ela se estabelece daquela forma, o que é o oposto daqui, que se apresenta com um clima mais leve de forma geral.
Se você consegue passar por cima disso, o resto do mangá é só alegria. E eu sei que eu já falei disso antes, mas as cenas de sexo são um deleite. Tem cenas realmente “UAU” pela composição em somatória do diálogo, como quando após eles transarem, o Tenju fala pede para o Higuchi “limpar” o membro dele. É realmente algo.

- A Autora
A Wagimoko Wagase é tradicionalmente uma mangaka de BL. Ela está na ativa há alguns anos, publicando de forma independente, doujinshis de “Jujutsu Kaisen”. Profissionalmente, ela estreou em Julho de 2022 com o one-shot “Ai ni Naru Made mou Chikai” na revista NUUDE, da editora Tokyo Mangasha. Mais tarde, ainda em 2022, ela começa a publicar “Kiite, Ore no Hazukashii Oto” na revista Reijin Uno!, da editora Takeshobo. A obra foi publicada entre Setembro/2022 e Abril de 2023, sendo completo em volume único. Em 2023, a autora estreia “Afterglow”, mas também “Manatsu no Eureka“, publicado entre Novembro de 2023 e Novembro de 2024 na revista GUSH da editora Kaiousha. O trabalho mais recente da autora – ignorando a sequência de “Afterglow” – é “Nenge wo Matteita“, publicado entre Fevereiro e Julho de 2025 na Reijin (Takeshobo) e compilado como volume único.

- A Arte
A arte da autora é um show à parte e foi um dos grandes motivos que fez o mangá estourar no Ocidente, na época que o mangá tinha acabado de sair no Japão. Naquela época, a página do Tenju na cama com o Higuchi, com as costas tatuadas do Tenju à mostra, foi um estouro! E até cheguei a posta-la no Twitter do blog. O trabalho artístico dela é ótimo, tanto em colorido (que é deslumbrante), como em preto e branco. E falo isso considerando composição, enquadramento, os designs também são muito bonitos e polidos, tudo é realmente muito ótimo!
O que acho triste é que existe quem acha que a popularidade da autora é exclusivamente por causa da arte dela. Eu discordo, acho que ela escreve histórias simples e não há demérito algum nisso, e mesmo escrevendo um texto bem simples, ela tem uma sensibilidade bem interessante na maneira como retrata e conduz seus personagens. E mesmo que isso da autora ser popular por causa da arte fosse verdade, eu não acho que seria um problema. Tem tanto mangaka de Shounen/Seinen que otakinho médio fica babando por conta de desenho (porque se for considerar roteiro, olha…), então qual o problema de exaltar as nossas? Vamos apreciar as mangakas que temos pelos seus talentos!

- A edição nacional
“Afterglow” foi publicado no formato 13 x 18 cm (semelhante à “Canção do Amanhecer” e “A nossa refeição”) e com capa cartonada brilho. O mangá tem 176 páginas (nenhuma colorida) impressas no papel Off-set 90g. O preço de capa é de R$ 42,90. O mangá não incluiu brindes. A tradução foi feita pela Erika Yuriko Tanaka. Em breve, nós lançaremos um vídeo mostrando a edição nacional do mangá.
Duas coisas a se comentar sobre essa edição: a 1ª é que, embora eu não tenha encontrado erros de grafia no mangá, há um uso muito recorrente de vírgulas no lugar de ponto. Pausas que deveriam ser maiores ou que concluem uma ideia e eles usam vírgula no lugar. E a outra é que durante muito tempo, a editora que lançou a obra falava sobre como eles entregavam alta qualidade material nas suas obras, usando o fato de ter miolo colado e costurado nos mangás como um sinal disso. Ao receber o mangá, fui abrir para ler e dei de cara com a primeira página descolando e as seguintes (até aproximadamente a página 30) com páginas ameaçando soltar, tendo que manusear com cuidado – podem ver isso no vídeo da edição. Quando fui verificar, o miolo veio apenas colado, sem a costura que era habitual. Desde que o blog rompeu com a editora, lá no fim de 2023, eu não acompanho a editora e quase não tenho comprado suas obras (me restrinjo à volumes únicos ou séries curtas) e quando compro, é bem depois do lançamento. Meu problema em si nem é não ser mais costurado, mas acho ~curioso~ como até mesmo uma das cartadas de qualidade que a editora usava não existe mais (imagino que para cortar custos) e que agora, tenham mangás com esse tipo de problema.
No demais, R$ 42,90 para esse mangá é um valor muito alto. Não é um mangá de 200 páginas, não tem sobrecapa, não tem páginas coloridas e está em um formato menor (que deveria ser ‘mais em conta’)… não acho que esteja valendo esse valor.

- Conclusão
“Afterglow” é uma história bem simples, tem aquele problema com o protagonista repetir muito sobre estupro e isso ficar totalmente descolado do resto da narrativa, mas que se você conseguir relevar, acaba por ser um bom mangá para passar o tempo, além de ser uma leitura bem excitante, rs. Ao fim do volume, senti um gostinho de “quero mais”, então fico feliz que está recebendo continuação no Japão. Vejamos quantos anos a editora vai levar para publicar o segundo volume aqui aqui (vale lembrar que, por exemplo, “Come to Hand” saiu pela editora em Janeiro de 2024 e hoje, mais de 2 anos depois, ainda não lançaram o volume #2).
Como eu disse, não acho que esse valor compense, então se for comprar, aguarde por uma boa promoção.

- Ficha Técnica
- Título original: Afterglow (アフターグロウ)
- Título nacional: Afterglow
- Autora: Wagimoko Wagase
- Serialização no Japão: gateau
- Editora japonesa: Ichijinsha
- Quantidade de volumes: “volume único”
- Formato: 13 x 18 cm; capa cartonada brilho
- Preço de capa: R$ 42,90
- Tradução: Erika Yuriko Tanaka
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