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Se "Três Graças" redime seus homens, a Battan está interessada em mostrar o pior deles.

A novela “Três Graças“, escrita pelo autor veterano Aguinaldo Silva (Tieta (1989); Senhora do Destino (2004); O Sétimo Guardião (2018)) e pelos ‘autores novatos’ Virgílio Silva e Zé Dassilva, terminou em 15 de Maio de 2026, com 179 capítulos exibidos entre 2025 e 2026. Quem acompanha o blog sabe que cobrimos a produção dos mangás (os quadrinhos japoneses) e é nesse ínterim que entra as obras da Battan, uma mangaka que veio, primeiramente, do mundo das ilustrações e que está produzindo mangás há pouco mais de 10 anos. Como vou malabarizar esses dois aspectos tão distintos? Pelo ponto em que as duas obras tratam, em partes, da representação masculina, ou melhor, da relação de homens com mulheres.


Para quem não acompanha novelas: A novela “Três Graças” partia da vivência de mulheres que engravidaram muito jovens (na adolescência) e foram abandonadas por seus companheiros, precisando ser mães solo e em um ciclo que acontecia por três vezes: primeiro com a Lígia (Dira Paes), que é mãe da Gerluce (Sophie Charlotte) – a mocinha -, que por sua vez, é a mãe da Joélly (Alana Cabral), que também fica grávida na adolescência. No caso dessas três mulheres, o que tivemos foi o abandono delas por seus parceiros, quando eles as engravidaram.

Uma das chamadas da novela antes de começar a exibição retratava justamente essas três personagens em primeiro plano e seus companheiros atrás, com eles desaparecendo e restando apenas elas, com uma dando apoio à outra (um teaser bárbaro, vale dizer). Logo no começo da novela, também tivemos a cena (ótima) da Gerluce indo com a Joélly no médico e a Gerluce chamando atenção para a quantidade de mulheres grávidas e todas elas, sozinhas. A partir disso, a novela se propunha a explorar as dificuldades da vida de mãe solo, do abandono parental e de como a Joélly – e a Gerluce – lidaria com a gravidez na adolescência – que também ocorrera com a mãe e a avó.

A novela vai decorrendo principalmente da questão de produção de remédios falsificados e a morte por de trás desses remédios, mas o que quero me concentrar aqui, é justamente nas figuras masculinas associadas à essas mulheres. O primeiro que quero falar é do Jorginho Ninja, interpretado pelo (asqueroso) Juliano Cazarré, um ex-detento que engravidou a Gerluce e nunca assumiu a filha, a abandonando e deixando a então parceira sozinha. De início, tinha-se uns rumores de que, na verdade, ele teria abusado da Gerluce, o que não foi para frente na trama, sendo que “””apenas””” ele a abandonou. A trama começa com a Gerluce odiando – com toda razão – o genitor da filha, e a filha aos poucos criando curiosidade com a figura do pai, ainda que com certo receio. O que era para ser uma participação rápida, acaba sendo estendido até o ponto de os autores fazerem uma redenção para o personagem e ele se despedir da trama como um herói que tenta salvar a filha, antes de ser morto pela Samira (Fernanda Vasconcellos), uma das vilãs da novela.

Já no caso da Joélly, ela é uma adolescente de 15 anos e tinha um relacionamento com o Raul (Paulo Mendes) – um jovem adulto -, filho da Arminda (Grazi Massafera). Ele é um jovem delinquente, usuário de drogas, que não trabalha e não faz nada da vida, além de arranjar dívidas com drogas. Ele engravida a Joélly e por conta disso – e do desespero da garota em lidar com uma gravidez, somado ao fato do então namorado estar endividado – acaba sendo aliciada por uma mulher, que chega como quem não quer nada, a vender o bebê dela por alguns milhares de reais e assim, poder ajudar o namorado – que muito rapidamente aceita a venda. O caso desses dois eu acho particularmente muito ruim, porque ok, a Joélly também é responsável pela venda da criança que ela estava gestando, mas ainda assim, era uma adolescente com medo e que não sabia muito o que estava fazendo, agora o Raul não, ele é um adulto que responde plenamente pelos seus atos como o adulto que é. Em um dado momento da trama, os dois se separam e a garota precisa lidar com aquilo tudo sozinha, sem a presença do então parceiro (o que a certa altura, poderia ser visto como um livramento) e a novela não só faz vista grossa para o(s) crime(s) do personagem, como redime ele a partir do nascimento da filha, com o rapaz passando a trabalhar (na empresa do pai) e agindo como alguém responsável… não aguentava esse traste querendo dar uma de bom moço ou querendo dar carteirada sobre crimes cometidos pela Samira quanto à compra e venda de bebês, sendo que ele mesmo vendeu a própria filha. O que considero pior no caso da Joélly é que depois de tudo, eles ainda terminam a novela juntos e com a indicação de que vão se casar. Depois de tudo que ela passou POR CAUSA desse garoto, era para eles pelo menos terminarem separados. Entenda: não é que ele não pudesse estar presente na vida da criança, pelo contrário, ele deve, mas ao juntar os dois no final, depois de tudo que foi retratado, que mensagem isso passa?

Já do lado da Lígia, temos o Joaquim (Marcos Palmeira), que é o homem que dá início a esse ciclo vivenciado geração após geração. Ele é um homem amargo, grosseiro, que nunca assumiu a paternidade da filha e é uma figura que a Gerluce preferia evitar, mas que por desenrolares da trama, precisará ter que lidar com essa pessoa. Ele é outro que os autores vão trabalhando de forma a virar uma figura recorrente na trama, mas deixando o lado “durão” e até passando a mão na cabeça do personagem, de forma que lá no final, a Lígia ainda tem uma recaída com ele. Pelo menos os autores tiveram a decência de não fazer com que eles voltassem a ser um casal no final da trama, mas olha, acho deprimente esses dois voltando a se pegar na reta final da novela.

Veja: o problema não está em ilustrar que pessoas que cometeram erros no passado não possam se arrepender, ter uma segunda chance ou mesmo, tentar se redimir pelos seus atos. Não é nada disso. O problema é que, para uma trama que queria explorar a solidão e o abandono de mulheres por seus parceiros, o que a trama faz é quase que voltar atrás nas suas ações, o que não só é reducionista com as dores e dificuldades que essas mulheres passaram, como cria uma impressão de que elas devem perdoar e até voltar para esses homens que tanto as machucaram. E não somente isso, ao fazer com que elas voltem a esses homens, os autores reduzem e diminuem as histórias delas, que eram para ser histórias de mulheres fortes, independentes, que não estavam em função desses homens.

E se for ver, até a Arminda acaba virando uma escada para o Ferette (Murilo Benício), servindo quase que como um alívio cômico ou chaveirinho do vilão da trama – mas o final dela na novela é antológico! Nesse sentido, embora não goste da personagem, a Lucélia (Daphne Bozaski) acaba sendo uma figura pelo menos diferente das personagens centrais da trama, já mais usou homens a seu favor do que foi colocada como escada por eles ou redimiu algum deles.

“Pronta pro close, Luiz Henrique Rios”

Agora, para quem não conhece/entende de mangás: hoje, dia 25, publicamos um texto recomendando “Kemutai Ane to Zurui Imouto“, mangá Josei – voltado para mulheres – escrito e ilustrado pela Battan e completo em 5 volumes. Na obra, o cerne da narrativa está nas disputas e intrigas entre duas irmãs – a Jun e a Ran – que voltam a ter que conviver após a morte da mãe delas. Porém, quem faz essa trama girar é um homem: o Ritsu. O Ritsu, na adolescência, namorava com a Jun, no entanto, após um determinado evento, passa a namorar a Ran. Eu comentei no perfil do blog no Twitter e Blue Sky sobre como achava interessante a maneira como a Battan representava homens em seus mangás. Não posso afirmar que são todas as obras da mangaka, porque eu não conheço profundamente todas elas, mas em pelo menos três dos seus quatro trabalhos recentes, a mangaka coloca homens no devido lugar que lhes pertence: como cretinos.

Capa francesa do primeiro volume de “Kemutai Ane to Zurui Imouto“, capa nacional do primeiro volume de “Fuja comigo, garota!” capa japonesa do volume #1 de “Soshite Heroine wa Inaku Natta

Embora as intrigas entre a Jun e a Ran existam desde a infância, até aquele momento, o que existia entre as duas eram coisas mais banais e uma disputa pela atenção e reconhecimento da mãe (sobretudo da Ran). É a chegada do Ritsu que faz tudo mudar e as coisas passam para outro patamar, traçando rumos mais complexos, sinuosos e difícil de lidar, tanto uma como a outra.

O que acho fabuloso na representação que a Battan faz aqui, é como no instante que ele aparece em cena, a autora consegue sinalizar um sentimento de perigo que o personagem exala, como na passagem no começo do volume #1, em que o personagem grita a red flag: é um flashback da adolescência da Jun, antes dos dois namorarem e se conhecerem de fato, em que ela o vê fumando em uma praça e ele dá um sorriso para ela. Pode parecer banal, mas a Battan expressa o personagem com muita malícia e gosto muito que ela pinta o personagem como um homem muito cretino e que brinca com a vulnerabilidade das duas irmãs. O que vemos ao longo dos primeiros volumes são as inseguranças das duas personagens femininas e como essas inseguranças servem de abertura para que o Ritsu entre nas duas de maneira diferente. É um trabalho muito interessantes por diversos temas que são abordados, incluindo essas relações familiares, mas também por essa “artesania” que a autora consegue por em demonstrar, mesmo sem texto, o quão pavoroso esse homem consegue ser só pelo desenho.

Já em “Fuja comigo, garota!“, temos a história da Makimura e da Midori. Duas garotas que durante a escola, eram namoradas. Porém, ao fim do Ensino Médio, no simbolismo do fim de uma vida sem preocupações, para a Midori, isso também representou – por pressão social – uma necessidade de dar fim ao relacionamento que ela vinha tendo com a Makimura. Assim, elas terminam o relacionamento que tinham e ficam anos sem se ver. A Makimura trabalha em instituto oftalmológico e em um dia, acaba encontrando a Midori, que se prepara para se casar. A Midori trabalha, tem um noivo e se prepara para construir uma família, ou seja, totalmente dentro do que se cobra e se espera da heteronormatividade. Porém, o que vemos é que ela leva uma vida muito infeliz e profundamente desanimada, não só por ter que viver nesse relacionamento, mas também porque o seu futuro marido – Tazune – é uma pessoa horrível.

Ele é o típico homem que vai dizer as maiores atrocidades na sua cara – e na frente de pessoas que você conhece e se importa – com um sorriso no rosto e com comentários que são disfarçados como piadas ou como conselhos, o que faz com que ele saia como uma pessoa “gentil”, quando tudo que ele quer é te constranger na frente de conhecidos (familiares, amigos…) e diminuir a sua autoestima. Com o Tazune, a Battan consegue ilustrar o típico homem medíocre: um cara comum, que fica frustrado com o próprio fracasso e não o bastante, fica completamente irritado quando mulheres se saem melhor que ele, já que na sua concepção, elas são inferiores. Nesse contexto, a Midori é a vitima perfeita para ele, justamente porque o personagem consegue aproveitar da sua fragilidade e sempre colocar a parceira como alguém abaixo dele, alimentando um ciclo do qual a Midori dificilmente vai conseguir sair, especialmente com uma pressão por matrimônio e com ela estando grávida.

É um relacionamento abusivo por si só, mas ainda piora… Ele abandona a Makimura nos momentos que ela mais precisa, trai ela com outras mulheres, ofende, a constrange e a diminui na frente dos outros para abalar sua autoestima, até chegar ao ponto da violência física. É a partir dessa violência física que a Makimura – que até pouquíssimo tempo, desconhecia esse homem – toma uma atitude que fugir com a Midori para outro lugar, para uma realidade em que a amiga (e ex-namorada) não precise sofrer com aquele traste. A partir disso, o mangá fica muito mais fechado nas duas personagens, mas é muito brutal a maneira como a autora coloca esses temas no mangá, sobretudo no primeiro volume da obra.

– Parece delicioso!! Você não sabia cozinhar, Midori!
– Hehe! Eu me esforcei, é por isso!
– AH NÃO, MAS SEM CHANCE. Midori, você é um completo fracasso na cozinha, hein! Isso daqui, por exemplo, você prepara sempre… Mas é melhor quando eu cozinho
– Bem, então você só precisa fazê-lo, Tazune!
– Espere, Midori! Foi você que queria fazer o jantar… e agora você tá reclamando?
– Ok, ok, me desculpe…
“Hein?”

E por fim, em “Soshite Heroine wa Inaku Natta“, cruzamos a vida de duas mulheres: a Taeko, que uma jovem adulta que foi abandonada pelo namorado há três anos e não consegue esquecê-lo, e a Tora, uma senhora com mais de 50 anos de idade diferença que a Taeko e que, em um caso ligeiramente semelhante, vive na sombra de um amor impossível do passado… Esse encontro vai marcar as duas profundamente, descobrindo que elas possuem muito mais em comum do que aparentam, nascendo assim, uma amizade entre pessoas de gerações tão diferentes e com elas aprendendo a viver por si próprias. Aqui, a autora está interessada em explorar o conceito de Tragédia (sentido literário do termo) a partir da vida de duas mulheres marcadas por amores que não deram certo. As figuras masculinas, portanto, acabam sendo só o ponto de partida e não algo mais presente na trama, mas novamente, a autora evoca a figura do homem como sendo aquele que atravessa a vida das mulheres de forma negativa, a autora, inclusive, ainda pincela sobre os relacionamentos que outras mulheres possuem logo no comecinho da obra, o que vai incrementando mais a concepção das personagens.

Esse é um mangá que li muito pouco ainda, apenas dois capítulos (estou aguardando sair a edição impressa na França), mas novamente, me interessa profundamente a forma como a Battan tem colocado e representado personagens masculinos em seus trabalhos mais recentes. E, lógico, também é muito legal a maneira como a autora tem colocado a figura dessas mulheres em suas obras, tentando se desgarrar de homens, não sendo necessário ter que aturar algum cara que não te faz bem por qualquer razão que seja, só não vale a pena.

– Nós duas somos realmente… heroínas trágicas.
* Desde o dia que nos encontramos, ela parou de dizer que era a mais lamentável.. depois de tudo, nós estávamos no mesmo barco… *
– Quando Hayaru te deixou… você não pareceu muito afetada. Foi o que me deu coragem de partir. Ah… estar sozinha… é realmente ótimo! Não ter que se preocupar com um homem… que felicidade!

Eu uso “cretino” para falar dos homens nesses mangás, mas essa é uma palavra muito leve para descrever os homens que a Battan coloca em cena. O cretinismo é apenas uma característica em comum que todos eles carregam, mas no caso de “Fuja”, temos um abusador, em “Kemutai” temos um cara que brinca com os sentimentos de duas irmãs, e em “Soshite”, temos uma discussão quanto à responsabilidade afetiva (ou a falta dela). E algo que aprecio no trabalho da Battan é que ela está muito interessada na complexidade humana e em como certos sentimentos nascem, então pelo menos nas duas primeiras obras mencionadas, a autora apresenta um background para os personagens masculinos, mas diferente de “Três Graças” que quis redimi-los, aqui, a autora apenas aponta a origem, sem dizer o contrário quanto às ações deles, ou mesmo, tentar passar a mão em suas cabeças.

Apesar dos pesares, ainda acho “Três Graças” uma boa novela, com ótimos momentos, mas cujo uma de suas principais discussões acaba indo pelos ares ao longo da novela. Já os trabalhos da Battan, não cansamos de recomendá-los e sempre torcemos por mais deles aparecendo no Brasil! ^^

* Eu me pergunto qual seria a reação de Ôkawara… se eu lhe disse que mesmo após três anos… eu ainda espero a volta de Hayuru… *