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As intrigas entre duas irmãs em guerra!

No começo de Maio, especificamente, no Dia das Mães, o blog publicou um texto de apresentação e recomendação para “Ohana Holoholo“, mangá Josei da Shino Torino que explorava, dentre outras coisas, as configurações da família, questões de sexualidade (temos os três protagonistas sendo LGBTQIA+), medo e solidão humana… tendo em vista o contexto do dia, eu queria uma obra que explorasse outras possibilidades para além do modelo de família tradicional (mães LGBTQIA+, mães solo) ou aquele modelo endeusado de “mãe perfeita” e “sem erros”, mostrando-as como seres humanos e que, portanto, são passíveis de erro, com ações e comportamentos que nem sempre vão ser positivos. Para este segundo momento, apesar do Dia das Mães já ter passado, eu queria continuar explorando a família e “Kemutai Ane to Zurui Imouto” me pareceu uma escolha bem acertada, ainda mais que ainda temos uma representação de mãe como eu gostaria!

Kemutai Ane to Zurui Imouto” (けむたい姉とずるい妹) é um mangá Josei escrito e ilustrado pela Battan. A obra começou a ser publicada em Agosto de 2021 na revista Kiss (Kodansha). A obra foi publicada até Agosto de 2023, sendo concluído com 5 volumes no total. Em Outubro de 2023, pouco após a conclusão do mangá na Kiss, começou a exibição da adaptação em live-action da obra, que contou com 8 episódios no total. Na França, o mangá foi publicado pela Akata sob o título “Jalouses” (“Invejas” ou “Ciúmes”). O mangá foi publicado primeiramente em formato digital, capítulo por capítulo (Fevereiro/2023 – Agosto/2024) e posteriormente em formato impresso (Novembro/2024 – Julho/2025).

Para falar do mangá no blog, terei como base os dois primeiros volumes da obra!


Acompanhamos aqui a história de duas irmãs, a Ran e a Jun. Desde a infância, elas vivem em disputas pelas mais variadas coisas, desde coisas mais ‘banais’ como itens que eram da Jun e a Ran roubou, a até furada de olho em relacionamentos. Por causa disso, há muito tempo as duas são brigadas e não se veem de forma alguma. A vida as força a se reencontrarem – agora adultas – quando a mãe delas falece, o que as leva a casa deixada pela mãe e uma convivência se instaura a partir disso. Vivendo juntas e ainda brigadas, uma quer se impor frente a outra e não desistir daquilo que desejam. Mas, uma terceira peça estará presente: Ritsu, o marido da Ran que na adolescência, era o namorado da Jun e que a Ran roubou. A convivência entre os três vai se tornando mais tensa a medida que os sentimentos da Jun pelo Ritsu voltam a florescer…

Esta é uma história de duas irmãs em guerra, mas quem vai fazer essa trama girar é o Ritsu. É ele quem primeiro se relaciona com a Jun, depois, vai se envolver com a irmã dela. Embora as intrigas entre elas existam desde a infância, até aquele momento, o que existia entre as duas eram coisas mais banais e uma disputa por atenção – abordarei esse assunto logo mais. É a chegada desse homem que faz tudo mudar e as coisas passam a tomar um rumo mais complexo e difícil de lidar.

Sendo sincero, eu tenho pavor desse homem. No momento que ele aparece em cena, a Battan consegue sinalizar esse sentimento de perigo e tem uma passagem em específico, no começo do volume #1, que o personagem grita a red flag: é um flashback da adolescência da Jun, antes dos dois namorarem e se conhecerem de fato, em que ela o vê fumando em uma praça e ele dá um sorriso para ela. Pode parecer banal, mas a Battan expressa o personagem com muita malícia e gosto muito que ela pinta o personagem como um homem muito cretino e que brinca com a vulnerabilidade das duas irmãs.

A razão principal por de trás das intrigas entre essas irmãs está na mãe delas. A mãe delas tinha um claro amor e predileção pela Jun, isso devido a uma questão envolvendo o pai delas, enquanto que a Ran era a filha menos preterida. E, em uma tentativa de agradar a mãe e conseguir mais da atenção e amor dela, a Ran sempre quis ser como a irmã e ter o que ela tinha, pois tinha a esperança de que talvez a mãe olhasse para ela com mais atenção, cuidado e carinho, o que nunca aconteceu. A Jun, por sua vez, nunca percebeu isso, até por ser a filha querida e já ter muito a ideia de raiva pela irmã mais nova. Isso vai construindo na Jun, raiva pela irmã querer tudo que é dela, ao mesmo tempo que cria uma noção de inferioridade e abandono, que faz com que ela busque a validação daqueles que estão seu redor (e isso é um ponto muito importante quando vamos pensar na relação dela com o Ritsu, desde como ela se estabelece a maneira como ela mantém o relacionamento através dos anos).

E aliás, é neste ponto que entra o que comentei na introdução do post, quando digo que “Kemutai Ane to Zurui Imouto” também traz uma representação de mãe como alguém complexo, falho e uma figura que pode até mesmo ser bem maldita na sua vida. E os conflitos entre as duas se estabelecem primordialmente, porque elas não conseguem conversar de forma franca uma com a outra. O que eu penso é que, enquanto se é criança, é completamente natural você ter essas brigas de irmão e dependendo do que é feito, é igualmente normal querer se afastar. Enquanto adultas, também acho muito compreensível que elas não queiram olhar uma na cara da outra (eu seria assim com meus irmãos), porém, a ausência de diálogo, mesmo que mínimo, dificulta que elas vejam ou ao menos consigam vislumbrar entender de onde nasce os problemas entre elas. É também interessante que, por elas terem tido tipos de criação diferentes a partir da mesma figura e, portanto, terem visões diferente sobre a própria mãe: a Jun é muito mais apegada, enquanto que a Ran se sente quase que aliviada pela mãe ter morrido – e como uma desconhece a outra, a Jun não consegue compreender a forma que a irmã se sente.

– Mas… ela [mamãe] não está mais aqui… Ela se foi, para sempre.
– Você é horrível. Eu te detesto.

A relação entre as irmãs, a maneira como a mãe delas agia e o relacionamento das duas com o Ritsu são os três pilares do mangá e a Battan é EXCELENTE em mostrar a complexidade humana através dessas relações que possuem diferentes graus, sendo que todas elas impactam a vida dos personagens. Por a Ran não ter tido essa presença materna na forma de carinho e cuidado (como a irmã teve), ela se torna uma pessoa que está sempre a procura da validação de um terceiro, não tem confiança em si e é por causa disso, que cai muito facilmente na lábia do Ritsu, que deita e rola em cima da personagem. Ele igualmente vai se aproveitar desse sentimento de frustração e do fato da Jun, apesar da bravata de durona e da couraça que veste, ainda assim, ser facilmente influenciável por ele (isso desde a adolescência), o que faz com que ela tenha recaídas com o homem que ela amava e que ela, infelizmente, não deixou de amar.


Ao mesmo tempo que esse texto de “Kemutai”, eu também estou lançando um outro (pode ser lido aqui) em que eu falo da novela “Três Graças” e as representações masculinas que a Battan fez/faz em três de seus mangás recentes (“Kemutai”, “Fuja comigo, garota!” e “Soshite Heroine wa Inaku Natta”) e como ela coloca homens no que lugar que eles frequentemente ocupam na vida de mulheres: como abusadores, cretinos, agressores… e aqui, ela coloca um homem cretino. Não que os homens representados nos outros dois mangás mencionados não sejam, pelo contrário, mas aqui ela representa o tipo de homem que é um perigo, pois ele pega exatamente na fragilidade para brincar (tenho horror a essa personagem).

Conforme comentado, a Battan tem uma mão ótima para entender e expressar a complexidade humana, mesmo quando estamos falando desses personagens masculinos. E aqui, a autora também está interessada em apresentar um contexto por trás destes homens. Não é que ela queira amenizar ou diminuir as ações deles, mas é sempre aquilo: o ser humano não existe no vácuo, então tudo é fruto de um processo. E esse processo interessa muito a autora. Eu acho que se ela não fizesse isso – pois ela o faz em “Fuja comigo” também – estaria igualmente ótimo, pois é aquilo: a sociedade é feita para os homens e a misoginia impera. As vezes, eles crescem se achando no direito de serem malditos com outras mulheres, por serem mulheres e portanto, inferiores a eles. Não ligaria nem um pouco em ver algo nesse sentido sendo apresentado pela autora.

Não muito tempo atrás, a Battan comentou no Twitter dela que “Kemutai” foi uma série que ela teve muita dificuldade para achar o tom e saber o caminho que ela queria tomar para a obra e dá para sentir isso lendo o mangá, especialmente no segundo volume. Por ser um mangá que aborda questões de adultério, definitivamente não vai agradar todo mundo, mas esta é uma série que todos deveriam ler.


Nós falamos mais profundamente sobre a carreira da Battan no post de recomendação de “Kakeochi Girl” (no Brasil: “Fuja comigo, garota!“), mas em resumo: ela veio do mundo das ilustrações, tendo migrado para a produção dos mangás há pouco mais de 10 anos. A autora já tinha uma fama/popularidade, mas vinha de trabalhos, até então, muito pequenos ou de pouca notoriedade. É “Fuja comigo, garota!” que consolida a mangaka e abre horizontes mais amplos e vastos para ela dentro e fora do Japão. Tanto que, após “Fuja comigo, garota!”, ela conseguiu engrenar trabalhos mais longos, com “Kemutai” tendo 5 volumes no total e atualmente, publica “Fatale Girl” na revista Kiss.

Daquele post que lançamos para cá, queríamos destacar duas obras dela: o já citado no texto “Soshite Heroine wa Inaku Natta” (そしてヒロインはいなくなった), um mangá que ela começou a publicar em 2021 Torch, da editora Leed, mas que acabou ficando alguns anos parados, até que ela rompe com a Leed e retoma o mangá em 2024 pela Futabasha. O mangá foi publicado na Web Action, mas os volumes foram compilados sob o selo da revista JOUR (Josei). A obra foi publicada até o começo de 2025, sendo concluído com 4 volumes. Nesse mangá, a autora fala sobre duas mulheres com uma grande diferença de idade, mas que são unidas pela questão de ambas terem sido abandonadas pelo homem que elas amavam.

E o outro mangá é justamente “Fatale Game” (ファタールゲーム), o mais novo Yuri da mangaka, em que a autora trabalha com o arquétipo de femme fatale (‘mulher fatal’) através de uma mangaka com problemas criativos, lidando com sua mais nova editora. A obra começou a ser publicada em Junho de 2025, na edição de Julho/2025 da revista Kiss (Kodansha). Atualmente, conta com 2 volumes publicados e o terceiro será lançado em Junho.

Capas japonesas dos volumes #1 e #4 de “Soshite Heroine wa Inaku Natta” e dos volumes #1 e #3 de “Fatale Game

Além disso, sempre muito bonito ver o trabalho artístico da Battan em suas obras. Ao longo dos anos, a composição de páginas dela tem ficado cada vez mais bonita e impressionante. Tem sacadas de composição, montagem e até de posição dos personagens que é deslumbrante. Aqui, a autora tem usado muito a fumaça do cigarro e fitas como elemento para guiar o leitor na apreciação da página e na composição dos sentimentos (como se sentem envolvidos e presos).


“Kemutai Ane to Zurui Imouto” é um mangá muito interessante, que aborda vários assuntos da complexidade humana como sentimentos de solidão, insegurança e inveja. Além disso, a autora segue trabalhando os efeitos causados por homens na vida de mulheres e algo que vem se tornando muito recorrente na vida das pessoas: a falta de diálogo. É um ótimo mangá!

Fora que, como vira e mexe estamos falando: essa série de textos tem como proposta mostrar a diversidade do mangá feminino, como muito além de romances (e esta não é uma obra de romance) e aqui, temos um Josei falando basicamente de intrigas familiares, o que não é muito comum de se ver no Ocidente. Como dizemos: viva à demografia feminina!