Shoujo de Fantasia? Temos também!

Chegamos ao mês de Abril (extremamente atrasado com essa postagem, diga-se de passagem). Vamos a nossa postagem de apresentação e recomendação de mangás! Repassando informações dessa série de textos: a ideia é apresentar, indicar e recomendar leituras de mangás Shoujo, Josei, BL e GL/Yuri, com o propósito de trazer visibilidade à obras dessas demografias e gêneros, e assim, quem sabe, chamar atenção de alguma editora que venha a publicar alguma obra dessa série no Brasil (improvável, mas pelo menos tentamos). Começamos em Agosto do ano passado com “Yubisaki to Renren” e seguimos assim mês a mês (com exceção de Fevereiro). Em Abril, o mangá da vez é “Les Chroniques d’Azfaréo”^^.

“Les Chroniques d’Azfaréo” é um mangá escrito e ilustrado por Shiki Chitose. A obra nasceu como um one-shot na edição 21 da The Hana to Yume (Hakusensha) em Outubro de 2015, antes de ser escolhido para uma curta serialização (4 capítulos) que começou na 4ª edição da The Hana to Yume (revista suplementar da “Hana to Yume”) em 20 de Janeiro de 2016. Devido ao sucesso, o mangá ao invés de ser lançado como volume único, foi publicado como volume #1 e passou a ser serializado na Hana to Yume – a revista principal. Foi publicada no Japão com o título “Azufareo no Sobayounin” (蒼竜の側用人). O mangá foi lançado na revista até sua conclusão em 2019, rendendo um total de 9 volumes + volume 0. “Les Chroniques” é um dos primeiros trabalhos solo da autora e o maior de sua carreira até então!

Volume 22 da Hana to Yume, lançada em 20 de Outubro de 2018

Como de praxe, estarei usando uma edição internacional para tecer meus comentários e no caso, estarei utilizando o 1º volume da edição francesa para tal. Sempre muito importante ressaltar que a intenção aqui é apenas introduzir os leitores a história, e não haverá spoilers da série.


Acredito que antes de começar a falar do mangá em si, considero de muita importância trazer o fato da obra ser um mangá Shoujo e ter uma temática fantástica. É muito comum ser dito que “Shoujos são apenas romances escolares”, que “não há diversidade na demografia” e que por isso, “Shoujo é ruim”. Há um estereótipo construído fortemente em cima disso, seja pelo próprio público, ou sendo reforçado pelas editoras de mangás (a nível nacional e internacional). De fato, o mangá Shoujo conversa muito com o romance, mas não é a exclusividade da demografia, tal qual um Shounen trata de outros assuntos além de “porradinha”. O Shoujo incrementa desde temas sociais e pertinentes, a mundos de fantasia, ação e outros assuntos variados! Não é à toa que o anúncio da obra na França veio como Celebração da Diversidade do Mangá Shoujo (La Diversité du Shôjo Manga). Importante que tenhamos a mostra mangás que tragam temas diversos, até por esse lado de trabalho na desconstrução dessa imagem que se tem da demografia. E bem, não é como se o “romance escolar” fosse inferior, como os otakus (fãs de Shounen) amam dizer. Sabemos que o “Shoujo escolar” não é o problema desse pessoal, vide que os mesmos consomem inúmeros shounens de romance que são ‘todos iguais’ basicamente e ninguém reclama. É outra questão, mas deixemos isso de lado e vamos voltar à pauta principal.

Nos rumores que circulam em Azfareo, dizem que o reinado é protegido por um Dragão Azul e este é responsável pela prosperidade do Reino. É a benção do Dragão que garante períodos de chuva, boas colheitas e a prosperidade do povo. Porém algo não vai bem. Já faz algum tempo que não chove naquelas terras e o que equilíbrio está ameaçado. Será que o poder do Dragão está enfraquecido, ou será algo além?

Na história conhecemos a Rukul, uma garota vinda de uma espécie de família de “Donzelas Divinas” e que foi contratada para cuidar do Rei Dragão, Julius, sendo encarregada da limpeza de suas escamas mortas e de sua alimentação. Acontece que a benção do Dragão é acompanhada de uma maldição em que o Rei é fadado a se transformar em um Dragão e ninguém de fora do palácio sabe que o Rei possui esta forma. A população do reinado e de territórios vizinhos acreditam na benção do Dragão, mas que seu rei ainda possui a aparência de um humano.

“Estrondo que fez a terra tremer… Olhos dourados… Escamas azuis prateadas… Garras afiadas…”

Nesse cenário, começamos a conhecer mais dos personagens. Julius é absurdamente mal humorado, amargo e está sempre estressado. Lidar com ele inicialmente é muito difícil para a Rukul, especialmente pelo seu senso de inferioridade causado por questões familiares envolvendo sua irmã gêmea que parece ter recebido a maior parte da ‘benção das donzelas’, não sendo boa em diversas coisas. Como é um trabalho novo e somado ao quão impaciente o seu patrão é, ela comete erros, se machuca, ferindo o próprio Dragão, o que resulta em um quase desastre para o primeiro encontro dos dois. O que acaba mostrando ser um diferencial para Rukul é ela não fugir logo que encontra o Julius, o que vinha acontecendo com todas as que foram contratadas para cuidar dele anteriormente. Por isso, há um certo interesse do personagem em ver até onde ela vai. Seu incômodo com ela se machucar aparenta ir desde uma questão de limpeza (sangue dela caindo nele), até uma suposta preocupação atrelado ao fato dela ter coragem o bastante para não fugir dele assim que o conheceu.

“Meu mestre, eu venho de uma linhagem de sacerdotisas da cidade de Kadias. Eu me chamo Rukul. Por favor, desculpe minha presença… É para cuidar de você que eu estou aqui.”

Esse primeiro volume acaba por não ser tão bom. Acontece que, como comentei lá em cima, a história foi projetada inicialmente como um capítulo único, depois um volume apenas, para só em seguida decidirem tornar a obra uma série longa. A autora precisava criar pontos de conclusão para a narrativa que estava sendo contada ali e fica muito claro o quão apressado a trama é em alguns momentos, sendo até brusca (em terminar) em outras situações. A história contada ao longo desse volume acaba sendo prejudicada. As resoluções são apressadas, e por vezes, até confusas, como por exemplo, a trama política envolvendo um golpe que foi contada no 1º capítulo. Não há muito tempo para introduzir os personagens, consolidar a dinâmica entre eles, apresentar o background da história e ainda fazer um plot por de trás. No capítulo 2 parece haver uma lacuna gigantesca em sua narrativa. Personagens aparecem repentinamente e você meio que pega o bonde andando.

Ainda assim, mesmo com essa minha impressão um pouco negativa do volume, não é como se fosse um desastre completo. Apesar das falhas, o volume começa a melhorar no capítulo 4, onde provavelmente a autora já tinha uma confirmação de que a história iria continuar. Há uma mudança completa. Eu fui um pouco mais além do volume 1 e li um pouquinho do volume 2, e olha, é bem diferente. O ritmo melhora consideravelmente, novas ideias e conceitos começam a aparecer, e a partir dali que a obra passa a mostrar a que veio, com maior liberdade para contar o que quer, sem preocupação com um término iminente.

Enfim, voltando a história, vejo potencial nela. A autora comentou que sempre desejou fazer uma história de fantasia, principalmente com dragões e no mundo criado por ela, há elementos interessantes. A própria relação do bem-estar do dragão com o clima. Se o Julius está estressado ou nervoso, pode chover demais ou até mesmo ficar em longos períodos de seca. Ele estar com boa saúde permite que não só as colheitas prosperem, como um tipo específico de flor cresça e floresça. Para além disso, há ainda uma relação do dragão com os reinados ao redor. A crença do poder do dragão não se limita a apenas Azfareo e há um aspecto de crença fr uma benção se conseguir ver o Julius, já que ele é a figura abençoada pelo poder dos dragões. E além de tudo isso, ainda há a questão do que poderia vir a quebrar essa maldição. São detalhes que tornam o cenário onde tudo se passa bem mais interessante e instigante, te fazendo querer ver mais ^^.

“Esta música estranha… ressoou em toda a cidade.”
“Cabelo azul prateado…”

Dos personagens, eu confesso que achei que a Rukul seria uma protagonista mais “passiva”, em especial com o que as pessoas ao redor do Dragão falavam dela, porém não é bem isso que acontece. Por ser uma novata no local, ela tem que se submeter a algumas ordens. O próprio Dragão era bem ríspido com a personagem, mas vai mudando e tem uma coisa legal que ocorre, ao qual não posso dizer o que é, mas demonstra o nível de confiança que a protagonista consegue e é legal ver como isso será estabelecido futuramente e o que vai mudar nos rumos do reinado. Já da parte do Julius, como eu comentei, ele é bem amargo e mal humorado. Trata a protagonista bem mal, mas também não demora muito a começar a mudar. A Rukul o interessa e ele começa a se perguntar o porquê se sente de uma maneira X em situações envolvendo a protagonista. Nos momentos de comédia, a autora acerta muito no tom e é agradável de maneira geral.


Bom, é isso. “Les Chroniques d’Azfaréo” é um mangá Shoujo de fantasia que apresenta personagens interessantes, com uma boa dinâmica, com um mundo que aparenta ser bem atrativo e cativante. Não é um mangá perfeito, tem seus problemas estruturais, principalmente no começo, mas não descarto de forma alguma seu excelente potencial considerando o todo da série. Essas postagens de recomendação não é só para trazer mangás impecáveis, mas sim dar dicas de boas leituras para desbravar no mundão do Shoujosei, BL e Yuri. Espero que tenham gostado de mais este texto!

Por fim, aqui você pode deixar a sua sugestão para a NewPOP no Cantinho de Sugestões (que também está fixado no Twitter oficial deles). Para a JBC, peça no Indique JBC. E para pedir para a Panini ou Devir, mande uma mensagem por DM no Instagram das editoras. Abaixo, deixaremos listados todos os posts dessa série publicados até então, além de um vídeo mostrando a edição francesa do mangá em maiores detalhes.

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