"Se você não estivesse lá, este mundo seria imperfeito..."

“Se você não estivesse lá, este mundo seria imperfeito…”

Olá meus queridos e amados!!! Chegamos em Março e está na hora da nossa 6ª postagem de apresentação! Para quem ainda não conhece nossa série, vamos ao resumo: a ideia dessa série de postagem é apresentar mangás das demografias Shoujo, Josei, BL e Yuri/GL (que são demografias e gêneros que são “excluídos” no mercado brasileiro), com a finalidade de dar visibilidade e tentar chamar atenção das editoras brasileiras, além de servir como recomendação para quem não conhece o título.

Alguns podem estar estranhando essa postagem de apresentação para “Perfect World” já que a ideia inicial é comentar de obras que não foram anunciadas no Brasil, porém “Perfect World” já foi anunciado no Brasil pela NewPOP (SIM!!!). Vocês não estão lendo errado!! A obra estava nos meus planos de comentar no blog e tinha até comprado a edição francesa muito antes do anúncio. Mas pensei ‘Por que descartar assim’? Então essa postagem será um recurso de divulgação enquanto o mangá não for lançado de dato. A ideia então é te mostrar um pouco do começo da obra, apresentar suas qualidades e tentar convencer quem não conhece a série a comprar ao menos o volume 1 ^^.

Capa do 1º volume da edição francesa

“Perfect World” (パーフェクトワールド) é um mangá Josei que foi escrito e ilustrado por Rie Aruga e começou a ser publicada no Japão em Fevereiro de 2014 na revista Kiss, da editora Kodansha. O mangá foi publicado por lá até seu término ocorrido na edição de Março/2021 da revista, lançada em 25 de Janeiro daquele ano. O mangá foi concluído em 12 volumes. Em 2019, a obra ganhou o Prêmio no Kodansha Manga Awards na categoria de Melhor Shoujo (não existe uma categoria para Joseis na premiação). Uma adaptação para filme live action e dorama (em 10 episódios) foram lançadas em 2018 e 2019, respectivamente.

Capa da Kiss de Fevereiro/2018, lançada em Dezembro de 2017

Como eu disse, para falar do mangá aqui no blog, estarei usando a edição francesa da obra, mais especificamente, o volume #1. Sempre reforçando que a intenção desses posts é apenas dar uma introdução as obras comentadas e não teremos spoilers aqui. O objetivo é apenas te instigar a conhecer o mangá ^^.


Na história de “Perfect World”, conhecemos a Kanawa, uma mulher de 26 anos, formada em design de interiores e que trabalha com uma empresa de decorações. Em uma festa promovida pela empresa que trabalha, ela encontra o Ayukawa, seu primeiro amor da época do ensino médio. No curso dessa festa, ela descobre que o Ayukawa agora usa uma cadeira de rodas, sendo um choque para a personagem. Daquele dia em diante, eles passam a ter mais contato, com a Kanawa voltando a se apaixonar por ele, ao mesmo tempo que vai conhecendo mais do “novo Ayukawa” e expandindo sua visão sobre pessoas com deficiência (PCD).

“Ayukawa ?!” | “Sim ?” | “Sou eu, Tsugumi Kanawa, Estávamos juntos no Ensino Médio. Eu era membro do clube de arte e eu trabalhei na biblioteca…” | “Eu me chamo Tsugumi Kanawa. Neste momento, eu trabalho para uma empresa de decoração de interiores chamada “Cranberries”. E durante uma festa profissional… Que eu reencontrei meu primeiro amor” | “Kanawa ?!”

Para falar de Perfect World, eu vou focar mais no aspecto de impacto social. Acredito que para uma apresentação da obra, uma análise “distante”, observando os temas sociais que permeiam o mangá, seriam o mais interessante para o público dado a temática da série. Nós vemos o mangá majoritariamente do ponto de vista da Kanawa, alternando em alguns momentos com o Ayukawa e personagens secundários que aparecem ao longo do volume. E pela visão da personagem e ela como sendo uma pessoa que tinha pouco interesse em saber a realidade de PCDs antes de ter conhecimento que o Ayukawa tinha adquirido uma deficiência, ela reproduz muitos pensamentos equivocados e que “são comuns” se levar em consideração a maneira como a sociedade os enxerga.

A obra logo de cara explora algumas dificuldades impostas pela sociedade. O Ayukawa é um arquiteto e está participando de um concurso para a construção de um espaço de lazer dedicado aos cidadãos. Após alguns problemas, eles ganham o concurso, mas na reunião envolvendo a apresentação e combinação de maiores detalhes, os financiadores impõem que se remova a rampa, sendo uma parte desnecessária e que demandaria mais dinheiro para atender uma minoria da população. Sem entrar em muitos detalhes, porém um pouco mais para frente no mangá, os personagens vão visitar um templo e não há rampas acessíveis para quem usa cadeira de rodas. Tiveram que tomar um caminho alternativo que também não era dos mais apropriados. São apenas amostragens de como os ambientes são excludentes e principalmente, não são feitos para essas pessoas. Como mencionei acima, o Ayukawa tentou colocar uma rampa no projeto pensando em pessoas como ele e o que foi dito é que era desnecessária.

“Sem necessidade… de rampa de acesso, a escada atual é suficiente.” | “Mas mesmo um pequeno degrau pode atrapalhar o acesso aos deficientes…” | “Sr. Ayukawa, eu entendo sua sugestão… Mas do seu lado, compreenda que é difícil adaptar nossos locais às pessoas em cadeiras de rodas… Especialmente se eles vêm apenas uma vez por mês…”

Na resenha de “A Voz do Silêncio” #1 comento sobre como a instituição escolar não se importa com o bullying enquanto isso não a afeta a escola, sendo ainda pior naquele cenário, pois se tratava de uma garota surda. A grande verdade é que qualquer minoria vai ser excluída e torná-los invisíveis para a maioria. Essas informações são importantes e mostram como PCDs são vistos: incômodos. Nesse interim, é importante dizer que a exclusão está atrelada a você ou de um grupo de pessoas serem vistas como um problema. A Nishimiya (A Voz do Silêncio) era alvo de bullying, porque era diferente, incomodava os colegas por não conseguir se comunicar e não haver qualquer incentivo da escola no ensinamento da língua de sinais. Em Perfect World, esse incômodo é inicialmente representado pelos olhares. A cadeira de rodas ocupa um espaço maior, então pedir licença para passar, acabar esbarrando nas pessoas ao redor, vai provocando a exclusão social de maneira não verbal, mas sendo naturalizada pelo ambiente. Em nenhum momento é expressado que ele não é bem-vindo, mas está explícito visualmente que o personagem não deveria estar ali.

As amostragens desse volume não entram apenas no campo de construções e ambientes hostis. Entram também nesse aspecto as pessoas, levando em consideração um aspecto “mais baixo” em questão de camada social (que nada mais é do que reflexo de construção social) e está atrelado também à questão da pena. As histórias de superação comumente narradas na TV, a visão de que PCDs são pobres coitados, que sempre(!) necessitam de ajuda, esses arquétipos são diminuições da capacidade dessas pessoas de viverem e entram no campo de desvio de foco: ao colocar histórias de superação envolvendo pessoas com deficiência, se cria a imagem de que elas não precisam de acessibilidade, pois podem sempre se superar. Assim o governo não precisa atuar para construir meios que tornem a vida dessas pessoas equitativas. Sem esquecer que tem um outro aspecto, este mais envolto de ‘pessoas comuns’ em que se usa PCDs como palanque para se autopromover ou depreciação de outros. Falas como “se ATÉ ele (PCD) consegue, por que você não? Basta querer”. Nas duas situações, a pessoa com deficiência é tida como inferior.

Eu vejo “Perfect World” como um grande convite para nos fazer pensar sobre como nós enxergamos as pessoas com deficiência e o modo que a sociedade trata essas pessoas. Não vou entrar em muitos detalhes aqui, pois o intuito do post é mais apresentar o mangá (aguardem a resenha do 1º volume brasileiro no futuro), mas o mangá traz muito da percepção da Kanawa e graças a isso, nós vemos preconceitos intrínsecos nela e que o maior contato com o Ayukawa a faz perceber como tem visões erradas sobre PDCs e a própria passa por um processo de desconstrução, por assim dizer. Quando nós temos uma obra de outro país, precisamos tomar muito cuidado o como vemos aquela história. Por se tratar de um enredo que se passa no Japão, é claro que os temas abordados são reflexos diretos daquela sociedade. Porém não é como se aqueles problemas fossem exclusivos do país nipônico. É preciso ter um olhar e percepção de que aqueles problemas podem e muito provavelmente acontecem em outros países. Basta olhar ao redor. Quantas calçadas são plenamente estruturadas para um cadeirante? Quantos ambientes, locais, lojas, prédios, praças, estações de trem, metrô e terminais são acessíveis para essas pessoas? Não só para cadeirantes, como para qualquer tipo de deficiência, em maior ou menor grau. Muito tempo atrás, o Jornal local daqui da região, exibiu uma reportagem sobre como estações da CPTM não são acessíveis, tendo pouca ou nenhuma acessibilidade. Isso nada mais do que uma forma de exclusão, de diminuição, ignoraando um problema por tratar como irrelevante, afinal, não afeta uma maioria. Os ambientes são hostis e Perfect World traz muito desse olhar. Obras como essa são importantes para nos fazer perceber, parar e refletir sobre a forma que estamos tratando (ou até ignorando) esses temas.

Nesse começo da obra, a autora (supostamente) comete alguns deslizes com falas dos personagens e algumas visões um tanto duvidosas, vide a questão da suposta impossibilidade de formar uma família. Não acho que essas questões diminuam o peso da obra e seu grau de importância. Creio que esses deslizes aconteçam mais nesse começo (há de se lembrar que essa é apenas o 2º mangá dela) e que ela vá evoluindo ao longo da publicação. Apesar de ter dito isso, ainda acredito que parte desses dialogos mais incômodos são realmente reflexos do pensamento errado dos personagens, porque são mais intrínsecos na sociedade e que vão ser trabalhados, desenvolvidos e desconstruídos ao longo do mangá. Ainda mais que a autora contou com a ajuda do Kazuo Abe, um PCD que foi o consultor dela ao longo da publicação do mangá no Japão para evitar abordagens errôneas. É evidente que ela teve um cuidado e foi guiada para não cometer erros grotescos. Eu prefiro pontuar essas situações aqui para que se tenha um preparo prévio e que isso não acabe gerando uma impressão negativa do mangá quando ele for lançado.

“Itsuki Ayukawa foi… meu primeiro amor. Quando eu o reencontrei, anos mais tarde… ele estava em uma cadeira de rodas… No entanto, meus velhos sentimentos de repente ressurgiram.”

Ainda no 1º somos apresentados a outro personagem que teve a deficiência adquirida por causa de um acidente, e tal qual o Ayukawa, ele começa a passar por um processo de auto-aceitação. A obra traz uma visão interessante sobre não necessariamente se aceitar 100%, dado que não é uma condição fácil de se estar. São casos complexos e que variam de pessoa para pessoa, da maneira que cada um consegue lidar e absorver, além do tempo que isso leva. Os personagens são muito bem construídos, cada um com suas nuances e dificuldades. O Ayukawa ainda sofre com dores, tem medos e receios de se relacionar novamente, além de complexos de inferioridade. Este volume inicial consegue fechar um pequeno ato envolvendo os dois protagonistas e marca um novo ponto para a série a partir dali.

Esta sensação… eu nunca vou esquecer! ” | “Bravo!! Acabou de chegar e já marcou?! Sem dúvidas você ainda é capitão!! | “Bravo, Haruto!! Você é o melhor!!”

Perfect World é um título com muito potencial, que a autora toma cuidado e trabalha com responsabilidade sobre o que quer tratar e falar. E claro, não posso deixar de expressar minha extrema felicidade em finalmente poder tê-lo em mãos daqui alguns meses com a edição brasileira. Espero MUITO que essa postagem tenha os instigado a ao menos tentar adquirir o volume #1. Ainda não há data para o início da publicação nacional, mas não deve demorar muito. No demais, deixo vocês com o vídeo mostrando a edição francesa. Enquanto esperamos, vamos sonhando com a edição brasileira ^^.


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