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Shino Torino explora as configurações da família.

É Dia das Mães e para a ocasião, pensamos em recomendar uma obra que explorasse a maternidade, mas que também trouxessem aspectos diferentes do que é ser mãe ou da vivência dessas mulheres. Com isso, queríamos chegar em um trabalho que não mostrasse o modelo de “família tradicional” (pai, mãe e filho(s)). Um que eu logo pensei foi “Kimi ni Aetara Nante Iou“, volume único da Youko Nemu, porém, ele não foi publicado na França – e sempre recomendamos uma obra com base em alguma edição internacional – e eu não tinha a edição espanhola (Arechi Manga) (um dia a gente fala dele no blog). No entanto, outra opção que logo me surgiu foi “Ohana Holoholo“, da Shino Torino e é dele que falaremos hoje ^^

Ohana Holoholo” (オハナホロホロ) é um mangá Josei escrito e ilustrado pela Shino Torino. A obra começou a ser publicada em Outubro de 2008 na revista FEEL YOUNG, da editora Shodensha. A obra foi publicada até ser concluída em Dezembro de 2013, rendendo 6 volumes no total. O mangá também marcou a estreia da Shino Torino como mangaka, que até então, trabalhava como assistente da Chica Umino (Sangatsu no Lion) sob o pseudônimo “Haretan”. Na França, a obra foi publicada entre Maio de 2020 e Outubro de 2021 pela Akata com o título “Autour d’elles”.

Para escrever este post, teremos como base o primeiro volume da edição francesa 🙂


“Ohana Holoholo” parte de quatro figuras centrais: duas delas, são a Maya e a Michiru, amigas de infância e que há alguns anos atrás, na universidade, eram um casal. Elas tinham um relacionamento e, no entanto, um dia, a Michiru simplesmente foi embora… 5 anos depois, Michiru está de volta e como mãe solteira! As duas, então, passam a viver juntas, porém, apenas como colegas e amigas de apartamento, como forma de dividir as despesas, ao mesmo tempo que a Maya ajuda na criação do filho da Michiru. O seu filho se chama Yûta e é a terceira figura importante do mangá. O quarteto é completado com o Nico, vizinho das duas e que tem grande afeto pelo Yûta, sendo que ele ajuda, também, na criação da criança. Temos aqui, a história de três pessoas adultas que, de uma forma ou de outra, estão conectadas e que juntas, constituem uma família e contribuem para a criação, desenvolvimento e felicidade de uma criança.

Este é sobre pessoas solitárias. Ao longo do mangá, vemos que a Michiru se sente muito solitária e como forma de preencher essa solidão, se projeta buscando a companhia carnal de outras pessoas. Isso acontecia, inclusive, enquanto a Michiru ainda estava em um relacionamento com a Maya. Quando a Michiru foi embora, elas ainda estavam em um relacionamento – e eu gosto que na edição francesa, temos o uso de “dispparu”, que significa “desapareceu”, mas é usado normalmente no sentido de morrer, então o seu desaparecimento é, também, uma alusão da morte do sentimento. A Michiru, por sua vez, não tem uma renda muito estável, não tem condições de cuidar do filho sozinha, não tem uma rede de apoio, já que não se dá bem com sua mãe e o marido faleceu. A Maya, mesmo com toda a dor de ter sido abandonada de forma tão repentina, não consegue dizer não para a amiga e passa a ajudá-la como pode. O apartamento que elas vivem surge como sugestão da própria Maya, para que ela pudesse ficar próxima da amiga de novo. Claro, tudo é pensado também no bem-estar no Yûta, mas é também como parte de conforto da Maya em ter a Michiru por perto novamente, ainda que ela mesma tenha colocado que não quer um relacionamento amoroso – ou mesmo, carnal – com ela.

Eu gosto como a Shino Torino coloca em cena personagens que são falhos, com claros desvios de caráter e até de cretinismo na maneira como eles se relacionam uns com os outros, sobretudo em termos românticos – traições, por exemplo. São personagens muito humanos e, portanto, muito complexos, especialmente nessa questão de suas relações interpessoais. A Michiru não sabe muito bem como lidar com o filho em diversos momentos e acaba se passando, mas lá está a Maya e o Nico como rede de apoio e que conforta não só a criança em momentos difíceis, como também a própria Michiru. É muito aquela coisa de que não existe um manual de como ser um bom pai ou uma boa mãe, é bem “tentativa e erro” e nem sempre vamos acertar, por isso é essencial ter com quem contar, porque não é sempre que vamos estar bem para lidar com uma vida – e em se tratando de mulher/mãe, a pressão e a cobrança é muito maior.

– Eu sabia que você viria
– Ei, Maya… Eu posso te beijar?
– Não
– Você não é legal!!
– Desta vez, nada disso neste apartamento. Foi isso que acordamos, não?

Se a Maya e a Michiru são solitárias, o Nico não é nem um pouco diferente. Ele é inicialmente apresentado como uma figura mais “distante”, no sentido de parecer ser apenas um vizinho, sem uma grande conexão entre elas, porém, a certa altura do volume, vamos descobrir uma coisa que conecta mais profundamente esses personagens. Tem um capítulo ali para o meio do volume que é maravilhoso, com uma carga dramática muito palpável, no desespero que o Nico sente e o temor (pavor) dele de perder alguém novamente, no sentimento de se ver só ou pior, de ser abandonado novamente, de como a vida pode ser efêmera e uma pessoa que se ama, em um dia, estar bem ali do seu lado e no outro, do nada, não estar mais lá… são sentimentos que a Shino Torino consegue colocar de forma magistral (em especial) nesse capítulo. E nisso tudo, o Yûta não só serve como conexão de todos eles, mas também como uma figura de conforto, já que traz a pureza e inocência da infância, como um alívio dos problemas do dia, sobretudo para o Nico.

Acompanhamos o dia a dia dessas três figuras adultas, com o Yûta servindo como uma grande ponte de conexão. Ele vai ser o fio condutor em muitas situações, ao mesmo tempo que está ali como um ponto de descontração em meio aos momentos dramáticos, pois ele é uma criança absolutamente adorável! Deveria ser crime ter crianças TÃO fofas sendo retratadas. Fora que é muito bonita a relação que os três possuem com a criança. A Maya funciona como uma figura mais presente na vida do Yûta, levando ele na escola, mas a Michiru se apega muito ao filho nesse meio de solidão que sente, bem como o Nico se preocupa e se importa muito com aquela criança. A maneira como a autora encerra o volume é muito linda e ilustra perfeitamente a relação que eles possuem com a criança.

“Nada como o próprio lar”

*Yû dormindo depois de toda a confusão no Shopping (capítulo 3) e no final do capítulo 2, os 4 de mãos dadas*

Como eu disse, as figuras adultas são retratadas como falhas e com uma série de problemas, incluindo a dificuldade de se expressar e como realmente se sentem uns com os outros, e não é como se a autora defendesse esses personagens com unhas e dentes, pelo contrário, ela coloca tudo como algo que existe e acontece na realidade. Ninguém é santo e não deve servir de régua moral. O que essas pessoas fazem, a forma como agem e os danos que causam são perfeitamente pontuados e discutidos, de forma até muito intimista, como por exemplo, em questão de sentir ciúmes ou se sentir no direito de cobrar por atitudes, sendo muito hipócrita no processo. Ela está sempre pondo esses sentimentos e batendo de frente com eles. Alguns são discutidos já aqui, outros, são colocados aqui para explorar futuramente, ao longo dos próximos volumes.

Existe uma série de coisas muito interessantes neste primeiro volume, mas uma das que acho simbólicas e bonitas é sobre como o mangá conversa sobre configurações de família. Eles não constituem uma família tradicional, seja porque ela é formada por uma mãe solteira, a amiga de infância – e ex-namorada da mencionada anteriormente – e o vizinho delas, todos cuidando de uma criança, mas também porque os 3 adultos são LGBTQIA+. Ao longo do mangá, dá a se entender que todos eles são bissexuais, que já tiveram/tem relacionamentos com pessoas do mesmo sexo e o oposto em diferentes momentos de suas vidas (passado E presente). É um mangá, para além da questão familiar, do que é ser mãe e até do que é ser LGBTQIA+, é um mangá que é sobre a vivência de pessoas queer e isso é uma das coisas mais bonitas da obra!


“Ohana Holoholo” marcou a grande estreia da Shino Torino como mangaka e que belíssima estreia! Após a conclusão da série, em 2014 ela começa a publicar “Boy Skirt” na FEEL YOUNG. A obra viria a ser concluída em 2015, rendendo um volume único. Esse trabalho é sobre um garoto exemplar de 17 anos que decide usar saia pela primeira vez, causando incômodo naqueles ao seu redor. Ainda em 2014, ela publicou a coletânea de contos “Tegami Monogatari“, as histórias giram em torno de cartas, seus capítulos foram publicados na Jump Kai (Shueisha), mas o volume impresso foi lançado pela Shodensha, no selo da FEEL YOUNG. Em 2015, a autora começa uma nova série na FEEL YOUNG: “Mugi no Wakusei“, mangá de ficção científica, sobre um padeiro que acolhe um pequeno alienígena e passam a viver como irmãos. O mangá foi publicado até 2018, quando foi concluído com 3 volumes. No ano de 2016, a autora lança “Asterisk” na revista onBLUE, marcando como seu primeiro mangá BL! Na obra, temos um universitário atormentado pelo amor que sente por um jovem bailarino, até o dia em que este pede para eles transarem. Por fim, entre 2020 e 2025, a autora publicou “egg – Watashi, Anata no Kodomo desu.“, seu primeiro mangá Seinen. A obra é completa em 2 volumes, foi publicada na revista Comic BEAM (Enterbrain) e a trama parte da pergunta: “Como a ‘família’ se transformará em um mundo onde a doação de óvulos e espermatozoides por terceiros, mediante pagamento, foi legalizada em 20XX?“. Na obra, a autora retoma o tema “família” e as suas configurações.

Capas japonesas de: “Boy Skirt“, “Tegami Monogatari“, “Mugi no Wakusei” #1, “Asterisk” e os dois volumes de “egg – Watashi, Anata no Kodomo desu.“.

Dois temas são muito recorrentes nas produções da Shino Torino: a família e a comunidade LGBTQIA+. A autora é muito ativa nos seus perfis nas redes sociais na divulgação de material que reivindica os direitos para a comunidade LGBTQIA+, o que por sua vez, perpassa o assunto família (sua construção, estabelecimento e seus direitos). É ótimo ver uma mangaka tão ativa nesse sentido e mais do que isso, que explora os assuntos com tamanha delicadeza. Gostaria muito que a mangaka fosse mais apreciada no Ocidente – em gera, os poucos países que lançaram algum mangá da autora ficaram apenas em “Ohana Holoholo”, incluindo a própria França -, pois os temas que ela trata e a forma como ela os coloca em cena são muito importantes. É uma mangaka de grandes talentos que merecia muito mais atenção do que recebe.

Algo a se dizer, ainda, é sobre o talento artístico da mangaka. Ela tem páginas LINDAS nesse volume, na montagem e na forma como ela compõe arte com o desenho, para exprimir, por exemplo sentimentos de solidão, incômodo e medo. É um belo trabalho, feito com muita maestria e ainda mais incrível, pensando que este é o primeiro trabalho profissional e autoral dela.

“Tudo ficará bem, você vai ver. Você só precisa ficar parada neste buraco e isso passará. Sempre correu tudo bem até hoje. Não precisa pedir ajuda. Se você chamar ‘alguém’… você irá tragá-la para esse buraco.”
“Nós o encontramos pela primeira vez
Ali onde este homem dorme,
Debaixo das árvores verdejantes.”

Para este mangá, é isso! Quis aproveitar a ocasião do Dia das Mães para explorar vertentes diferentes. Não somente, é sempre um prazer ter a oportunidade de apresentar mangakas e trabalhos que não são tão conhecidos e que merecem mais visibilidade – ainda que tenhamos um alcance muuuito restrito. Nos vemos novamente mais para o fim do mês, para a recomendação de outro mangá de demografia feminina! Abaixo, vocês conferem a lista de obras que já recomendamos aqui no blog! ^^