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Os traumas do pós-guerra e os preconceitos da época.

Seguindo com resenhas para o nosso pequeno especial para o Mês do Orgulho de 2026, hoje falaremos da obra que marcou o catálogo da MPEG, como sendo o primeiro mangá BL da editora: O Fim das Minhas Noites de Solidão. Um volume único que eu li no ano passado, mas que ainda não tinha feito próprio aqui no blog e sendo um ‘marco’ no catálogo da editora, por que não aproveitar a oportunidade?

O Fim das Minhas Noites de Solidão” é um BL escrito e ilustrado pela Yoh Matsumoto e foi publicado no Japão com o título “Hitori de Yoru wa Koerarenai” (ひとりで夜は越えられない). A sua serialização ocorreu entre Outubro de 2021 e Outubro de 2022 na revista fromRED, da editora ShuCream, sendo concluído em volume único. No Brasil, a obra foi anunciada pela MPEG em Dezembro de 2024, na ocasião do MPEG Fest, o evento comemorativo da editora. O lançamento se deu meses depois, em Maio de 2025.

Sinopse:Japão dos anos 1950. O ex-soldado Seishirou está trabalhando como garçom em um cabaré perto de uma base militar americana, passando seus dias em um ciclo estagnado. Um dia, ele é abordado por Jim, um soldado americano que fala japonês fluentemente. Seishirou fica comovido com o sorriso suave de Jim, e Jim logo confessa seu interesse nele. Seishirou vê isso como uma chance de mudar sua vida.
‘Vamos tentar fazer essa coisa toda de ‘casal’ juntos?’…


  • História e Desenvolvimento

Bem, o mangá se passa no Japão de 1950, logo, alguns anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, o que nos leva a autora apresentar algumas situações como: pessoas em situação de vulnerabilidade, algumas delas empurradas para a prostituição, proliferação de jogos de aposta – que funcionam como um sinal de falência social, que é o que vemos em grande peso na nossa sociedade atual com as Bets -, estadunidenses em território japonês como consequência da Guerra (“ajudando na reconstrução do país”) e instalações militares próximas às regiões marítimas. Nesse ínterim, temos o Seishiro que, por causa de traumas da guerra, não consegue mais dormir sozinho à noite, frequentemente buscando a companhia de outras mulheres, vivendo uma vida sem qualquer perspectiva e só a levando conforme os dias passam. Um dia, ele conhece o Jim, um desses soldados estadunidenses residentes que é gentil e diz ter se apaixonado pelo Seishiro à primeira vista.

O Seishiro vê no Jim uma possibilidade de conseguir tirar vantagem do rapaz, tendo um lugar para morar com maior conforto e tranquilidade, com água quentinha, comida à vontade e uma cama para dormir – tudo isso, sem precisar pagar -, ao mesmo tempo que só precisa fazer algumas vontades desse jovem rapaz. Esse aspecto de interesse é algo que gosto no personagem, justamente por mostrar um lado meio cretino do Seishiro (o que não é exatamente o comum de se ver em mangás que chegam ao território nacional) e ele ver o Jim como um cofrinho que ele pode tirar o máximo de proveito enquanto faz o rapaz de trouxa, o que mostra uma faceta moral bem controversa do personagem. O triste está no fato de que isso não dura muito tempo, já que ao passar dos capítulos, o Seishiro realmente acaba se afeiçoando com o Jim e gostando da sua companhia, principalmente porque, a partir do momento que eles começam a passar as noites juntos, o Seishiro consegue dormir tranquilamente, sem ter pesadelos durante o sono.

Essa história de romance um tanto “clássica”, então em dado momento da história, os protagonistas vão se separar e o motivo vai ser por causa do pai do Seishiro que, para além da homofobia, ainda é movido pelo ódio aos estadunidenses pelos eventos da Guerra. Guerra essa que levou à morte do seu outro filho, irmão do Seishiro. Dois aspectos tristes nesse mangá é que, como disse no parágrafo anterior, as camadas que a autora coloca nos personagens não conseguem ser bem exploradas por alta de tempo. Quando digo que “não dura muito tempo”, é um pouco por um lado ruim, pois eu acho que existia margem para trabalhar melhor o lado um tanto canalha do protagonista, antes dele se afeiçoar pelo Jim e então, desenvolver o romance entre os dois. Da mesma forma, eu acho triste que todo o segmento dos sentimentos homofóbicos do pai, o grande mau gosto que o pai sente do Seichiro por ele ter voltado vivo da guerra – por ter abandonado a luta ao invés de morrer “com glória” -, bem como os sentimentos tortuosos que o Seishiro tem com relação ao falecido irmão, tudo acaba sendo muito rápido.

Esse é um mangá que acho que poderia ser mais longo do que ele realmente é. O ideal, ao meu ver, seria uma série curtinha de dois volumes. Ele não é tão abarrotado de conteúdo como “Sirius – estrelas gêmeas” que resenhamos há alguns dias, mas ele tem assuntos mais densos que poderiam ser melhor desenvolvidos se houvesse um espaço maior para a autora trabalhar, seja nesse aspecto da relação entre os dois personagens, como no aspecto da homofobia que era tão forte na época. As revistas de BL normalmente são de departamentos pequenos, de editoras pequenas e de um público mais nichado – isso não quer dizer que BL não venda ou não seja lucrativo! Logo, o que acontece é que as editoras e revistas precisam de uma rotatividade de obras nas suas páginas, portanto, volumes únicos são o mais comuns de serem propostos. Não à toa, é recorrente que obras nasçam ou sejam planejadas como volumes únicos, mas que depois da conclusão, fazem muito sucesso e as autoras retomem a publicação como séries (a exemplo de “Envolto pelo Crepúsculo“, “À meia-noite, me entrego a você” [ambos na MPEG], na própria fromRED, mas também posso citar “Se quiser, é só pedir…” [MPEG] e “10 coisas para fazer antes dos 40” [Panini] em outras revistas/editoras). “O Fim das Minhas Noites de Solidão” não foi retomado no Japão e pela forma como a autora encerra a história no volume, nem existiria muita margem para ela voltar com a narrativa, então acaba sendo um potencial um pouco desperdiçado em alguns aspectos narrativos.

Mais para o fim do volume, a autora não entra só no aspecto da homofobia no Japão, mas também nos Estados Unidos, já que na época, relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo eram considerados crime. Por fim, vale menção a uma cena bonita, ao fim do volume, envolvendo a mãe do Seishiro e o irmão dele. Não posso entrar nos detalhes por ser spoiler, mas foi uma ceninha super bonita e emocionante entre os personagens, no sentido de ser como um aval para que o Seishiro havia decidido para sua vida.

O que mais me incomoda no mangá é a falta de menção ao Nazismo. Nunca se especifica que os japoneses estavam aliados ao nazifascismo, ficando sempre nesse ar superficial de que o Japão apenas perdeu uma guerra. Eu comentei nas redes sociais do blog quando terminei de ler o mangá (isso em 2025), mas volto a dizer: quero acreditar que não existir uma menção clara aos eventos que se passaram é para não pesar o clima do mangá, explorando mais o aspecto do drama do que dos acontecimentos em si, mas não posso negar que achei estranha essa decisão…

Apesar desses pequenos problemas e percalços, é um mangá que curti bastante. Vi amigas que realmente choraram enquanto liam. Particularmente não cheguei nesse nível de conexão com a obra e seus personagens, mas tem passagens boas. É um bom volume único, a qualidade da edição (seja ela física ou textual) está excelente! Vale bastante a leitura, em especial, tendo em mente que temos poucos mangás BLs com o aspecto histórico. As obras da demografia que tendem a chegar ao Brasil são contemporâneas, ou quando estão em outro tempo, frequentemente vão para o lado da fantasia (como é o caso dos Danmeis). Espero que a MPEG pense nisso explore mais desse aspecto no BL. A editora vai lançar “Envolto pelo Crepúsculo” em Julho, que se passa na China (não achei menção a época, mas parece algo ali do século XVIII ou XIX). E se alguém quiser uma outra recomendação, vale ficar de olho no ótimo (e não licenciado no Brasil) “Momo to Manji“, da Sakura Sawa, que se passa no começo do século XIX. ^^

E algo que considero muito importante de se pensar é sobre como a MPEG se impõe como uma figura muito presente e importante para a demografia feminina no mercado brasileiro. 2025 foi o ano que lançaram o primeiro BL japonês deles. Foi um ano com apenas dois lançamentos de BL – além de “O Fim”, ainda saiu o primeiro volume de “Se quiser, é só pedir…” – (tivemos manhwa BL e um Seinen gay, mas vamos desconsiderar nesse caso). Em contrapartida, em 2026, a editora já publicou mais 5 volumes divididos em 4 obras e temos mais 2 volumes com previsão para Julho (“Envolto pelo Crepúsculo” e “À meia-noite, me entrego a você“). É um crescimento muito considerável considerando que isso se deu de um ano para o outro e ainda estamos na metade do ano. Para além do BL, ainda é possível ver um crescimento bem expressivo em relação ao Shoujo (2 volumes em 2025 x 4 volumes em 2026, e 2 novos títulos previstos para Junho/Julho), Josei (3 volumes em 2025 x 4 em 2026, e uma nova série prevista para os próximos meses) e ainda em 2026, a editora deve publicar seus primeiros Yuris japoneses (“Sorairo Girlfriend” e “Twin Cake“). A editora está dando passos consideráveis considerando o pouco tempo desde que começaram a publicar esses mangás femininos e mais ainda, com uma proporção interessante na relação de obras, especialmente se comparado com outras editoras consolidadas do mercado.


  • A Autora

A Yoh Matsumoto é uma autora de mangá BL e está na ativa há mais de uma década, tendo começado de forma amadora com doujinshis de “Ataque dos Titãs” e “Kuroko no Basket“. Sua estreia profissional aconteceu em 2015/2016, participando de antologias BL. Talvez ela seja mais conhecida no Ocidente por ter feito a adaptação em mangá de “Ai wo Ataeru Kemonotachi“, baseado em uma novel de mesmo nome escrita por Ichigo Chabashira. Esse mangá foi publicado no Japão entre 2020 e 2021 na revista BE x BOY Gold (Libre) e diz-se que foi descontinuado, rendendo apenas 2 volumes. Houve uma época, alguns anos atrás, que essa obra era bem badalada, uma pena que não foi para frente.

Outros trabalhos importantes da autora incluem: “Akogareta Hito wa 42-sai no Shoufu Deshita“, publicado entre 2019 e 2020 na Charles Mag (Media Soft), que é sobre um homem de 40 anos que é prostituto e faz o papel de “daddy”, até o dia que ele reencontra um ex-colega de trabalho que quer conversar com ele; e “Musebi Nake, Junjou“, publicado entre 2018 e 2019 na BE x BOY, sobre um garoto meio-humano, meio-fera, que se apaixonada por um caçador de homens-fera. Nos trabalhos mais recentes, gostaria de destacar um em especial: “Toraware no Inferno“, que a Yoh Matsumoto publicou entre meados de 2025 e 2026 na revista Comic Marginal da editora Futabasha, sendo concluído como volume único (lançado em Maio no Japão). É um BL sobre Natsuo, um rapaz virgem apaixonado pelo meio-irmão, que vai parar no inferno depois de morrer atropelado por um caminhão, lá, ele é designado para trabalhar como prostituto dos demônios. Desesperado, ele é salvo por um “chefe” dos demônios, que pede para que ele cozinhe doces para ele… (uma loucura essa sinopse, rs).

Capas japonesas de, respectivamente: “Ai wo Ataeru Kemonotachi” #1 e #2, Akogareta Hito wa 42-sai no Shoufu Deshita“, “Musebi Nake, Junjou” e “Toraware no Inferno

  • A edição nacional

A MPEG lançou “O Fim das Minhas Noites de Solidão” no formato 13,7 x 20 cm, com capa cartonada e cor especial prateada, além de sobrecapa fosca. O mangá tem 208 páginas (todas em preto e branco) impressas no papel Off-set 90g. A edição incluiu postal e marca página de brinde, e um pôster para quem comprou na loja da editora. A tradução do mangá é da Erika Yuriko Tanaka e o preço de capa é de R$ 37,90.

Esse mangá eu tenho a edição francesa comigo, publicada pela Taifu, e sinceramente, não gosto muito dela. A edição nacionais é mais bonita. Ainda preciso ler o mangá nessa edição para pelo menos ter uma noção se o texto é bom.


  • Conclusão

Apesar de alguns aspectos narrativos que poderiam ser melhor desenvolvidos, ainda acho “O Fim das Minhas Noites de Solidão” um bom mangá. Se você gosta de obras dramáticas, é uma ótima pedida, bem como se você é fã de mangá BL, esse é um que vale muito a pena conferir!


  • Ficha Técnica
  • Título original: Hitori de Yoru wa Koerarenai (ひとりで夜は越えられない)
  • Título nacional: O Fim das Minhas Noites de Solidão
  • Autora: Yoh Matsumoto
  • Serialização no Japão: fromRED
  • Editora japonesa: ShuCream
  • Editora nacional: MPEG
  • Quantidade de volumes: volume único
  • Formato: 13,7 x 20 cm; capa cartonada com sobrecapa fosca
  • Preço de capa: R$ 39,90
  • Tradução: Erika Yuriko Tanaka
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