É lindo, é terno, é delicado e é avassalador!

“Boy meets Maria” (ボーイミーツマリア) é um mangá de PEYO. Foi publicado no Japão na revista Canna da editora Printemps Shuppan, A estreia da obra ocorreu na edição 56 da revista, lançada em outubro de 2017 e publicada até o volume 61 em novembro de 2018. A obra foi concluída em volume único. No Brasil, a NewPOP anunciou a licença do título em Janeiro de 2022, na live no canal do Guto Nunes. O lançamento ocorreu meses depois, em julho, durante o Anime Friends 2022. Adquiri a obra no evento, somente agora consegui reler e venho comentar meus pensamentos a respeito desse trabalho que facilmente é um dos melhores lançamentos de mangás do ano!

Sinopse: “Taiga, que sempre teve uma grande admiração por heróis desde sua infância, encontra sua garota predestinada assim que entra para o colegial. Essa garota é a Madonna do clube de teatro, mais conhecida como “Maria”. No dia em que se apaixonou por Maria, após vê-la dançando em cima do palco de forma chamativa, Taiga se declara pedindo para que ela seja sua heroína, porém fracassa completamente. A tão aclamada Madonna na verdade era um homem…”


“Boy meets Maria” começa com uma cena maravilhosa. Na situação, vemos o protagonista, Taiga, assistindo a um daqueles programas de super-herói e ele sonha em ser um . A conclusão dele, induzido pelo programa que estava assistindo, é que ser um herói é proteger uma mulher de um eventual perigo. Essa conclusão é quebrada na página de abertura do capítulo em que ele aparece sendo carregado pela Maria, que é como vamos conhecer a personagem inicialmente, indo contra o que é fortemente pregado sobre senso de masculinidade e do que é “ser um homem”. Em poucas páginas, a obra mostra muito do feeling que teremos aqui.

De primeira impressão, o Taiga é absolutamente insuportável, chato, um tanto assediador pela maneira “obcecada” que ele persegue o Arima, e que reproduz muitos dos pensamentos machistas na concepção de que ele tem sobre ser o herói de uma mulher, que é papel do homem fazer a proteção e coisas do gênero. Porém, não demora muito para a autora começar a quebrar essas concepções pela própria maneira que o Taiga vai percebendo que na verdade, ele só está sendo um idiota. E por que ele estava agindo daquela maneira até então? Porque era mais fácil, mais cômodo e que ele conseguia se convencer de uma felicidade que não é tão real, ao mesmo tempo que lhe serve como um escudo para se proteger de ter relações profundas. Com isso, as pessoas não chegariam em sentimentos específicos e que o próprio não quer encarar.

Há uma passagem logo nas primeiras páginas do capítulo 1 que o Arima diz para o Taiga: “Um cara como você, que só enxerga as coisas superficialmente, mesmo em cima do palco, só vai conseguir atuar de forma superficial também.”. PEYO vai trabalhar, e de uma forma precisa, sobre como construímos pré-conceitos sobre as pessoas e como essa visão que, por muitas vezes, é superficial. Não É somente sobre o Taiga ou a um personagem específico. Esse conceito pode ser levado para coisas mais abstratas como o gênero de alguém. Gêneros são construções sociais e como tal, sofrem influências da sociedade. A questão do gênero vai muito além de apenas masculino ou feminino. Isso ocorre da mesma forma para o senso de masculinidade e de feminilidade: “Homens precisam ser fortes, másculos, praticar esportes, ter iniciativa, não demonstrar fraquezas” ou ainda “Mulheres precisam ser delicadas, não pode se sentar dessa forma, precisa brincar com ‘coisas de menina'” e tantas outras frases ou afirmativas que ouvimos ao longo da infância e adolescência.

Como disse, masculinidade ou feminilidade são construídos de acordo com a sociedade e o contexto da época. Há alguns séculos, o que era ser considerado “homem” era usar salto alto e peruca. A construção de que mulher precisa cuidar da pele, cabelo, maquiagem e outras coisas mais, são construções sociais. Assim como é possível comprar feminilidade (maquiagem, peruca, cabelo…). E como tal, isso muda, não sendo fixo e o algo novo sempre vem. Olhar para a superfície é crer que isso é imutável ou que essas características dizem sobre o que a pessoa é ou como deve ser. Claro, nessa linha sempre entra o ponto de que se você não se adequa nessas características tão fixas, você é um problema, um defeito, e deve ser excluído. É bom prestar muita atenção nisso, porque é um dos temas que PEYO consegue estruturar e quebrar de forma maestral. É avassalador.

Ainda nessa linha, um dos pontos principais que a trama quer desenvolver é sobre gênero. Afinal, por que o Arima se veste ‘como mulher’? Obviamente NÃO irei contar aqui, porque isso envolve todo o andamento da história e um ponto de virada da série. No entanto, é muito bom ver obras abordando essas questões que são muito importantes e com um cuidado incrível! É um pouco do que vejo em “À l’image de Mona Lisa…” (Seibetsu ‘Mona Lisa’ no Kimi e.), da Tsumuji Yoshimura, mangá não publicado no Brasil, mas que muito em breve trataremos aqui no blog. Basicamente, no mundo dessa obra, as pessoas nascem sem gênero e quando alcançam determinada idade, elas escolhem se querem ser homem ou mulher. O universo da série é extremamente binarista e o protagonista não quer ter que escolher um gênero. A ideia de ter que escolher um o assusta, e claro, por ainda não ter um gênero, quem está ao seu redor acha estranho. Há toda uma discussão sobre a possibilidade de não ter que escolher, da pressão social em ter que se adequar ao que é tido como “normal”. PEYO faz algo semelhante, mas em outra linha de raciocínio e algo mais pautado na realidade. Inclusive, há uma brincadeira muito boa com o título da obra e que PEYO comenta na orelha da sobrecapa: “Esta história não é nem Boy meets Girl, nem Boy meets Boy“. Arima não é homem ou mulher. Ele é ele. Pode ser um, como pode ser o outro.

Capa francesa de “Seibetsu ‘Mona Lisa’ no Kimi e.” 1

É preciso alertar também que a obra trabalha com gatilhos. Não posso dizer qual o contexto por de traz dele, até por isso fazer essa resenha tem sido um pouco desafiadora. No entanto, é bom alertar, pois a arte graciosa e o ritmo cômico do começo do mangá pode acabar pegando pessoas desprevenidas.

E falando na comédia, ela é excelente. O mangá começa com um ar para cima, enquanto mescla (muito bem) com momentos melancólicos e reflexivos. PEYO vai quebrando esses momentos conforme o mangá passa que é difícil de por em palavras. É algo que você sente enquanto lê, que está se encaminhando para algo realmente grande. A narrativa também traz o aspecto de que encontros e desencontros podem ser destruidores em muitos sentidos, mas que a certo modo, não é de todo ruim. Como isso cria, a depender do ponto de vista, uma situação que você não entende bem, mas que olhando em outra perspectiva, não só teve um motivo, como foi bom para outra pessoa que salvou alguém. Isso não pode ser reparado completamente, mas também não sabemos até que ponto seria bom caso não tivesse ocorrido daquela maneira. E eu acho primoroso como PEYO estabelece um ambiente fofo e delicado com sua arte, rica em detalhes, e nas artes coloridas trabalhada elas em tons pastéis, mas que consegue ser destruidora e precisa quando quer. É algo único, eu diria. Por fim, preciso destacar que tem duas sequências de páginas mais próximas do fim que são absurdas de bonitas e que me tiraram boas lágrimas. São dois pontos de conflito entre personagens e que é bem avassalador.


  • Arte

Falando especificamente da arte do mangá, PEYO é INCRÍVEL! Falei no parágrafo acima que a arte é delicada e que a PEYO sabe usar muito bem disso para criar ambientes hostis, que geram um conflito entre o delicado e o bárbaro. Há páginas que só de olhar, você sente o peso que aquilo traz para os personagens centrais do mangá e o quão aquilo foi doloroso. Os recursos visuais utilizados para compor o todo são muito bons, excelentes na verdade. A distorção para causar incômodo, mal-estar, a repulsa e o medo, são todos muito bem expressos pela artista.

Sempre dói muito lembrar que PEYO faleceu precocemente em agosto de 2020, aos 23 anos. Na época, estava fazendo um mangá intitulado “Kimio Alive“, na Shounen Magazine (Kodansha), com o pseudônimo Kousei Eguchi e tinha 2 volumes publicados, chamando muita atenção no Japão. Sabe, era apenas a segunda obra da PEYO. Boy meets Maria foi o trabalho de estreia e possuía uma qualidade absurda, seja de narrativa ou de arte. É uma perda enorme para a família, pois tinha uma vida inteira pela frente. E inclusive, a família se refere à PEYO como filha, porém o pseudônimo utilizado enquanto “ela” publicava Kimio Alive tinha intenção de ser masculino. Fica até o pensamento de que parte da sua abordagem sobre gênero em Boy meets Maria não teria um repertório pessoal ou do que “ela” sentia. Infelizmente, é provável que nunca saibamos ao certo. No entanto, é bom poder prestigiar esse trabalho incrível, mesmo que com dor pelo seu falecimento.


  • A Edição Nacional

“Boy meets Maria” foi lançado no formato 12,8 x 18,2 cm, tem 248 páginas, sendo 3 delas coloridas e todas impressas em papel Off-set 90g. Tem capa cartonada com sobrecapa, miolo colado e costurado e com preço de R$ 34,90. O texto e revisão estão bons, destaque para a adaptação que deixou o texto bem fluido, embora eu tenha ressalvas quanto a utilização de algumas gírias, que podem deixar partes do texto datado daqui um tempo. De revisão, não encontrei problemas (não fiquei procurando ou lendo com muita atenção, e pode ter passado algo por mim e que não vi). Abaixo vocês veem o vídeo mostrando a edição nacional do mangá em maiores detalhes 🙂

https://youtu.be/aB5moJBl_ro

A edição está perfeitinha. Só tenho três considerações, sendo que uma delas é bem pessoal: a primeira é que logo no começo do mangá, por volta da página 20, aparece o termo “tomboy”, que seriam garotas que se vestem ou fazem atividades associadas a homens. O problema é que não há nota de rodapé sobre o uso do termo e eu tenho minhas dúvidas (genuínas) sobre o quão difundido é seu significado para não ter nenhuma nota explicativa sobre isso. A segunda é que as cores da capa parecem ter “estourado”, porque a paleta deveria ser um pouco mais ‘fraca’ do que está na edição, E por fim, a outra consideração é que eu particularmente preferiria que a sobrecapa fosse fosca, porque as cores combinam melhor com esse tipo de acabamento do que esse brilhante.


  • Conclusão

“Boy meets Maria” é, para mim, um dos melhores lançamentos de mangás de 2022. Uma história delicada, doce e ao mesmo tempo destruidora em diversos aspectos. Traz e debate assuntos importantes de uma maneira excelente e primorosa. É um volume único que vale MUITO a pena. Ao terminá-lo, fica aquela vontade de quero mais, de poder ver o futuro dos personagens indo para universidade, talvez, o que não irá acontecer. Em todo caso, o extra no final da edição é uma graça e alimenta essa vontade de querer mais. Também dá aquele acalento no coração, especialmente depois da tempestade de sentimentos que o título transborda. Fica a extrema recomendação e nós nos vemos nas próximas postagens ^^.


  • Ficha Técnica
  • Título original: Boy meets Maria (ボーイミーツマリア)
  • Título nacional: Boy meets Maria
  • Autoria: PEYO
  • Serialização no Japão: Canna
  • Editora japonesa: Printemps Shuppan
  • Editora nacional: NewPOP
  • Quantidade de volumes: Volume único
  • Formato: 12,8 x 18,2 cm, capa cartonada com sobrecapa
  • Quantidade de páginas: 248
  • Papel: Off-set 90g
  • Preço de capa: R$ 34,90
  • Compre em: Amazon/Loja NewPOP

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