Mês do Orgulho chegando na metade e seguimos com nossas resenhas temáticas para o mês! Depois de falar de Yuri Seinen (Hanamonogatari), um BL (Afterglow) e um GL espanhol (Sirius – estrelas gêmeas), hoje nos debruçamos sobre um Yuri Shoujo em publicação no Brasil Panini, sendo este um dos lançamentos da editora do começo de 2026!
“Quero te amar até o fim” é um Shoujo de gênero Yuri escrito e ilustrado pela Nachi Aono. É publicado no Japão sob o título “Kimi ga Shinu made Koi wo Shitai” (きみが死ぬまで恋をしたい). A publicação da obra foi iniciada na edição de Outubro/2018 da revista Comic Yuri-Hime, da editora Ichijinsha. A obra conta com 8 volumes publicados + um volume de side stories das personagens secundárias da obra, e com o 9º volume previsto para 16 de Julho. Em meados de 2025, foi anunciada uma adaptação em para o mangá. A adaptação estreia no próximo mês, em 7 de Julho, com produção do estúdio ROLL2 (Koi wa Futago de Warikirenai). No Brasil, o mangá foi anunciado pela Panini em Novembro de 2025, começando a publicar a obra em Fevereiro.

Sinopse: “Garotas que frequentam uma escola que prepara crianças sem ninguém no mundo para atuar como armas de guerra. Aulas para aprender a matar e um cotidiano que não permite nem sentir tristeza pela morte de alguém. Incapaz de aceitar sua própria situação, certa noite, a garota de 14 anos Sheena conhece Mimi, uma menininha encharcada de sangue… Enquanto Sheena anseia pela paz, a imortal Mimi segue para a guerra com um sorriso no rosto. Esta é a história do inocente desejo que duas jovens encontraram vivendo em um mundo vizinho da morte.”
- História e Desenvolvimento
“Quero te amar até o fim” se passa em um orfanato que é dividido por gênero – meninas em uma casa e meninos em outra – e nele, temos crianças que são treinadas desde muito cedo (por volta do 10 anos de idade) e lá, são treinadas e ‘educadas’ arduamente para que lutem em uma guerra. Nesse sentido, temos a Sheena, uma das alunas do orfanato que vive uma vida banal e um tanto desanimada, ansiando pelo dia que essa guerra vai terminar. Ela está particularmente abalada nos últimos dias, pois a sua colega de quarto foi convocada para lutar e faleceu em combate, precisando guardar as coisas e deixar de ver um rosto que lhe era tão familiar do cotidiano. É nesse contexto que, um dia, ela encontra uma garota misteriosa no meio da noite. Essa garota estava ensanguentada e lhe pediu comida. Essa garota se chama Mimi e é uma verdadeira lenda daquele orfanato, pelos seus feitos nas batalhas da guerra, matando vários dos inimigos. “Mimi”, na verdade, é um termo que designa qualquer combatente que tenha essas habilidades extraordinárias. No dia seguinte, a Mimi que a Sheena encontrou entra como aluna na turma dela e mais: a Mimi agora será a nova colega de quarto da Sheena.

A Sheena é uma garota que se sente muito desconectada daquele lugar, isso porque enquanto ela não vê a hora daquela guerra acabar, as suas colegas, no entanto, acham tudo muito normal e natural. Criou-se naquele lugar um senso de banalidade, seja com a guerra em si, como também com a morte. Por exemplo, a sua colega acabou de morrer, ela precisa arrumar as coisas que eram dela e seguir como se nada tivesse acontecido. Nenhuma das colegas de classe se abalou com a morte, todas agem como se fosse absolutamente banal. E, na verdade, o que mais acontece é que o entendimento das garotas chega a quase como se fosse uma jogatina qualquer, uma competição ou até algo legal/esportivo. A obra dialoga com o efeito da apatia e sobre como aquelas garotas naturalizaram a guerra de tal forma que elas acham aquilo incrível, ao invés de sentir horror. Quando você cresce em um meio de violência, o que era para ser chocante e revoltante, torna-se banal. Ou ainda, quando é criado um senso de distanciamento das pessoas, as vitimas acabam por ser reduzidas à apenas números, e isso foi mais ou menos o que vimos acontecer durante a pandemia de COVID-19, à medida que os números de mortos só aumentavam.
E com a chegada da Mimi, essa sensação de desconforto da Sheena é potencializada.
A autora pinta a Mimi como uma criança em mentalidade, como alguém que pouco sabe e entende do mundo, sendo muito inocente, o que contrasta com a característica de ela ser uma máquina de matar durante as batalhas da guerra. Esse contraste entre a imagem inocente x a figura um tanto psicodélica é algo que aparece muito frequentemente nos mangás, mas que eu particularmente nunca vi em um Yuri, o que é interessante narrativamente. Além disso, a Nachi Aono estabelece todo um mistério na personagem, já que ela nunca tinha tido contato com as demais alunas, sequer frequentava as aulas, mas é a partir do breve encontro noturno com a Sheena que, na manhã seguinte, ela entra na mesma turma que a Sheena.

Não só isso, eu gosto de como a autora decide apresentar a narrativa. Ela poderia ter mostrado motivos para guerra, o que está sendo disputado, ou mesmo, o que as meninas estão enfrentando. Mas não. Ela coloca algumas pistas, algumas suspeitas e elementos que vão ser importantes, como por exemplo, o fato de que existe magia naquele mundo. E existindo magia, essa guerra pode ou não ser contra outros seres humanos, bem como abre margem para que existam outros tipos de criaturas. A mangaka ainda expressa um certo sentimento de mal-estar e incômodo que a protagonista e algumas das amigas dela sentem diante da figura da Mimi, que ela em si é um grande mistério também.
O volume acaba por ser muito fechado nessas duas personagens, mas a autora ainda apresenta algumas figuras que vão ser recorrentes como a enfermeira, que tem o arquétipo da mulher sexy e um bocado tarada, a professora – que cumpre o papel da pessoa fria e um tanto distante -, além das duas amigas da protagonista, a Seiran – que particularmente age de forma muito cautelosa e desconfiada com a Mimi – e a Ali, que é uma garota sem filtro – que são sempre interessantes para criar intriga.

O lado negativo é que, como ela faz algumas escolhas do que apresentar nesse volume, acaba sendo um 1º volume bem morno de maneira geral. Ele tem o que é preciso para te prender de atenção – ainda que minimamente – mas ao terminar a leitura, eu não senti uma grande vontade em continuar. Contudo, também fica aquela impressão de que os grandes atos vão vir a partir daqui e que o mangá ainda vai se desdobrar bastante desse ponto em diante, especialmente após a cena final deste primeiro encadernado, então acaba por ser uma faca de dois gumes.
E se você leu o que escrevi até aqui e conhece certas obras que eram/ficaram populares nos últimos anos, pode ser que a proposta geral do mangá lembre algumas séries como “The Promissed Neverland” (publicado no Brasil pela Panini) ou mesmo “86 [EIGHTY SIX]” (inédito no Brasil), seja na perspectiva de segregação, mas também no conceito de você ter um orfanato ou lugar que vai ter a função de criar crianças para algum propósito (em “TPN”, para alimentação das criaturas; em “86” para a guerra), tratando-as como armas, produtos ou até como mercadoria.

O título “Quero te amar até o fim”, a certa altura, passa uma impressão de finitude/morte, mas também de uma certa obsessão, e creio que seja mais ou menos essa a intenção da autora com a obra, o que me deixa curioso para saber para quais caminhos ela vai trilhar com essas personagens e que tom ela dará ao relacionamento entre as duas. E o que ajuda a incrementar isso é que existe uma magia de cura que é feita a partir do beijo entre duas pessoas, o que também é um grande recurso narrativo para as personagens terem esse tipo de contato físico e explorar os sentimentos que nascem a partir disso.
“Quero te amar até o fim” é, definitivamente, o mangá Yuri mais diferente que já foi lançado no Brasil na história recente deste mercado. Ele tem o aspecto do romance, assim como os demais que foram ou vem sendo publicados no mercado, porém, ele tem o aspecto da fantasia, mas também o lado de trazer ação, suspense, personagens desequilibradas e toda a construção a construção de mundo que ainda vai ser melhor apresentada e desenvolvida nos próximos volumes, e que deixa no ar a questão da magia, mas também da guerra e desse “orfanato” em que as personagens vivem. É um mangá com qualidades muito interessantes e que eu acredito muuuito que irá se desenrolar e apresentar desdobramentos ainda mais intrigantes. A autora apresenta apenas o básico neste tomo introdutório e tem margem para abrir e expandir o leque para caminhos muito diferentes do que vemos no Brasil, principalmente considerando as fantasias que são aqui publicadas e, em especial, considerando os Yuris que são lançados. Estou bem animado e considerando que o anime estreia em menos de um mês, espero que seja uma ótima oportunidade para que mais pessoas conheçam o título – ainda mais que o anime aparenta estar muito bem feito!
- A Autora
A Nachi Aono estreou profissionalmente no começo dos anos 2010, publicando alguns one-shots que mais tarde, em 2014, seriam compilados pela Ichijinsha na antologia “Anata no Sekai de Owaritai“. Entre 2013 e 2014, ela publica uma outra leva de one-shots na Comic ZERO-SUM (Ichijinsha), que foram compilados na antologia “Ano Ko ni Yasashii Sekai ga Ii“. Em 2015, a autora vai para a Media Factory (KADOKAWA) e faz a adaptação em mangá do jogo de horror “Gokuto Jihen“. A obra foi publicada na revista Shoujo Gene Pixiv e foi concluído em 2017, com 3 volumes. É também em 2017 que a autora volta para a Ichijinsha, na revista gateau (BL) e lança “THEO“, um volume único. E desde 2018, ela publica “Quero te amar até o fim” na Comic Yuri-Hime, sendo a primeira série Yuri dela e a primeira série autoral dela (que o roteiro é próprio). Em 16 de Julho, além do volume #9, também será lançada a Antologia Oficial da obra.

Eu conheci o trabalho da mangaka pelo BL “THEO”, que li uns bons anos atrás e lembro de ter achado ótimo! Acho uma loucura que, alguns anos atrás, eu acharia muito mais fácil ver a autora chegando aqui por algum dos BLs dela, já que são volumes únicos (e isso, por si só, ainda seria difícil de ver aqui) e agora, anos mais tarde, a autora chega aqui com um Yuri e uma série “longa”/em andamento. É muito bom ver que, apesar dos pesares, o mangá feminino está em um bom momento e que isso nos permite ver séries do momento chegando ao Brasil, elas tendo anime ou não. O problema da Panini, como sempre, está na falta de atenção e divulgação que acomete todas as obras do catálogo, mas que impacta particularmente a demografia feminina, que já é tão estigmatizada no cenário nacional.
- A edição nacional
“Quero te amar até o fim” é publicado no Brasil pela Panini no formato 13,7 x 20 cm, com capa cartonada e papel Off-white 66g. O mangá apresenta cerca de 180 páginas, sendo que as duas primeiras são coloridas (impressas no mesmo papel do miolo). A obra foi traduzida por Luciane Yazawa e contou com marca página e adesivo de brindes neste primeiro volume. O preço de capa é de R$ 44,90 e 4 volumes foram lançados pela Panini até o momento.
Sobre a edição só gostaria de dizer que eu acho que o título nacional casaria bem com uma reticência no final dele (Quero te amar até o fim…).
- Conclusão
Apesar de ser um primeiro volume meio morno e beeeem introdutório, “Quero te amar até o fim” é um mangá a se ficar de olho. Acho que só pelo fato dele ser um Yuri tão diferente do que normalmente é publicado aqui, já valeria a recomendação para a obra. Mas para além disso, ainda é uma obra que se apresentou de maneira muito sólida, com personagens interessantes e com uma proposta igualmente bem feita. Se tiver em dúvida se embarca nesse trem ou não – afinal, é um mangá ainda em andamento e sem previsão de fim – vale a pena ficar de olho quando a animação estrear e dar uma olhada para ver se os rumos que a série toma te agradarão.

- Ficha Técnica
- Título original: Kimi ga Shinu made Koi wo Shitai (きみが死ぬまで恋をしたい)
- Título nacional: Quero te amar até o fim
- Autora: Nachi Aono
- Serialização no Japão: Comic Yuri-Hime
- Editora japonesa: Ichijinsha
- Editora nacional: Panini
- Quantidade de volumes: Em andamento com 8 volumes
- Formato: 13,7 x 20 cm; capa cartonada
- Preço de capa: R$ 44,90
- Tradução: Luciane Yazawa
- Compre em: Loja Panini/Amazon
