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Novos amores na 3ª idade.

Junho se apresentando e com ele, o Mês do Orgulho! Para a ocasião, nossas tradicionais recomendações mensais não poderiam não ser temáticas para a celebração da vivência LGBTQIA+! O planejamento inicial era de três recomendações, no entanto, por um problema alheio a minha vontade, estaremos lançando dois textos de recomendação. O primeiro é um Yuri Seinen, enquanto que o segundo é um BL (a ser publicado mais para o fim do mês). Hoje, falaremos do adorável “Hanamonogatari”!

Hanamonogatari” (はなものがたり) é um mangá Seinen de gênero Yuri escrito e ilustrado pela schwinn. A obra começou a ser publicada no Japão em Março de 2022 na revista Comic Flapper, da editora Media Factory (KADOKAWA). A obra foi sendo publicada pela autora, até ser cancelada, devido as baixas vendas, no seu terceiro volume, lançado em 2023. Na França, o mangá foi publicado integralmente pela Akata entre 2025 e 2026 sob o título “Les fleurs se maquillent aussi” (algo como “As flores também se maquiam”).

Para escrever sobre a obra, terei por base o primeiro tomo da edição francesa ^^


Em “Hanamonogatari”, acompanhamos a história da Hanayo, uma senhora que tem ali seus 60 anos e que perdeu o marido há alguns meses e sem ter a rotina de cuidado que ela levava há tanto tempo, se vê perdida e sem saber o que fazer. Ela não tem grandes aspirações, sonhos ou desejos do que gostaria de fazer a partir dali. É no medo de acabar piorando sua saúde por não ter atividades para fazer que ela decide mudar e sair um pouco por conta própria e é em uma dessas saídas que ela acaba encontrando com a Yoshiko, uma senhora muito elegante dona de uma loja de produtos de beleza que rapidamente chama atenção da Hanayo. Encantada pela beleza da mulher, ela acaba se aproximando da Yoshiko, que prontamente a atende e lhe dá alguns conselhos de maquiagem, o que rende uma diversão enorme para a Hanayo e ali, ela sente que encontrou algo pelo qual ela gostaria de fazer, não pelo marido ou por outras pessoas, mas por ela mesma.

– É esse o caso, eu me diverti muitíssimo… e foi graças à você!

“Hanamonogatari” tem uma série de coisas genuinamente brilhantes sendo tocadas e lapidadas que eu acho um pouco difícil saber por onde começar, mas acho que antes de falar do romance que vai nascer entre a Hanayo e a Yoshiko, acho que preciso destacar um aspecto muito fundamental: em tempos em que envelhecer (ou parecer ser velho) é mal visto, e cada vez mais se busca e se cobra por juventude, a schwinn não só valoriza, como exalta e saúda aqueles que possuem anos de experiência. É muito bonito como a autora tem profundo respeito pelas suas personagens e por todas as vivências que elas tiveram ao longo desses anos todos.

E nesse sentido, o interesse das personagens por maquiagem não se dá como algo para que elas se sintam mais jovens ou se pareçam mais jovens; o interesse delas pela maquiagem vem de um lugar de cuidado, de valorização de si e de toda a história delas ao longo dos anos. Tem uma passagem muito linda que a Hanayo reflete justamente sobre o uso da maquiagem enquanto procura revistas de moda e afins, sobre como ela não quer esconder rugas e marcas que mostrem sua idade, porque elas representam a sua vivência, a sua história e, portanto, escondê-las seria como renegar a si e tudo que ela já passou. E a dificuldade em encontrar um material que lhe agrade vem justamente do fato dessas revistas estarem interessadas no rejuvenescimento, no parecer mais jovem.

– Bom dia!

A autora também trata do machismo que as mulheres estão expostas e sofrem socialmente. A maneira que a autora encontra de abordar esse tópico está no contraste que existe entre a Hanayo, que interiorizou muito desse machismo na maneira como leva a vida e a enxerga, e a Yoshiko, que é uma mulher muito mais livre e consciente de si. É bem divertido que a Hanayo fala alguns dos absurdos que o falecido marido dizia para ela como se fosse a coisa mais banal do mundo e a Yoshiko olha para aquilo com a maior cara de espanto. E uma parte do mangá trata justamente da Hanayo passar a perceber que o que ela achava natural, não é natural e mudar isso.

Por exemplo, quando ela estava chegando nos 40 anos, o marido dela falou para ela abandonar o uso de maquiagem, porque àquela altura, não fazia mais sentido e aquilo não a deixaria mais jovem/bonita. Por mais que naquele tempo ela não conseguisse retrucar, agora, em reflexão a essas situações que ela passou, ela ao menos consegue retrucar e até xingar o marido em pensamento.

– Me deixe em paz! Eu não tenho o dia todo! Se você quer comer, sirva-se! Há muitos restos! Pelo que sei, você não é um bebê! Seu fóssil velho!
* Ops, eu fui um pouco longe… mas, pensando bem, eu teria amado de lhe dizer para sumir desta maneira, ao menos uma vez em sua vida! *
– Vou pegar o carro? Eu também tenho vontade de conhecer sua amiga!
– Ela não te chamou… e também, eu vou de trem. Francamente, é por causa dessa sua mania de se enfiar nas minhas saídas… que minhas amigas se sentiam tão envergonhadas.
– Ah, bem?! Você devia ter me dito isso mais cedo!
– Eu te disse uma vez, e você ficou irritante o dia inteiro!
– Ei, desde quando você me responde assim?!

E apesar disso, a autora ainda tem muita consideração pelos anos que a Hanayo viveu ao lado do marido, porque não foram uma tragédia. É uma ponderação constante entre prós e contras e uma genuína reflexão sobre essas pressões sociais que a personagem sofre por ser mulher.

Eu tenho gostado muito dessa vibe de obras que exploram a terceira idade, em uma perspectiva de celebração da vida de mulheres experientes e naquele diálogo de que “Nunca é tarde para realizar sonhos”. Uma das passagens do mangá é com a Hanayo pensando que nunca fez nada que ela gostou realmente e fala que não há mis tempo para faculdade, o que a Yoshiko diz que há tempo sim e há pessoas que entram na universidade quando idosas. O que automaticamente me lembrou do excelente “Umi ga Hashiru Endroll” (que recomendamos no blog alguns anos atrás), Shoujo da John Tarachine, que parte de uma senhora de 65 anos que vai realizar seu sonho de ser uma cineasta depois da morte do marido. E notar que, de uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, esses mangás também estão falando sobre como o casamento é um limitante na vida das mulheres, pois elas precisavam abdicar de suas vidas, seu sonhos e aspirações, por causa de um ideal de família.

Embora a Hanayo não tenha uma grande questão em aceitar que está apaixonada pela Yoshiko, ela nunca tinha parado para pensar sobre a sua sexualidade, no entanto, nos flashbacks que a autora coloca ao longo do volume, a Hanayo sempre teve muito interesse por garotas bonitas, mas nunca cogitou um relacionamento, porque na ótica social, aquilo era impensável. Já a Yoshiko teve um relacionamento com uma mulher e foi através desse outro relacionamento que ela se aproximou do mundo da maquiagem. O relacionamento dela com essa outra mulher ainda é meio nebuloso, mas torna o mangá mais interessante, justamente por explorar as diferentes vivências dessas mulheres.

E falando em vivência, é igualmente muito bonito como a autora coloca um mundo inteiro de possibilidades para as personagens, ao colocar diferentes mulheres, todas já idosas, fazendo as coisas mais diversas. Tem uma senhora que aparece no mangá e que é baterista de uma banda, é genial!

– Obrigado pela sua presença! Contamos com você para vir ao próximo show de Senba & Kawachîzu!

Eu não sou uma pessoa que consome Yuri de forma assídua, mas ter o blog me fez acompanhar uma série de obras no Japão (acompanhem o blog nas redes sociais ^^), me fazendo conhecer um pouco da diversidade do gênero, da mesma forma que acompanhar o mercado francês – e saber francês – me fez ler e conhecer mais profundamente algumas dessas obras que eu já sabia da existência e queria ler – como foi em Hanamonogatari – e vendo alguns dos trabalhos que já recomendamos no blog (“Ohana Holoholo” mais recentemente, mas também “Mejirobana no Saku“, “Sukeban to Tenkousei“…), diria que é uma bela sequência de trabalhos ^^


Em tweets que já não existem mais (a autora apagou), a época da publicação do mangá no Japão, a schwinn compartilhou o sofrimento que vinha passando durante o lançamento da obra, pois o seu editor a escorraçava, dizendo que ela não tinha talento e que ninguém iria querer ler a obra dela, o que a magoava profundamente. Primeiro que esse editor é um grande incompetente, uma pessoa que não consegue perceber a verdadeira joia que está diante dos seus olhos não pode ser chamado de bom editor (me cheira muito a pura misoginia), e segundo, eu genuinamente acho que “Hanamonogatari” não deveria ter sido publicado sob um selo de revista Seinen. Não é querendo ditar o que é ou não um Shoujo ou o que deveria ser ou não um. Se saiu em revista Seinen, é Seinen. O meu ponto aqui é que a obra RESPIRA a essência do mangá feminino, tanto no tema que aborda, nas temáticas sociais que ele toca – que são muito pertinentes às mulheres -, como também na maneira que ele é desenhado e montado. Qualquer editor de demografia feminina decente veria as qualidades que a obra tem, principalmente na delicadeza e na profundidade muito cuidadosa que a schwinn tem em tocar nos temas que o mangá trata.

O blog acompanhou o mangá desde um pouco antes do lançamento do 1º volume no Japão, ou seja, desde o começo de Agosto de 2022 (mais precisamente, desde 10 de Agosto de 2022) e vimos tudo que se passava com a autora, mas também com a repercussão positiva que a obra foi ganhando ao longo dos anos no Ocidente. Uma das coisas bonitas do advento da Internet está nessa possibilidade de comunicação entre as pessoas de diferentes países, e acho belíssimo a maneira como uma galera de vários países tentou ajudar a autora de diferentes formas, seja pedindo para editoras licenciarem em seus países, como tentando comprar a edição japonesa ou compartilhando impressões sobre o mangá. E ‘tá aí: se o Japão não apreciou (coisa que eu duvido e acredito que só não tenha chego nas pessoas que iriam amar ler), pelo menos o Ocidente abraçou a obra com a maior das gentilezas!


Falando da schwinn, ela começa a aparecer no começo desta década, trabalhando com doujinshi de BL (histórias originais). A estreia profissional dela acontece justamente em 2022, com o início da publicação de “Hanamonogatari“. E após o fim do mangá, a autora ainda teve muitas oportunidades. O último trabalho profissional da mangaka foi “Care Actor Hero” (ケアアクターヒーロー), um one-shot escrito pela Nomari e publicado em Novembro de 2025 na revista Cocohana, revista Josei da Shueisha.

Página colorida de “Care Actor Hero” na edição de Dezembro/2025 da Cocohana.

Ela não irá ler este post, mas queria deixar registrado que ela é uma mangaka de muitos talentos! O editor que a constrangia e humilhava, em nada entende e definitivamente não sabe apreciar um ótimo mangá. Que ela não se deixe abalar pelo que disseram de seu trabalho e que ela se cerque do amor e carinho que os fãs de mangá dedicaram para ela e sua obra!


“Hanamonogatari” é uma história adorável sobre descobrir novas paixões e retomar a vida, nunca sendo tarde para (re)começar algo. É um mangá cheio de doçura e ternura, com boas dosas de humor e críticas sociais. Estamos apenas na metade do ano, mas ele é, sem dúvida, um dos meus favoritos do ano! Espero que tenham gostado do post e nos vemos em breve para outras resenhas e recomendações!