Olá pessoal! Vamos para um post de apresentação “extra” neste mês! Neste mês, o post de apresentação foi “Isekai no Sata wa Shachiku Shidai“, aproveitando a exibição da adaptação em anime nesta temporada de Inverno. No entanto, recentemente, a MPEG deu início a pré-venda do 1º volume de “Anoko no Kodomo“, mangá Shoujo da Mamoru Aoi! Na época do anúncio do mangá (ocasião do Dia dos Namorados), falamos que iríamos escrever sobre ele e como temos as primeiras informações da edição nacional, acho que é a ocasião perfeita, ainda mais com o lançamento se aproximando.
O lançamento da obra – que será feito com o título “As crianças da minha vida” deveria acontecer ainda em 2025, porém, devido a atrasos de material do Japão, o lançamento acabou sendo postergado para o começo de 2026, com lançamento previsto para Janeiro!


“As crianças da minha vida” é um Shoujo escrito e ilustrado pela Aoi Mamoru. O mangá foi lançado no Japão entre maio de 2021 e outubro de 2024 sob o título “Anoko no Kodomo” (あの子の子ども). A série foi publicada na revista Bessatsu Friend da editora Kodansha e foi concluído em 10 volumes (o 10º tomo contém histórias extras). A obra venceu o 47º Kodansha Manga Award na categoria de ‘Melhor Shoujo‘ em 2023 e foi indicada ao Eisner Awards na categoria de ‘Melhor Publicação para Adolescentes‘ em 2024. Quando o mangá tinha apenas 8 volumes lançados, a série ultrapassou a marca de 500 mil cópias em circulação no Japão. Entre junho e setembro de 2024, foi exibida a adaptação em série live-action no Japão. A série contou com 12 episódios no total (infelizmente, não está disponível em streaming). Na França, a série está em publicação desde Janeiro de 2024 pela Kana (“L’enfant en moi“), e a editora publicou 8 dos 10 volumes.

Irei falar do mangá no blog por meio do volume 1 da edição francesa. ^^
“As crianças da minha vida” conta a história da Sachi, uma estudante que está no 2º ano do que seria o nosso Ensino Médio. Ela namora com o Takara, um amigo de infância da mesma idade que ela e os dois levam uma vida normal e tranquila. Uma noite de muita neve, os dois vão para casa do Takara e acabam transando. Durante o ato, porém, a camisinha que o Takara estava usando estoura. Os dois não se preocupam inicialmente, acham que tudo ficará bem e não vai dar em nada, até que a Sachi começa a sentir-se mal e a ter enjoos frequentes. Comprando um teste de gravidez, o resultado: positivo.

A sinopse de As crianças da minha vida é super simples, pois é um drama humano que aconteceu e acontece com vários casais e que impacta profundamente a vida dessas pessoas, principalmente de quem está gestando. A Aoi Mamoru é feliz na criação da obra, tanto pela temática do mangá que é sempre atual e necessário, como também pela maneira como a autora constrói e aborda o assunto. No começo do mangá, a autora explora o “cuidar de uma vida” por meio de um gato. Ela passa boa parte do volume procurando por esse gatinho que se perdeu por aí no meio da nevasca. A Sachi se afeiçoou por esse gatinho de rua e ela até gostaria de adotar, mas sua mãe é contra e o que a autora conversa com o público é sobre a responsabilidade por de trás de se cuidar de uma vida. A mãe da Sachi é contra, pois ela vê que a filha não tem dimensão dos cuidados necessários, do quanto é necessário se dedicar, cuidar e zelar por uma vida, e ela só deixará a filha ter um animal de estimação no momento que ela tiver essa consciência.
Essa relação vai culminar justamente na descoberta da gravidez, que para a Sachi, chega como um baque enorme acompanhado de sentimentos tortuosos como medo, negação, uma certa depressão, pânico de não saber o que fazer, como fazer, com quem contar ou em quê confiar. A Aoi Mamoru é uma autora de diversos talentos e ela é impecável na condução desses eventos, pois ela consegue expressar todos esses sentimentos com pouco texto. Tem alguns capítulos nesse 1º volume da obra em que há sequências de páginas com pouco texto ou completamente sem texto. Nessas páginas, a autora usa o ambiente (vazio, muitas vezes) para expressar sentimentos e a inquietação da personagem.

– Sachi! Eu vou trabalhar! Me ligue se precisar de qualquer coisa!
* … *

Esse é um assunto que é um tabu e o que mais se vê, é uma tentativa de velar as coisas. Não só sobre gravidez propriamente, mas tudo que envolve sexo. Não é à toa, uma das grandes “armas” usadas pela extrema-direita nos últimos anos para atacar as instituições de ensino e professores foi a falácia de que “queriam ensinar sexo para as nossas crianças” (e aqui, criança vira um grande espantalho para coisas que não existem na realidade). Se prefere não conversar sobre sexo e sexualidade com os filhos, o que é difícil/constrangedor em muitos casos, mas na hora em que ocorre uma gravidez ou alguma doença/infecção sexualmente transmissível, o que mais se observa é o apontar o dedo e julgar (e que de certa forma, é o que acontece em dado ponto desse primeiro volume do mangá), do que oferecer apoio ou mesmo repensar sobre a própria incompetência em não cumprir com o papel.
Um dos assuntos abordados no mangá é sobre a possibilidade de realizar aborto e nisso, o Japão está à frente do Brasil, e de boa parte dos países ocidentais. Há muito tempo, lá no JP, o aborto é legalizado para gestações de até 22 semanas desde 1948, enquanto que aqui no Brasil, seguimos sendo alvo de alarmismo, desinformação e amparados por uma lógica limitante, apoiada em religião (que não deveria interferir em questões do Estado), o que não só limita o debate como o joga para debaixo do tapete, ainda mais em se tratando de saúde pública e quando quase 500 mulheres morreram no Brasil por causa abortos malsucedidos entre 2012 e 2020. Essa situação cria um paradoxo em que não se pode discutir sobre sexo, sexualidade e métodos preventivos quando gravidez na adolescência é uma realidade, ao mesmo tempo em que também não é permitido abortar. E em ambos os casos, o que temos é o julgamento, principalmente no caso das mulheres.

E nessa questão da mulher, é outro assunto que a obra começa a propor o debate, sobre como a gravidez interfere mais diretamente na vida da mulher do que na dos homens. A gestação em si é um processo complicado, seja do ponto de vista físico como psicológico também. Por mais que o Takara seja um parceiro legal e demonstre efetivamente estar e querer estar ao lado dela, não importa a situação e incluindo esses desafios que virão com a gravidez, o peso é muito diferente para ela. E falando no Takara, eu gosto como o personagem é feito. Como eu disse, ele se coloca ao lado dela, estando ali para o que ela precisar, decidindo continuar com a gravidez ou não. Não posso dizer no Japão, mas em se tratando do Brasil, não consigo deixar de pensar como ele é uma idealização, já que o abandono parental tem registros bem expressivos (em 2020, de todos os nascimento, 6,31% delas tiveram registro com apenas o nome da mãe na certidão de nascimento, isso sem considerar abandonos posteriores ao nascimento e negligência no crescimento e desenvolvimento da(s) criança(s)).
E nesse aspecto, queria aproveitar para dizer que detesto o título utilizado nos Estados Unidos e em alguns outros países. Nos Estados Unidos, o título é “My Girlfriend’s Child“, algo como “O Filho da Minha Namorada”. Nessa mesma lógica, na Espanha, o título foi “El bebé de mi novia“. Eu não gosto dessa adaptação, porque passa a impressão de que o Takara está apartado da relação, no sentido de que o filho é da Sachi e não dele, sendo que o mangá está se propondo a trazer um namorado companheiro e carinhoso com a Sachi, não alguém que irá abandoná-la ou algo do gênero. Nesse aspecto, o título da edição francesa (L’enfant en moi = A criança em mim) é bem mais assertivo!

O ocidente construiu uma imagem (muito equivocada) de que o Shoujo como um todo retrata aqueles romances em que os personagens demoram a se relacionar, que para pegar nas mãos um do outro, é uma dificuldade enorme e coisas do gênero… isso não só é muito inverídico, como mesmo que fosse, o Shoujo atualmente está em uma fase de explorar mais os desejos da personagem pelo sexo e sexualidade. Uma onda de obras consistentes não só falam de sexo, como a pratica,ou pelo menos demonstra ter interesse em fazer (“Um sinal de afeto”, “Sob a Luz da Lua”, “Hananoi-kun”, “Amelia no Koukiteki Romance”, isso só para citar alguns exemplos de obras recentes e mais conhecidas). Eu acho isso bom, porque é algo normal, ainda mais considerando o contexto da adolescência e ter um mangá interessado em falar de gravidez na adolescência, mas mais do que isso, também falar do que fazer em caso de gravidez, de processos relacionados e até mesmo de métodos contraceptivos. No Japão, em quase todo volume, a autora trouxe entrevistas, informações médicas, conversas com especialistas, tudo que envolve gravidez, prevenções e até educação sexual!
Em resumo, “As crianças da minha vida” é um enorme deleite! Um ótimo mangá, tanto pela proposta muitíssimo bem executada pela autora, como também pelo trabalho de composição da autora que é estupendo! Uma leitura fluida, cativante, ágil e que muitas vezes, usa do próprio desenho e quadrinização para te passar sensações e sentimentos, sem precisar colocar os personagens falando do que sentem. E é justamente por não precisar falar que quando eles finalmente verbalizam sobre sentimentos, é o momento que desabam de chorar, já que parte disso vem da solidão e sensação de desamparo que, em especial, a Sachi sente no decorrer da obra nesse começo. Parte dessa delicadeza e cuidado com a obra vem das próprias experiências da autora e do sentimento do que ela poderia fazendo enquanto mulher, mãe e artista de mangá Shoujo.

Essa é uma enorme recomendação de leitura e fico feliz que venha para cá, pois é uma excelente oportunidade para debate e dessa forma, também espero que a MPEG se empenhe em promover ações relacionadas. Na França, para a ocasião do lançamento do volume #1, a Kana fez uma parceria com uma editora de livros e incluiu um livreto de brinde para quem comprasse em livrarias participantes, e o livreto foi chamado “Guia para uma sexualidade protegida“, onde vinham orientações, perguntas e respostas e assuntos relacionados ao sexo e sexualidade. Seria bom ver algo parecido (ou coisas além, quem sabe) por aqui também. 🙂

Falando da autora, a Aoi Mamoru estreou profissionalmente no começo dos anos 2010 na Bessatsu Friend (Kodansha). Em 2012, na Bessatsu Friend, ela lança sua primeira série (2 volumes): Kakyuusei. Em 2014, vem outra série curta de 2 volumes na Bessatsu Friend: Taihen Waruku Dekimashita. Esses primeiros anos de carreira da autora foram marcados por volumes únicos, participações em coletâneas com várias autoras e séries curtas (até 3 volumes). Até que em 2020, ela estreia “Koi no Hajimari” na Bessatsu Friend/Palcy. A série foi publicada até 2022, quando foi finalizada com 7 volumes. Durante um período, o mangá ficou em publicação simultaneamente (lançado entre 2021 e 2024).

Agora, o que estamos de olho na autora é na sua obra atual! Em janeiro desse ano, a Aoi Mamoru começou “Fuutsu no Onnanoko” na OUR FEEL, revista digital Josei da editora Shu Cream. Esse é a primeira série da autora fora da Bessatsu Friend e nesse novo mangá, acompanhamos o nascimento, crescimento e desenvolvimento de uma criança chamada Anne. Acho curioso o mangá vir após o fim de “Anoko no Kodomo” e sinto que talvez, a autora esteja inspirada pelo tema relacionado. ^^ O mangá ganhou edição impresso no Japão recentemente, tendo os 2 primeiros volumes lançados simultaneamente em 16 de Dezembro no Japão! Atualmente, 21 capítulos da obra foram publicados por lá.


“As crianças da minha vida” é um ótimo mangá e sem dúvida alguma, será um dos grandes lançamentos do ano. Leiam e não irão se arrepender! No demais, é isso. Nos vemos futuramente para outros textos de recomendação (ao menos um todo mês!). Abaixo, segue o vídeo mostrando a edição francesa e na sequência, a lista com todas as obras já recomendadas pela blog. ^^
- A sign of Affection (Yubisaki to Renren);
- À tes côtés (Hananoi-kun to Koi no Yamai);
- Switch me On (Honnou Switch);
- Goodbye my Rose Garden (Sayonara Rose Garden);
- Le Requiem du Roi des Roses (Baraou no Souretsu);
- Perfect World;
- Les Chroniques d’Azfaréo (Azufareo no Sobayounin);
- Sasaki et Miyano (Sasaki e Miyano);
- Ocean Rush (Umi ga Hashiru Endroll);
- Burn the House Down (Mitarai-ke, Enjou suru);
- Good Morning, Little Briar-Rose (Ohayou, Ibarahime);
- Cherry Magic;
- Veil;
- Mon mari dort dans le congélateur (Watashi no Otto wa Reitouko ni Nemutte Iru);
- Canção do Amanhecer (Yoake no Uta);
- Vampeerz;
- Entre nos mains (Kakeochi Girl);
- L’histoire de papa, papa et moi (Boku no Papa to Papa no Hanashi);
- Whispering – Les voix du silence – (Hisohiso -Silent Voice-);
- & (AND);
- Nina du Royaume aux étoiles (Hoshi Furu Oukoku no Nina);
- Don’t Fake your Smile (Niji, Amaete yo.);
- FANGS;
- Rouge Éclipse (Sora wo Kakeru Yodaka);
- Petit requin (Odekake Kozame);
- Et plus si affinités ? (Majime ni Fujun Isei Kouyuu);
- L’amour est au menu (Tsukuritai Onna to Tabetai Onna);
- Gene Bride;
- Enfer et contre toutes (Jigoku no Girlfriend);
- Ton visage au Clair de Lune (Uruwashi no Yoi no Tsuki);
- Remember Me, la magie de l’amour (Shi ni Modori no Mahou Gakkou Seikatsu wo, Moto Koibito to Prologue Kara (※Tadashi, Koukando wa Zero);
- L’Internat des Fleurs (Mejirobana no Saku);
- Home Far Away (Haruka Tooki Ie);
- Como Conheci a Minha Alma Gêmea (Unmei no Hito ni Deau Hanashi);
- Les Noces de l’Or et de l’Eau (Kin no Kuni Mizu no Kuni);
- Mr. Mallow Blue;
- BOYS OF THE DEAD;
- Black Rose Alice (Kuro Bara Alice);
- Goodnight, I love you…;
- La Belle & la Racaille (Sukeban to Tenkousei);
- Ugly Princess (Kengai Princess);
- My Fair Honey Boy (Mizutama Honey Boy);
- Un Comptable à la Cour (Isekai no Sata wa Shachiku Shidai);
