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KUJIRA joga com os papéis de gênero.

Quando começamos a nossa ‘coluna’ de textos de apresentação e recomendação no blog, isso lá em Setembro de 2021, nós começamos os nossos posts com “Um sinal de afeto” – a época, não estava sequer anunciado aqui – em Setembro, seguido de “Hananoi-kun to Koi no Yamai” – outro que nem sonhávamos que poderia ser anunciado no Brasil – em Outubro e, finalmente, “Honnou Switch” – que também não estava anunciado no Brasil naquela época – em Novembro daquele ano. A época, “Honnou Switch” não era tão conhecido como passou a ser dali alguns anos e não à toa, se tornou o trabalho mais emblemático da carreira da KUJIRA. Se você acompanha o blog há algum tempo, deve saber que somos muito fãs do trabalho da autora e a acompanhamos desde aquela época. Ainda não tivemos muitas oportunidades de escrever sobre ela no site (mas estamos sempre falando dela nas redes sociais), mas hoje, retomamos à obra da autora para recomendar mais um de seus trabalhos! ^^

Saku-chan to Nozomi-kun” (さくちゃんとのぞみくん) é um mangá Shoujo escrito e ilustrado pela KUJIRA. A obra foi publicada entre Novembro de 2016 e Dezembro de 2017 na revista Sylph, da editora ASCII Media Works (KADOKAWA), sendo concluído em apenas 2 volumes. Na França, o mangá chegou entre Setembro e Novembro de 2019 pela Akata sob o título “Entre Deux”.


Na história da obra, acompanhamos um pouco da vida de duas pessoas: a Saku e o Nozomi. Os dois se conhecem desde a infância e, embora não fossem particularmente próximos, ambos construíram uma relação – ainda que com certo distanciamento – graças a uma particularidade que acometia ambos naquela altura: a Saku tinha um irmão mais velho que faleceu e deixou um trauma na sua mãe, que gostaria de ter um menino e descontava esse descontentamento na Saku; já o Nozomi era tratado pela mãe como uma menina e, portanto, fazia com que ele se portasse e até se vestisse como uma garota durante esse período da infância. Ambos não tinham uma proximidade ao ponto de conversarem sobre esse assunto, porém, como ambos possuíam uma proximidade neste quesito, eles conseguiam sentir e entender mais ou menos o que o outro passava e assim, dar um tipo de apoio. Seguimos alguns recortes da vida deles, sendo um pouco da infância como forma de contexto e a adolescência, que é o tempo presente da obra.

A obra vai se desenrolar como um drama e romance, sobretudo na adolescência (o tempo presente), a maneira que a Saku vai se dando conta dos sentimentos que tem pelo Nozomi. O que considero mais bacana e interessante não é nem romance, mas todo esse contexto que a KUJIRA criou para a obra e seus personagens, especialmente pela forma como ela joga com os papéis de gênero e como as ‘atitudes’ desses dois personagens vão ser encaradas pelos demais colegas de classe – o que por sua vez, reflete mais ou menos a maneira como a sociedade lida com essas pessoas. Por exemplo, na tentativa de se parecer mais com um garoto, a Saku deixava o cabelo curto, usava calças, se comportava de forma mais desleixada e “largada”, se aproximando muito mais dos garotos da turma do que com as meninas (se comportava quase que como um ogro), tudo para vender essa imagem de “masculino” e, embora fosse visto com certo estranhamento, era mais aceitável pelos demais.

Em contrapartida, quando pensamos no Nozomi, pelo simples fato de ele ter um cabelo cumprido – veja, ele sequer se vestia ‘como garota’ – e não ser muito próximo dos demais meninos da turma, já era alvo de “piadas” homofóbico, sendo desde muito cedo chamado de viado pelos colegas de turma. O vetor principal dessa homofobia vai ser o Arikawa, que é uma figura importante, pois ele é um exemplo muito clássico dessa figura do homem hétero babaca e vai se relacionar de maneiras diferentes quando pensamos na Saku e no Nozomi ao longo do mangá. O plot da obra não é nem sobre o Nozomi ser gay, porque ele não é, e acho que esse tipo de situação muito importante de ser ilustrada, porque homofobia pode atingir pessoas heterossexuais se elas não performarem esse padrão de heterossexualidade tóxica (e puxando para a vida real, podemos falar sobre isso pensando no Juliano Floss, por exemplo).

– Se você conseguir derrotá-la, isso prova que você é um garoto… e eu irei parar de te chamar assim [viado]
– Então, visto que você perdeu dela… isso quer dizer que você é uma garota?
– Eu perdi de propósito! Eu não iria usar minha verdadeira força contra uma garota!
– ! Pare, Arikawa! Não me trate como uma garota!
– Bom, é o que você é…

Nessa discussão, ainda podemos pensar nesse aspecto do papel de gênero, sobre como “ser homem” ou “ser mulher” está relacionado com coisas (roupas, por exemplo) ou genitálias. Tem uma cena muito boa logo no começo do primeiro volume que ilustra isso muito bem: o Arikawa está mais uma vez xingando o Nozomi de viado e desafia ele a fazer uma queda de braço com a Saku, se ele ganhasse, o Nozomi provaria que é um “homem de verdade”, só que momentos antes o Arikawa tinha feito uma disputa com a Saku e perdido, o que faz o Nozomi retrucar dizendo que bem, já que ele tinha perdido para a Saku, então significava que ele, Arikawa, era uma garota. São coisas que podem ser banais para nós, mas é algo extremamente difícil de ser compreendido pelos conservadores preconceituosos. Nos discursos transfóbicos, AMAM usar como “argumento” que mulheres são aquelas que menstruam, que engravidam, que tem útero… mas se uma pessoa precisa tirar o útero (por N razõs) ela deixa de ser mulher? Uma pessoa pós-menopausa não menstrua, ela deixa de ser mulher? Nessas situações, sobretudo quando falamos de homens, gosto de usar de exemplo a situação: você tem seu pênis, um dia, acontece um acidente e puf, precisa decepar seu membro. Você deixa de ser homem por causa disso?

O fato é que, embora a KUJIRA não vá tããão longe nesse tipo de discussão no mangá, eu gosto muito do jeito como ela joga essas hipocrisias sociais e esses preconceitos que estão muito presentes no nosso cotidiano. Acho muito legal a maneira como a autora trabalha com os medos da adolescência, como as mudanças do corpo – que frequentemente, não é um assunto que os pais abordam com seus filhos -, sobre os primeiros interesses românticos que eventualmente podem aparecer e não sabemos exatamente como lidar, e a KUJIRA consegue expressar isso muito bem. Eu acho que por vezes, ela poderia ir mais à fundo em algumas questões, como as próprias dinâmicas de papeis de gênero ou mesmo, preconceito, mas dentro do espaço limitado que são dois volumes, a autora se sai muito bem pontuando aspectos da adolescência que são muito recorrentes e, portanto, comuns. Eventualmente, é o que a maioria acaba passando (e em certos aspectos, inevitavelmente você vai passar).

* Sangue? Mas… o que isso quer dizer? *
– Hein, você está menstruada?!
– CALA A BOCA, IDIOTA!
– ‘Cala a boca, idiota’? Você fala como uma garota… mas ao mesmo tempo, você é uma garota de verdade, agora que você menstrua!

Ela também pincela sobre relações fraternais e como pais podem ser negligentes com seus filhos ou mesmo, vê-los como “coisa” e não como seres humanos, querendo impor suas vontades e seus desejos, sem compreender (e respeitar) que eles são seres humanos e possuem suas vontades, desejos e anseios, da mesma forma que podem não querer performar ou usar alguma coisa que é puramente um capricho para o próprio ego. O sentimento de posse que muitas vezes vem acompanhado, como uma obrigação realmente daquela criança em fazer TUDO que EU quero, puramente porque EU sou o adulto da relação e, portanto, responsável por ela (que no caso, é associado como responsável = dono). E não somente isso, como as marcas que esse tipo de comportamento tóxico para com os filhos podem ser criadas nos filhos, que tipo de bloqueios e até de traumas podem ser desenvolvidos ao longo da infância por ações de egoísmo e egocentrismo.

No demais, o mangá se desenrola como um romance. É gostoso de ler, mas como eu disse, pelo menos para mim, não é a parte que mais chama atenção no mangá são esses outros aspectos da obra (papeis de gênero, preconceito, medos da adolescência…), Porém, ainda vale comentar: nem todos os sabores da adolescência são doces e a mangaka consegue trazer isso também enquanto explora essa parte mais “simples” e purista do romance escolar. E algo a se dizer da autora é que a KUJIRA é realmente um monumento de mangaka, é fabuloso a maneira como ela consegue pegar plots muito diversos e explorá-los por diferentes vertentes, especialmente no romance. Temos “Saku-chan to Nozomi-kun” explorando papéis de gênero e adolêsncia; “Honnou Switch” é um soft porn com jovens adultos; “Koi wo suru Hi no Lingerie” traz uma protagonista fora dos padrões de beleza se relacionando com um ex-delinquente (que por sua vez, está fora da norma social japonesa); “Sekai no Owari to Majo no Koi” é um Yuri Josei de fantasia… enfim, uma carreira muito bonita!

Simplesmente KUJIRA!

Falamos da carreira da KUJIRA no post de “Honou Switch”, então não vamos ficar nos repetindo aqui, mas gostaria de comentar duas séries que ela começou de lá para cá e que estão em publicação no Japão. A primeira é “hug kiss hug” (ハグ キス ハグ), que ela publica desde Outubro de 2022 na Comic tint (Kodansha) e se trata de um spin-off de “Honnou”. A obra trata de uma personagem secundária de Honnou Switch e conhece um rapaz mais jovem que a ajuda com a insônia que sofre à noite (ele trabalha com isso). A obra conta com 5 volumes publicados e segue em andamento, tendo 250 mil cópias vendidas no Japão. Já o outro mangá é “Koi wo suru Hi no Lingerie” (恋をする日のランジェリー), um outro Josei, só que em publicação na revista Kiss (Kodansha). Está em publicação desde Novembro de 2023 e conta com apenas 3 volumes lançados. É sobre uma garota fora do padrão de magreza que reencontra com um ex-colega de classe delinquente e passam a trabalhar juntos em uma loja de lingeries.

Ainda vale ressaltar que em 2021, “Honnou Switch” não era licenciado no Brasil. Pois em 2022 o mangá foi anunciado e, no entanto, quase 4 anos depois do anúncio, o mangá segue sem previsão de lançamento.

Capa japonesa do primeiro volume de “hug kiss hug
Capa japonesa do primeiro volume de “Koi wo suru Hi no Lingerie

É bom poder voltar a falar da KUJIRA no blog depois de tantos anos e certamente voltaremos a falar dela aqui. Temos uma obra em mente especificamente e que está mais “de fácil alcance” (só preciso comprar), mas torcemos por edições internacionais de “Koi wo suru Hi” para podermos ler e comentar aqui no blog também! Espero que tenham gostado e até a próxima! ^^

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